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Ditadura do algoritmo: YouTube é o novo infectado pelo coronavírus

Youtuber de música passou a falar sobre o coronavírus. O de moda? Idem. O de culinária? Também - Unsplash
Youtuber de música passou a falar sobre o coronavírus. O de moda? Idem. O de culinária? Também Imagem: Unsplash
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

18/03/2020 04h00

Sim, existe conteúdo bom e de qualidade na TV, na internet, em todo lugar. Mas é difícil negar que o grosso, a maior parte, é um lixo atômico da pior qualidade. Fórmulas repetidas a exaustão, no pior ritmo e na pior execução. Dos programas infantis aos policiais.

Na TV, preencher 24 horas por dia de conteúdo não é fácil. Atender a ditadura da audiência, menos ainda. Não à toa os problemas extrapolaram a telinha. Chamadas caça-cliques mentirosas povoam a web. Você clica no título "Pabllo Vittar sofre grave acidente, perde parte do corpo e é socorrida às pressas" para descobrir que foi uma unha quebrada.

O problema se agrava quando a audiência é gerada por um conjunto de regras. Para o algoritmo, o que gera clique ou dislike é entendido como engajamento e relevância, afinal, o algoritmo não é humano, nem no sentido figurado nem no sentido literal.

E quando a qualidade deixa de ser relevante, aquele mesmo "merchan" mentiroso que você assiste no programa de auditório também está presente no final de cada notícia do seu site preferido. Da menina que mente sobre seu primeiro milhão às promessas milagrosas de remédios picaretas.

Este problema é bem claro no YouTube, onde a ditadura não é da audiência, mas do algoritmo. A plataforma tem audiência e alimenta seus criadores distribuindo views como forma de adestramento. Se você atende o algoritmo, você tem audiência.

Um exemplo disso é o fato de o algoritmo privilegiar vídeos longos, onde é possível enfiar mais anúncios. Com isso, vários youtubers passaram a colocar introduções mais longas e encher linguiça. Muito similar a programas da TV paga que, ao voltarem do comercial, repetem vários minutos do conteúdo do bloco anterior, como programas de auditório, que seguram o resultado do teste de paternidade até o último minuto. De maneira mais sutil, noticiários que colocam a notícia mais interessante do dia por último.

Mas o maior problema do modelo atual do algoritmo é valorizar a quantidade de produção de vídeos por cada criador. Desta forma, os youtubers se veem obrigados a produzir vários vídeos por semana —idealmente, mais de um por dia. Existem casos de influenciadores que chegam a fazer vários vídeos por dia.

Não tem milagre: a consequência natural é a qualidade cair. Imagine você tendo que fazer dois vídeos por dia de 10 a 15 minutos. Alguns passaram a fazer "reacts" (ver vídeo de outra pessoa e gravar sua reação) como forma de "criar conteúdo sem precisar criar conteúdo". Porém, esse papel nem cabe para uma boa parte dos criadores e não dá para todo mundo virar um canal só de "reacts". Então foi inevitável para a maioria dos youtubers passarem a fazer vídeos apenas comentando as notícias do dia.

E em tempos de pandemia, não existe outro assunto na plataforma. O novo infectado pelo coronavírus é o próprio YouTube.

O youtuber especialista em música passou a falar sobre o coronavírus. O de moda? Idem. O de culinária? Também. O de maquiagem? Claro. O especialista em impressão 3D? Óbvio. E nessa leva temos títulos bizarros como "Bolsonaro pode ter coronavírus e o grande sucesso do Call of Duty".

Sim, eu sei, o YouTube continua uma plataforma muito relevante de informação. Médicos e cientistas falando sobre o problema com profundidade e didática, mas não deixa de ser interessante — e triste — ver como o algoritmo está transformando a plataforma e seu conteúdo.

Quando alguns youtubers de peso começaram a perder relevância (não no algoritmo, mas na vida real), a plataforma criou o YouTube Originals para financiar produções elaboradas, mas são iniciativas muito pontuais que servem mais para agradar esses criadores do que mudar a curva de qualidade da plataforma.

É esperar para ver se isso terá consequências na audiência e como serão as próximas modificações no algoritmo.

Quantos likes esse texto merece? Se tiver mil likes eu escrevo o próximo texto. E não esqueça de clicar no sininho.

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