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A vez das pequenas: pandemia e tecnologia aceleraram era de cidades-estados

Gerd Altmann/ Pixabay
Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay
Renato de Castro

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho consultivo global da Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

29/09/2020 04h00Atualizada em 30/09/2020 13h52

No final de 2019, a China anunciou que humanos foram infectados por um novo coronavírus na cidade de Wuhan. Chamado de SARS-CoV-2, o vírus se espalhou rapidamente e em 31 de agosto de 2020 já havia infectado mais de 25 milhões de pessoas em 188 países e tinha sido responsável por mais de 847 mil mortes, de acordo com o "Coronavirus Resource Center", da Universidade Johns Hopkins. Para reduzir o número de mortes e não colapsar o sistema de saúde, mais de 100 países entraram em bloqueio total ou parcial, incluindo o Brasil e quase todos os países da Europa.

Essas medidas tiveram um impacto significativo na economia. Após revisar as projeções da economia europeia, a Comissão Europeia prevê uma redução de 7,4% na região. Inicialmente, antes da pandemia do coronavírus, previa-se que a economia cresceria 1,2% em 2020. Os piores cenários serão na Itália e na Grécia, onde se espera que o PIB diminua 9,5 e 9,7 por cento, respectivamente. Mas o impacto não se limita às nações europeias.

De acordo com um estudo realizado pelo Grupo Bain Macro Trends, numa escala de 0 a 10, a partir de 9 de junho de 2020, a pandemia encontra-se no nível 7, o que significa que impacta economias em diversos mercados. O relatório sugere que as empresas devem ativar procedimentos de contingência de segundo nível que incluem a separação de operações e serviços essenciais, focando em "clientes" e "clientes de alta prioridade" e implementando preparações operacionais e financeiras consistentes com uma recessão de dois a três trimestres.

O Banco Mundial alerta que a maioria dos países enfrentará recessão este ano e a renda per capita se contrairá no nível mais baixo já visto desde 1870. Com o encolhimento da economia mundial, o Banco Mundial estima que o número de pessoas no grupo de extrema pobreza (renda inferior a US$ 1,90 por dia) também aumentará algo entre 71 e 100 milhões de indivíduos.

O cenário de base assume que o surto permanece nos níveis atualmente esperados e que a atividade se recupera ainda este ano, enquanto o cenário de estresse assume que os surtos persistem por mais tempo do que o esperado, forçando as medidas de bloqueio a serem mantida ou reintroduzida.

Como já mencionei em diversos textos, os cidadãos se tornaram um importante stakeholder em nossas cidades. A Quarta Revolução Industrial com todas as tecnologias aplicadas tem contribuído para o aumento da qualidade de vida urbana e a elevação dos níveis de renda. É importante entender que a verdadeira ruptura não é a tecnologia em si, mas a velocidade com que as mudanças estão ocorrendo. De fato, a crise mundial provocada pela covid-19 acabou sendo o catalisador para acelerar o ritmo de mudança e antecipar algumas das tendências já esperadas para um futuro mais próximo. Podemos destacar três delas, com conexão direta ao conceito de cidade como plataforma:

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Com a reabertura das cidades, novas tendências começam a ganhar força pelo mundo
Imagem: halfpoint

1. Localização x Globalização: o superlocal

Uma maneira rápida e fácil de definir localização seria dizer que é literalmente o oposto de globalização. No entanto, quando explicada dessa forma, a localização soa mais como um movimento de ONGs contra o capitalismo, ou como movimentos separatistas radicais, quando na verdade está longe disso.

Ser local tornou-se uma tendência há alguns anos. Da moda à alimentação, é fácil encontrar motivos para justificar a produção e a compra localmente. Além disso, o desejo de ser mais verde e a orientação para um estilo de vida mais sustentável visto nas novas gerações já impulsionavam essa tendência.

Um estudo do Programa de Comunicação sobre Mudança Climática de Yale identificou que as gerações mais jovens são mais propensas a considerar o aquecimento global como algo pessoalmente importante e/ou estar dispostas a se engajar no ativismo climático. Inconscientemente, parece que essas gerações começaram a fazer algumas mudanças em seus hábitos de consumo e podem ter força para isso.

Com as novas gerações na liderança, é provável que a nova economia mundial siga tecnologias como inteligência artificial, Internet das Coisas e todas as hipertecnologias que fazem parte da Quarta Revolução Industrial, mas deficiências do modelo "tradicional" de globalização, como a alta concentração da produção em um pequeno número de países, o consumo desordenado e as crescentes ameaças ambientais também precisarão ser abordadas.

2. Tec para solução urbana e resiliência: o hipertecnológico

Em somente três meses de pandemia, o Zoom, líder mundial em comunicações de vídeo, saltou de 10 milhões de usuários diários para mais de 200 milhões em março de 2020, o que inclui 90 mil escolas em 20 países diferentes. Consequentemente, de acordo com o Business Insider, com uma capitalização de mercado de US$ 48,78 bilhões, a empresa hoje vale mais do que as sete maiores companhias aéreas do mundo juntas.

Isso mostra como é importante ter a tecnologia aplicada a problemas da vida real. Em um momento que as pessoas precisavam se conectar online, o Zoom ofereceu uma solução gratuita que poderia ser usada em diversos dispositivos em qualquer lugar do mundo. Um crescimento tão abrupto trouxe algumas consequências negativas como a falta de segurança, mas a empresa conseguiu resolvê-las rapidamente, não afetando o valor da marca.

Outra empresa que ultrapassou negócios tradicionais durante o período em que vários países estavam em bloqueio foi a Netflix. A empresa de streaming tinha uma capitalização de mercado de US$ 187,3 bilhões, ficando um pouco acima da Disney, que possui vários negócios —de produção de vídeo a parques de diversões—, avaliada em US$ 186,6 bilhões.

Mas essa mudança pode não durar muito: de olho na tendência de que os usuários desejam ter o controle do que assistem, em novembro de 2019, a Disney lançou seu próprio serviço de transmissão, Disney +, nos Estados Unidos, Canadá e Holanda. Uma semana depois, o serviço foi expandido para Austrália, Nova Zelândia e Porto Rico, e agora também está disponível na Europa. Para o Brasil, a previsão de início de atividades é para novembro de 2020.

Estaremos diante de uma nova ordem nos investimentos em inovação em tecnologia. Agora é hora de tecnologias aplicadas a problemas reais.

3. A nova era das cidades-estados

O dicionário Oxford define cidade-estado como "(especialmente no passado) um estado independente que consiste em uma cidade e a área ao redor dela (por exemplo, Atenas nos tempos antigos)". Hoje em dia não usamos mais essa definição, porém, a influência que algumas cidades têm sobre uma nação pode nos lembrar o conceito. Por exemplo, o impacto que grandes cidades como Barcelona, Nova York, Londres, Nova Déli, Pequim e São Paulo podem ter na economia às vezes define o caminho a ser seguido.

Agora, a tecnologia está dando a chance de colocar as pequenas cidades também como protagonistas, pois às vezes é mais fácil implementar políticas públicas em cidades menores. E mais, em realidades menos complexas, novas soluções podem ser mais eficazes no que diz respeito à resiliência.

Foram exatamente megalópoles como Nova York, Londres, Barcelona e São Paulo, algumas delas já no topo do ranking das smart cities mundiais, que mais sofreram com o surto de covid-19. Resiliência em relação à inteligência será o dilema a ser enfrentado por nossas cidades e o conceito de cidade como plataforma definitivamente deve estar alinhado a essa tendência.

A crise mundial do covid-19 acabou sendo o catalisador que faltava para imprimir velocidade às mudanças. Bem-vindo ao novo e superdinâmico "normal". Nos vemos no próximo texto.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que estava escrito no texto, o vírus da pandemia de 2020 chama-se SARS-CoV-2, e não covid-19. O texto foi corrigido.