PUBLICIDADE
Topo

Educação deve mudar e evoluir, com ou sem ajuda de vídeos de TikTok

Vino Li/ Unsplash
Imagem: Vino Li/ Unsplash
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

16/08/2020 04h00

"Acho especialmente fofa a ideia de que todos nós sejamos criativos. A cultura maker (fazedor) é uma das coisas mais ridículas que já vi."

A frase é de Luiz Felipe Pondé. Em seu texto na Folha de S.Paulo, o filósofo usa a ascensão do TikTok em um exercício futurista onde as escolas passariam seu conhecimento usando o formato de 15 segundos com dancinha.

Nada contra Pondé, muito menos a favor do TikTok. Mas o texto tem tantos entendimentos errados que é difícil começar a comentar.

Começo pela agressividade. Não ao TikTok, mas contra quem acredita que a educação deveria mudar e evoluir.

Interessante como, não importando o assunto, quando surge algum movimento que deseje mudar o status quo, a reação contrária e defensiva surge de forma agressiva.

Embute a ideia de que colocar uma cultura maker nas escolas passaria a ser professores ensinando com dancinha de 15 segundos.

Relacionar cultura maker com tiktokers, influenciadores ou dancinha de 15 segundos é um erro ainda maior. Confundir criadores de conteúdo no TikTok com makers só porque ambos são chamados de criadores é um erro banal.

Sim, parece um exagero meu levar ao pé da letra o argumento, mas em tempos de mamadeira de piroca, aprendemos a importância de ver nascer esse tipo de coisa.

Principalmente em um texto sobre TikTok e educação, onde Pondé cita teoria da interseccionalidade, homens brancos heterossexuais, luta contra opressão, desigualdade social e luta pela democracia. Em tempos onde tudo deve ser esquerda ou direita, amigo ou inimigo, sou contra a qualquer tentativa, ainda de forma muito sútil, de enquadrar a cultura maker (ou a necessidade de evoluir a educação) como uma ou outra.

Cultura maker tem sim um forte componente de cultura colaborativa e sustentabilidade e muitas outras características que poderiam ser entendidas como bandeira de esquerda. Mas seria um engano. Projetos e produtos abertos servem a ONGs bem como a grandes corporações. As maiores empresas do mundo hoje como Google, Facebook, Amazon ou Netflix não existiriam sem o open source software. Essas mesmas empresas que continuam criando soluções abertas e colaborando com o open source software por uma série de motivos que vão de facilitar a contratação de profissionais a ter lucro.

Cultura maker tem relação com dar poder às pessoas, mas também uma relação enorme com empreendedorismo.

A educação precisa sim evoluir. Já era claro nas aulas presenciais e ficou ainda mais óbvio com as aulas online. Porém, existe um abismo enorme entre o modelo tradicional de alunos escutando calados por 45 minutos e professores fazendo dancinhas de 15 segundos.

Pondé não precisa se preocupar com o TikTok. Outro conservador irá resolver esse problema.

Trump proibiu o aplicativo nos EUA. E essa é uma faceta mais interessante para se discutir a resistência do status quo, muito mais interessante que um filósofo incomodado com as dancinhas do TikTok.

E um gancho muito mais interessante, caso seja o seu desejo, para se discutir o capitalismo contra o comunismo.

Com a desculpa da preocupação de privacidade e segurança nacional, Trump tenta conter o avanço da China. Não é preciso nenhuma teoria da conspiração para entender que, tanto a proibição do TikTok, como suas investidas contra o 5G da Huawei, o foco de Trump é comercial e político.

Então, sim. É claro que para entender os jovens hoje em dia seria interessante acompanhar o TikTok, mas é também um indício claro que o avanço da China em redes sociais e 5G são apenas indicativos que os EUA estão ficando para trás.

A inovação não se faz com protecionismo. Vimos bem o que significou para o Brasil e como sucateou nossa indústria. Proibir o TikTok não vai impedir a China de continuar a crescer.

Enquanto a China investe centenas de bilhões em tecnologia e educação, EUA e Brasil ficam criando falsos inimigos comunistas e maltratando o capitalismo, não investindo em inovação como deveriam, nem fomentando o empreendedorismo ou botando em prática suas leis antitruste para fomentar a livre concorrência.

No final, o comunismo é apenas um bode expiatório para escamotear nossa própria incompetência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.