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Ricardo Cavallini


Inventores criam equipamentos para combater o coronavírus; quais os riscos

Máscara de snorkel transformada em um respirador - Reprodução/ isinnova.it
Máscara de snorkel transformada em um respirador Imagem: Reprodução/ isinnova.it
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

24/03/2020 04h00

Depois que as válvulas para equipamento de UTI criadas pelos makers italianos chamaram a atenção, dezenas de outras iniciativas surgiram no Brasil e no mundo.

Graças à pandemia de coronavírus, o sistema de saúde de muitas cidades pelo mundo entraram (ou entrarão) em colapso. Isso quer dizer que, dada a demanda, não teremos leitos nem equipamentos médicos para todos os pacientes.

E neste momento de situação de vida ou morte, os makers estão mostrando como pessoas normais podem criar e desenvolver soluções a toque de caixa.

Tem projetos de válvula de respirador, tem projetos de máscaras de respiração e protetores faciais, válvulas bifurcadas para usar o mesmo equipamento para dois pacientes. Tem válvula para transformar uma máscara de snorkel (mergulho) em um respirador. Tem inclusive projetos mais complexos que misturam eletrônica e mecânica para criar ventiladores e respiradores inteiros.

Todo mundo pode ajudar, mesmo quem ainda não se sinta um maker. Um exemplo disso é o projeto de livro comunitário com vários tipos de informações, que vão de como gerenciar sua saúde mental a dicas para pequenos negócios e gestores ou sugestões de como a comunidade pode se ajudar.

Muita gente tem me perguntado sobre eficácia e riscos desse processo, então resolvi colocar alguns pontos.

1. A não ser que você seja formado em química, não tente fazer álcool gel em casa. Primeiro porque não precisa, lavar as mãos é igualmente efetivo. Segundo porque a chance de você criar algo que não tenha efeito e ao mesmo tempo seja perigoso é muito alta.

2. Necessidade de material biocompatível nas impressoras 3D. Não é necessário. As peças e equipamentos que estão sendo produzidos não serão ingeridos nem ficarão dentro do corpo humano.

3. Material tóxico. Como os materiais não serão ingeridos, nenhum dos materiais usados por impressora 3D são tóxicos. Os mais comuns (como ABS e PLA) podem ser tocados e ficar próximos dos pacientes sem problemas. O processo de impressão (enquanto está imprimindo) em si traz alguns alertas, mas basta deixar a impressora em local ventilado e longe do paciente.

Até agora não vi nenhum projeto do tipo, mas é bom deixar claro. Não façam impressão de peças que entrarão em contato com comida. Para isso, todo o processo deveria ser "food safe", tanto material como impressora e tecnologia de impressão.

4. Quase 100% das impressoras não industriais (essas que as pessoas têm em casa) são de uma tecnologia chamada FDM (também conhecida como FFF). Esta tecnologia deixa microporos nas peças impressas. Acredita-se que estes poros podem acumular bactérias e vírus.

Lembrando que estas peças impressas estão sendo produzidas para casos de vida e morte e que os pacientes que estarão usando estes equipamentos já estão infectados.

Existe duas coisas que podem ser feitas para amenizar o risco. A primeira é partir do princípio que a maioria dos processos de esterilização pode não ser efetivos para estas peças, então não utilize a válvula que foi criada para um paciente em outro. A segunda é, pinte com tinta primer e depois com tinta acrílica não tóxica as peças, isso cobrirá os poros.

5. Lembre-se que equipamentos médicos têm vários tipos de certificação. Estas certificações garantem que eles funcionem como deveriam. Se você vai, por exemplo, usar um respirador feito em casa com arduíno, nada garante que ele irá funcionar corretamente pelo período que deveria. Novamente, como estamos falando de casos de vida e morte, entre o receio do respirador travar no meio da noite e a certeza de morte por não usar nada, essa discussão pode não fazer sentido, mas é importante entender os riscos.

6. Por último, mas não menos importante. Estamos falando de uma das indústrias que mais tem certificações, legislação e regras. Eu sou favorável a usar soluções assim para evitar mais mortes, mas essa não será necessariamente a opinião de todo mundo, incluindo a justiça. O hospital que usa uma solução assim, o médico, o maker, todos estão se arriscando legalmente. Entendo a urgência, sou a favor, mas todos deveriam entender os riscos, inclusive legais.

Isso dito, fico muito feliz que os makers estejam ajudando e mostrando para a sociedade que qualquer pessoa pode mudar o mundo a sua volta para melhor.

Espero também que depois que essa pandemia acabar, a sociedade reflita sobre os aprendizados e discuta possíveis mudanças para o próximo problema.

Precisamos, por exemplo, de legislação para permitir e proteger hospitais e residências que utilizem equipamentos feitos em casa no caso de calamidade pública.

Isso também passa por obrigar fabricantes a ter (e disponibilizar) modelos 3D, bem como realizar testes para verificar a eficácia. Como o caso da válvula que custa US$ 11 mil mostrou, não é a ausência do modelo 3D que protegerá o fabricante. E em casos de calamidade pública, todo mundo deveria colaborar.

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Ricardo Cavallini