PUBLICIDADE
Topo

Bateria nuclear pode durar 100 anos, mas você usaria no seu celular?

Pixabay
Imagem: Pixabay
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

25/08/2020 04h00

O processador, o armazenamento, os sensores, o software, as telas. Na miríade de componentes eletrônicos, tudo tem evoluído bem rápido. Mas existe um componente fundamental que precisa evoluir para as próximas gerações de eletrônicos, sejam eles carros autônomos ou devices vestíveis: a bateria.

Quem viveu a época da Guerra Fria talvez tenha dificuldade de aceitar o que parece ser uma grande promessa para esse futuro, as baterias nucleares.

Há 15 anos, escrevi em um dos meus livros sobre a necessidade e evolução das baterias. Um dos exemplos que citei no livro foi um teste realizado pelos pesquisadores da Universidade de Cornell. Eles fizeram uma bateria nuclear baseada em níquel-63 que poderia ter uma vida útil de 100 anos, com a mesma carga de material radioativo de detectores de fumaça em hotéis e aviões.

Ainda que você sinta um certo incomodo em usar uma bateria nuclear em seu laptop, no colo, perto de seus genitais, a tecnologia parece estar evoluindo rápido.

Em 2012, a empresa City Labs lançou uma bateria baseada em trítio, um gás radioativo. Do tamanho de um polegar, a bateria consegue fornecer energia contínua por mais de 20 anos. Dependendo da sua idade, talvez você tenha usado um relógio com marcações de hora e ponteiros acesos. Em muitos deles, o brilho que durava "para sempre" era feita a base de trítio.

Em 2016, um canal especialista em experimentos químicos no Youtube chamado NurdRage criou uma bateria usando trítio. Por usar painéis solares, desses encontrados em calculadoras baratas, conseguiu gerar pouca energia, o equivalente a 1.8 volts e 800 nano amperes. Para fins de comparação, um smartphone costuma usar 5V e 1 ampere.

É pouco, mas usando células fotovoltaicas de boa qualidade e da nova geração, poderia ser suficiente para alimentar alguns dispositivos de internet das coisas que consomem pouca energia. Lembrando ainda que muitos desses dispositivos não precisam ficar ligados o tempo todo, então a bateria poderia alimentar um capacitor para ligar o dispositivo de tempos em tempos.

Este tipo de bateria também seria interessante para locais remotos ou de difícil acesso. Outro uso prático seria em implantes médicos, baixando em cerca de 10 vezes o custo das baterias atuais e diminuindo a necessidade de cirurgias extras para a troca da bateria.

Outra vantagem seria usar em locais inóspitos. Um teste realizado pela Lockheed Martin mostrou que esse tipo de bateria poderia funcionar em uma escala maior de temperatura, de -50ºC a 150ºC. Uma bateria convencional funciona em uma escala bem menor, de 0ºC a 45ºC.

Em 2018, a loja de produtos makers SparkFun vendeu um kit "faça você mesmo" para montar usa própria bateria nuclear. Por causa das restrições de venda deste tipo de material, o kit não vinha com ele, mas indicava onde comprar. O kit não está mais a venda, mas até hoje você pode encontrar trítio para comprar. Em sites populares de comércio eletrônico chinês, é possível comprar uma palheta de 6 mm que brilha por 15 anos por cerca de US$ 8.

Kit Bateria Nuclear - Reprodução/ SparkFun - Reprodução/ SparkFun
Kit Bateria Nuclear que estava a venda na SparkFun
Imagem: Reprodução/ SparkFun

Apesar do trítio ser um material raro e escasso na Terra, acredita-se que a Lua teria o material em abundância. A mesma situação do Hélio-3, outro gás raro na Terra e outra possível fonte para energia limpa. Boa teoria para o Elon Musk, que precisa de boas baterias para a Tesla e tem a SpaceX para buscar o material.

Mas existem outros materiais além do níquel-63 e do trítio. Este ano, cientistas ingleses da Universidade de Bristol, sugeriram reciclar lixo tóxico de usinas nucleares para extrair carbono-14. Segundo eles, uma bateria nuclear com o material poderia fornecer energia em uma base "quase infinita".

Tom Scott, professor líder do projeto, disse em entrevista para a Newsweek que o projeto está em estágio avançado e que já estão fazendo testes com baterias em sensores usados em lugares extremos como o topo de vulcões. Esqueça a Guerra Fria, para quem cresceu lendo Stan Lee, baterias nucleares no topo de vulcão é convite certo para alimentar nossa criatividade.

Porém, com toda a dificuldade que existe em lidar com materiais radioativos, não podemos ignorar nenhuma frente. Continuamos na migração do combustível fóssil para o elétrico. Mas ter carros elétricos na rua não resolve o problema. Não apenas pela geração da energia necessária para alimentar estas baterias como também a quantidade de lixo que estamos deixando no meio ambiente, pois a vida útil das baterias atuais é muito pequena.

E você, usaria uma bateria nuclear no seu smartphone?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.