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REPORTAGEM

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"Paguei aluguel assim": moradores buscam ajuda no Facebook para sobreviver

Patrícia Ferreira utiliza a página Piraporinha City para receber doações - Igor Ferreira
Patrícia Ferreira utiliza a página Piraporinha City para receber doações Imagem: Igor Ferreira
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

07/04/2021 04h00

Com a crise gerada pela pandemia de coronavírus, a página Piraporinha City no Facebook, que divulga acontecimentos do cotidiano dos moradores do Jardim São Luís e Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, passou a conectar pessoas que oferecem trabalho ou podem doar alimentos a quem passa por dificuldades financeiras, falta de emprego ou escassez de comida em casa.

Uma dessas pessoas que utiliza a página para solicitar doações de alimentos para a sua família é Patrícia Ferreira, 49, moradora do Jardim Santa Margarida. Ela está sobrevivendo graças às arrecadações de doações que divulga na página da rede social, que conta com mais de 60 mil seguidores.

Ferreira conta que logo no começo da pandemia perdeu seu emprego de condutora escolar. Desde então ela vem contando com o apoio da rede de solidariedade digital criada pela Piraporinha City para sustentar seus filhos. "Como eu tenho um filho especial acamado, a página publica coisas dele para me ajudar com a dieta, fralda ou até mesmo com meu serviço de condutora escolar. A gente coloca lá na página essas informações que me ajudam muito", diz.

Durante a entrevista com um dos organizadores da página, mais de 30 pedidos de doações chegaram na caixa de entrada da página no Facebook para serem publicados ao longo do dia.

"No início da pandemia, a gente postava individualmente quando alguém estava precisando de alguma coisa. Mas hoje, somente na parte da manhã, eu recebi mais de 30 mensagens de famílias precisando de cesta básica, pedindo leite, arroz e produtos de higiene", diz um dos produtores de conteúdo da Piraporinha City, que preferiu não se identificar devido a ameaças que eles recebem por se posicionar politicamente nas periferias.

Ele enfatiza que com o agravamento da pandemia e do desemprego, semanalmente a página reserva um espaço de anúncios para mapear onde estão acontecendo doações de alimentos e então o próprio seguidor começa a informar nos comentários outras organizações ou igrejas que também realizam esse serviço social.

O administrador da página ressalta que além das doações, a Piraporinha City também procura divulgar vagas de emprego. "Toda semana a gente posta vagas de emprego, e muitos seguidores já conseguiram trabalho através das nossas postagens", afirma.

O administrador diz que para organizar o crescente fluxo de pedidos de doações foi preciso adotar uma política de privacidade para preservar os dados de contato das pessoas que precisam de ajuda.

"A gente não gosta de expor o contato da pessoa nas redes sociais, só quando a pessoa quer expor mesmo. Normalmente funciona assim: a gente faz a solicitação e posta na página, aí algum grupo de doadores ou alguma instituição entra em contato e a gente repassa o contato da pessoa que precisa das doações", diz.

A Piraporinha City existe desde 2013, mas ficou inativa durante três anos. Em 2016 começou a distribuir conteúdo, que, segundo o administrador, é criado pelos próprios seguidores, que fornecem informações sobre doações, oportunidades de emprego, situação do trânsito local, entre outros assuntos relevantes aos moradores.

"Graças à Piraporinha City eu paguei meu aluguel esse mês"

Ruth Costa, 24, moradora do Jardim Leônidas, no distrito do Campo Limpo, zona sul da cidade, trabalha vendendo balas no farol, uma atividade comum no cotidiano do morador da quebrada, mas que ficou mais difícil de ser realizada durante a pandemia.

"Eu só recebo R$ 180 do Bolsa Família. Estava muito preocupada, não sabia o que fazer, ai eu falei: vou pedir ajuda na página Piraporinha City, pois eles sempre me ajudam. Eu fui lá para ver se alguém podia me ajudar a pagar o aluguel porque eu não estou conseguindo vender bala nem água no farol", diz.

Para a moradora, a sua situação ficou ainda mais complicada por ela ter transtornos mentais e não ter recebido suporte de políticas públicas ainda. "Eu sou especial, tenho problema mental, não consegui encostar no INSS ainda. Estou há três meses esperando o INSS e até agora nada", diz.

Enquanto o apoio do governo não chega, Costa recorre a página Piraporinha City para pedir ajuda. O engajamento dos seguidores foi imediato. "As pessoas do grupo me ajudaram, pediram meu PIX e depositaram na minha conta, me chamaram no WhatsApp e, graças à Piraporinha City, eu paguei meu aluguel desse mês", afirma.

Costa diz que o acesso à internet ainda é uma barreira para conseguir receber doações por meio de soluções digitais. "Não ter acesso à internet é muito ruim, a gente fica longe da família, dos amigos, não tem como se comunicar, não tem como falar com alguém, a gente fica isolado do mundo, é muito ruim", diz.