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Renato de Castro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Só wi-fi não basta: Como tornar cidades inteligentes em segurança e saúde?

Randy Fath/ Unsplash
Imagem: Randy Fath/ Unsplash
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Renato de Castro

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh, etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

03/11/2021 04h00

Quando falamos de cidades inteligentes, é indiscutível a importância das pessoas nesse processo de transformação urbana, e já falamos bastante sobre esse tema: o cidadão é a peça central do jogo.

A inclusão social e digital de todos é fundamental para que as ferramentas disponíveis sejam utilizadas de forma adequada e, assim, colaborem na melhoria da saúde, cuidados para idosos, segurança, condições de habitação e edifícios inteligentes.

O uso em conjunto de novas tecnologias e metodologias visa torná-las mais acessíveis e melhores, impactando a experiência do cidadão em todas as áreas.

Os pilares que compõem a segunda dimensão —convivência (smart living)— são fundamentais na criação de políticas públicas e estratégias de negócios.

Para a formulação do modelo The Neural, seguindo o exemplo da dimensão pessoas que discutimos no texto anterior, foram levados em consideração três elementos principais:

  1. Os indicadores ISO 37120: 2018, ISO 37122: 2019; e ISO 37123: 2019;
  2. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas;
  3. Análises preliminares dos impactos da pandemia de covid-19 na vida urbana mundial baseado no conceito da Economia Km 4.Zero.

Na dimensão convivência, analisaremos cinco pilares urbanos um tanto quanto conhecidos: habitação, saúde, segurança pública, cultura e esporte e segurança alimentar.

Vamos explorar um pouco mais cada um a seguir:

Habitação

O ambiente em que a pessoa vive tem grande influência na sua vida, seja pela disposição em fazer algo e até mesmo em relação a aspectos de saúde.

Nesse quesito, as ISOs da série 37:100 contemplam um conjunto bem amplo de indicadores que servem como balizadores do nível de desenvolvimento de nossas cidades. Entre eles, podemos destacar:

  • ISO 37120: 2018, que aborda serviços municipais e qualidade de vida, traz índices de moradias inadequadas, economicamente acessíveis, sem-teto e sem títulos de propriedade registrados. Além disso, há uma análise quantitativa de total de domicílios, pessoas por domicílio, taxa de desocupação e residência secundária, espaço habitável por pessoa e residências disponíveis para locação.
  • ISO 37122: 2019, que traz o universo de facilidades inteligentes para o dia a dia como porcentagem de domicílios com medidores inteligentes de energia e água;
  • ISO 37123: 2019, com indicadores para cidades resilientes, analisa a capacidade de abrigos de emergência, a vulnerabilidade estrutural de edifícios e áreas de risco, melhorias implementadas e índices de inundações residenciais;
  • Objetivo 11 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da ONU, primeiro diretamente ligado à habitação, que tem como meta, até 2030, urbanizar as favelas, garantir serviços básicos e o acesso de todos à habitação segura, adequada e a preço acessível.


Saúde

Não é de hoje que sabemos que a saúde rege a capacidade de fazermos algo: nossos antepassados já incluíam em seus processos de seleção os mais fortes e/ou aqueles que tinham mais chances de superar desafios e doenças.

Porém, enquanto no passado cada comunidade tinha peculiaridades locais, com a globalização, o transporte se tornou muito mais rápido, incluindo o de enfermidades, como epidemias do passado anunciavam.

Eu mesmo, em 2016, citei em uma de minhas palestras que o meu deslocamento pelo mundo poderia facilmente ser um canal de contaminação, e a covid-19 chegou anunciando para o mundo que o deslocamento global é sim algo que pode devastar nações.

Mais do que nunca, a administração eficiente de saúde, que inclui previsão e administração de incidentes como uma pandemia, é mais do que fundamental.

Assim como em habitação, a ISO 37:100 é referência quando o tema é saúde:

  • ISO 37:120, que fala sobre a expectativa de vida, leitos hospitalares, números de médicos e taxa de mortalidade infantil;
  • ISO 37:122, que aborda o acesso ao prontuário eletrônico unificado, consultas remotas e acesso a sistemas de alertas públicos sobre a qualidade do ar e água;
  • ISO 37:123, que traz o número de hospitais com geradores de energia, imunizações, números de doenças infecciosas por ano e população com seguro básico de saúde. Vale destacar que aqui, nos Emirados Árabes, todos estrangeiros devem ter um seguro básico de saúde privado, que deve ser oferecido pelo empregador. Já para os cidadãos nascidos aqui, o governo cobre esse custo e garante, a todos, acesso à saúde.

Incluímos também neste quesito o Objetivo 3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da ONU, cuja meta é incluir em estratégias nacionais o acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva e ter uma cobertura universal de saúde, tanto em relação a acesso e qualidade quanto a riscos.

Segurança pública

Após falarmos anteriormente sobre educação no texto da dimensão pessoas e sobre saúde acima, chegou a hora de abordarmos segurança e, assim, fecharmos a tradicional tríade do discurso político: educação, saúde e segurança.

Para os estrangeiros, o Brasil não é bem-visto nessa vertical devido aos altos índices de violência, porém, segurança pública vai além da matança e roubos que vemos diariamente nos noticiários: ela visa a preservação da vida, manutenção da ordem pública e proteção das pessoas e patrimônios.

E esses são os fatores abordados na série ISO 37:120, com foco nos serviços municipais e qualidade de vida, que tem listada cinco indicadores essenciais e cinco de apoio, maior número de referências quando comparada à ISO de cidades inteligentes e resiliência.

  • ISO 37:200, que tem como fundamentos a quantidade de bombeiros, policiais, mortes relacionadas a incêndios, desastres naturais e homicídios;
  • ISO 37:122, com números da área da cidade coberta por câmeras de vigilância;
  • ISO 37:123, que verifica os leitos destruídos ou danificados por desastres, o treinamento de equipes de emergência para eventos desse tipo e se os alertas emitidos por autoridades nacionais são recebidos em tempo hábil pelo município;
  • Objetivo 11 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da ONU, que visa proporcionar o acesso universal a espaços públicos seguros;
  • Objetivo 16 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da ONU, que visa promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso a justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas a todos os níveis.

Cultura e esporte

Como falamos anteriormente, muito de uma cidade está ligado ao seu DNA, e a cultura tem um grande papel nisso. O esporte também é fundamental nas relações e interações sociais, além de promover a saúde e inclusão social, o que colabora com esse pilar também.

Pensar em cultura e esporte é manter vivo o DNA de um município e garantir a sua continuidade. Assim, temos dentro da normativa ISO:

  • ISO 37:120, o número de instituições culturais, instalações esportivas e orçamento alocado para essas áreas;
  • ISO 37:122, o acervo disponível em bibliotecas públicas e acervos digitais, seus usuários, a digitalização do acervo cultural da cidade, a reserva on-line para iniciativas culturais e a quantidade de eventos desse gênero.

Aqui, é importante notar que a ISO 37:123, que fala sobre resiliência, não tem qualquer menção, ainda, relativa à cultura e esporte.

Segurança alimentar

A sociedade tem crescido e a demanda por alimentos também. Atualmente, temos falado sobre a agricultura urbana como estratégia de subsistência para algumas famílias, principalmente em países em desenvolvimento, e como política ambiental. Além disso, a alimentação também impacta a saúde da população.

Em um texto anterior aqui na coluna, falei sobre a inauguração da maior fazenda urbana em telhado do mundo, na França, e a iniciativa de Paris para que moradores possam locar espaços para plantio próprio, aumentando, assim, o engajamento social.

E o país europeu não está sozinho nessa. Aqui nos Emirados, também temos projetos nesse sentido como a fazenda vertical de Abu Dhabi, que tem uma área equivalente a 22 campos de futebol no meio do deserto para produção agrícola.

Para fecharmos os cinco pilares urbanos da dimensão convivência, veremos as ISOs que falam sobre agricultura local/urbana e segurança alimentar:

  • ISO 37:120, traz os números de área agrícola urbana, quantidade de alimentos produzidos localmente e porcentagem da população desnutrida, com sobrepeso ou obesa;
  • ISO 37:122, aborda o orçamento para iniciativas de agricultura urbana, envio de resíduos para compostagem e sistema para monitoramento de fornecedores de alimentos;
  • ISO 37:123, analisa a população que mora a um quilômetro de um mercado e a porcentagem que pode ser atendida com as reservas de alimentos por 72 horas em caso de emergência.

Como vocês podem notar, apesar dos cinco pilares terem suas características únicas, em algum momento eles se cruzam e passam a influenciar uns aos outros, confirmando a teoria do modelo de conexões neurais.

Em nosso próximo texto, vamos falar sobre smart government, quando entraremos um pouco mais na parte de governança e políticas públicas.

Até lá, nos conte abaixo como os cinco pilares da dimensão convivência influenciam o seu cotidiano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL