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Renato de Castro

Dados de desigualdade racial gritam, mas não conseguimos ouvir bem

Renato de Castro
Imagem: Renato de Castro
Renato de Castro

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho consultivo global da Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

26/11/2020 04h00

Esta semana fizemos algo diferente. Depois de quase dois anos e meio de coluna e mais de 130 textos publicados, pela primeira vez convidamos duas pessoas baseado na cor de suas peles. Nunca tinha nem sequer passado pela minha cabeça uma possível diferenciação por cor!

Foi uma declaração explícita de uma posição antirracista! E o papo flui muito bacana. Exploramos a fundo as dores, preocupações e principalmente possíveis caminhos para tornar nossa sociedade mais consciente e inclusiva.

De um lado, Marcos Lima, meu amigo desde 1989, um dos meus ídolos do setor financeiro, e do outro lado, Claudio Nascimento, companheiro de edificação das nossas smart cities, com quem já dividi diversos palcos pelo mundo. Só que desta vez nós não convidamos o executivo de um grande banco e o gestor público para um debate. Eles vieram como dois cidadãos negros, pais de família, para compartilharem suas opiniões e principalmente experiências sobre o racismo estrutural no Brasil.

Nossos convidados trouxeram alguns números que expressam bem como o tema é importante para a sociedade e, na maioria das vezes, são subestimados pelos que insistem em defender a tese de que não há racismo no Brasil.

De acordo com o IBGE, a maioria da população brasileira, 56,1% dos habitantes autodeclaram-se negros (pretos ou pardos).

E mais, a proporção de negros e pardos entre os 1% mais ricos da população era de 17,4% em 2015, ao passo que o grupo dos 10% mais pobres possuía um total de 75% de negros e pardos.

70% das pessoas classificadas na extrema pobreza no país são pretas ou pardas.

Não para por aí, 71% das vítimas de homicídio em 2016* e 61 % da população carcerária no Brasil são pretas ou pardas.

Essa desigualdade racial grita, mas parece que não conseguimos ouvir bem!

Esses são, nas palavras do Marcos Lima, indicadores que deveriam pelo menos causar um grande desconforto em qualquer um que gostaria de viver em cidades inteligentes. Alguém discorda?

O debate foi aberto, descontraído e muito verdadeiro, como bem pontuaram nossos convidados. Devido a relevância do tema e a importância em evoluir essa discussão, criamos um grupo temporário de WhatsApp para que todos nossos leitores possam participar deste debate com nossos convidados. Como o próprio nome do grupo indica, Smart Color, são todos bem-vindos: pretos, verdes, amarelos, vermelhos, brancos e multicores.

Se você perdeu esses 70 minutos de muita reflexão, ainda dá tempo de assistir a live e principalmente de contribuir para o debate. Nos vemos na próxima semana.

* Segundo o Atlas da Violência 2020, as taxas de morte da população negra apresenta crescimento nacional nos últimos anos. Em 2018, o último que tem os dados compilados no documento, 75,7% das vítimas de homicídios são pretas e pardas. As informações são do Estadão Conteúdo