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Quebrada Tech

REPORTAGEM

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100% digital, evento geek da quebrada propõe inclusão com cosplayers negros

Cosmaker Larissa Santos participa da primeira edição do PerifaCon - Arquivo Pessoal/ Larissa Santos
Cosmaker Larissa Santos participa da primeira edição do PerifaCon Imagem: Arquivo Pessoal/ Larissa Santos
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

24/03/2021 04h00

A PerifaCon, conhecida como "ComicCon das favelas", realiza o festival "PerifaCon — Brotando nas Redes: É Papo de Futuro" com programação nerd, geek e pop inteiramente gratuita e aberta ao público nas redes sociais, neste final de semana (26, 27, e 28 de março). Este é o primeiro evento 100% digital da PerifaCon, o que, segundo os organizadores, pode ser um desafio para alcançar o morador da quebrada que não tem acesso a internet.

O público poderá acessar atividades gravadas e em tempo real por meio de transmissões ao vivo. O evento deste ano reúne painéis temáticos, ciclo de formações para quadrinistas e ilustradores e um concurso de cosplay dedicado à comunidade negra.

Para o concurso, os participantes terão que fazer uma apresentação performando algum personagem do universo geek, utilizando cômodos da sua casa como cenário, onde o próprio público presente no evento irá votar e escolher os vencedores.

"O público vai conseguir participar ativamente ali na interação durante a live. Nos painéis que já estão gravados, essa interação vai se dar muito através de comentários, reações, sem contar que as interações já estão acontecendo nas redes sociais do PerifaCon", diz Luize Tavares, 24, moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, que atua na comunicação do evento.

"A gente entende que seria interessante trazer mais essas pessoas, principalmente porque a gente vai premiar o vencedor. Outra forma de participação do público é a votação de quem leva o prêmio de R$ 1.000 do concurso de cosplay", acrescenta.

Uma das participantes da competição de cosplay é a cosmaker Larissa Santos, 25, moradora do Itaim Paulista, distrito da zona leste de São Paulo. Para ela, a PerifaCon é uma exposição do potencial artístico da periferia em relação à cultura geek e pop.

"É a primeira vez que vejo um concurso só para cosplayers pretos. Isso é maravilhoso para incentivar os pretos a fazerem cosplay, independente do personagem, se é asiático ou branco. O importante é ter mais pessoas pretas, principalmente da periferia. Vai ser maravilhoso chegar no evento e encontrar mais pessoas pretas no evento fazendo cosplay", diz Larissa.

"Ter um evento na periferia do porte da PerifaCon, que está sempre crescendo e se desenvolvendo, trazendo os artistas pretos, é muito importante para as pessoas terem noção de que o talento em diversas áreas da cultura geek e pop surge também na periferia. Não é só fora daqui", acrescenta.

Cosmaker há oito anos, Larissa também é criadora de conteúdo digital e revela que a sua aproximação da cultura cosplay se deu com o jogo Street Fighter. "É o meu jogo predileto. A minha primeira conexão para produzir um cosplay foi a Chun-Li, uma das primeiras personagens femininas protagonizando um jogo", lembra.

Na época, a produção de conteúdo digital na internet sobre a cultura nerd ainda estava se desenvolvendo. "Na época não tinha muitos tutoriais como tem hoje, com as pessoas dividindo as coisas na internet, escrevendo livros, disponibilizando tutoriais, a galera acompanhando nas redes sociais a produção passo a passo".

Após essa experiência inicial, ela começou a produzir a própria fantasia para performar a personagem. Hoje, a cultura cosplay se tornou sua única fonte de renda.

"Ao longo dos anos eu montei um estúdio em casa, tanto de fotografia como de produção, e eu trabalho na área como cosmakers, produzo os figurinos para outras pessoas e agências", diz.

"Eu não visto só uma roupa, um figurino e vou para o evento, eu participo de competições, sou jurada, palestrante, apresentadora, então o cosplay abriu um leque de possibilidades para mim", acrescenta.

Internet é desafio

A equipe organizadora da PerifaCon acredita que sua maior dificuldade será dialogar com o público da periferia por meio do universo digital, reconhecendo que o acesso a internet e a dispositivos móveis impede que uma boa parte dos moradores tenha uma experiência de interação inclusiva.

"O acesso a internet hoje ainda faz parte de uma bolha, tem centenas, milhares de pessoas que não têm acesso a qualquer tipo de internet, que não tem acesso a qualquer tipo de smartphone, é um fato que a gente não pode ignorar", diz Luize Tavares, 24, moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, que atua na comunicação do evento.

Segundo Luize, a única solução para inserir ainda mais as periferias e favelas dentro do entretenimento digital é a construção de políticas públicas para esse público. "Querendo ou não, o público que não tem acesso a internet não quer mais esperar e não pode mais esperar. As coisas estão acontecendo e elas precisam ter acesso ao universo, ao mundo, a gente tem sim uma responsabilidade", diz.

Essa reflexão mexeu com as estruturas do primeiro evento a fomentar a cultura nerd na quebrada. "O Brotando nas Redes partiu da necessidade de a gente se reinventar. O evento era físico e a gente vinha trabalhando há meses nele, mas teve que ser cancelado faltando menos de um mês para acontecer. Aí a gente se pegou refletindo: o que vai ser do futuro da PerifaCon, qual que vai ser o nosso futuro enquanto criadores desse projeto, qual o futuro que a gente quer", conta Luize.

Todos os eventos estavam se tornando virtuais na pandemia, e a equipe teve que começar a pensar em novas maneiras de produzir conteúdo dentro do universo digital.

"O Brotando nas Redes é um encontro onde a gente quer reafirmar essa cena nerd, geek, pop das periferias e principalmente manter ela em movimento", afirma.

"O Brotando nas Redes marca a entrada oficial no mundo digital, porque a única coisa que a gente tinha no digital eram os nossos perfis nas redes sociais, mas a gente nunca produziu conteúdo. A gente normalmente produzia conteúdo editorial para algum outro canal, para alguma outra finalidade, e o Brotando nas Redes está sendo criado e pensado para o digital", conclui.