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REPORTAGEM

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Lives budistas elevam o astral de moradores da periferia durante a pandemia

Marlon Mitsunaga organiza os encontros virtuais sobre budismo na quebrada - Tamires Rodrigues
Marlon Mitsunaga organiza os encontros virtuais sobre budismo na quebrada Imagem: Tamires Rodrigues
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Tamires Rodrigues

24/02/2021 04h00

A Associação Brasil Soka Gakkai Internacional aproveitou o momento de pandemia para criar espaços virtuais de difusão do budismo, por meio da criação de um núcleo virtual onde moradores das periferias da zona sul de São Paulo, se encontram para trocar e aprofundar seus conhecimentos sobre a religião.

O núcleo conta com 443 famílias que se reúnem por meio de lives, formadas por moradores nas localidades do Jardim Ângela, Guarapiranga, Capão Redondo e Jardim São Luis.

Marlon Mitsunaga, 23, morador do Jardim Santa Margarida, tem se dedicado a organizar esses encontros virtuais. Uma de suas funções é organizar o núcleo de crianças e adolescentes da região do M'Boi Mirim, na zona sul.

O morador define o budismo como uma filosofia que mostra que todas as pessoas têm o direito de ser feliz. Mitsunaga é psicólogo e praticante do budismo.

Segundo Mitsunaga, a filosofia budista tem o propósito de despertar uma transformação social no próprio sujeito periférico. "Entendendo que essa realidade pode ser transformada por nós mesmos da quebrada, em vários momentos a gente espera uma transformação externa, mas a gente tem um potencial gigantesco em nosso próprio bairro", diz.

Ele afirma que tomou a decisão de seguir o budismo quando era criança e percebeu a transformação que a filosofia causou em seu avô.

"Ele começou a praticar o budismo já na terceira idade, quando tinha 70 e poucos anos. Ele era alcoólatra, fumante, tinhas várias questões... Por meio da prática budista, ele começou o seu processo pessoal de revolução humana, e isso foi muito perceptível para mim, enquanto criança que estava crescendo e percebendo uma pessoa diferente dentro de casa", lembra.

Cada bairro representa um núcleo virtual onde são organizados os diálogos, possibilitando o surgimento de pequenos coletivos de moradores que vão se consolidando com a sequência de reuniões. "Dentro desses bairros a gente consegue entender a realidade de cada pessoa e entender de que forma isso conversa com a filosofia de vida budista", afirma Mitsunaga.

Ele acrescenta que a proposta do budismo é estar dentro do núcleo familiar.

Antes da pandemia, os encontros aconteciam de maneira presencial regado de comes e bebes. Mas com a necessidade de adaptação no cenário de quarentena, a organização propôs virtualizar os diálogos e se conectar com os moradores através de telas de celulares, tablets e computadores. "A gente percebeu que esses encontros virtuais são possíveis", diz.

Cada localidade utiliza um aplicativo de sala virtual diferente, porém a plataforma Google Meet costuma ser a mais utilizada. "A gente tem muitas visitas que estão acontecendo de maneira virtual. A videochamada de dupla ou trio, para facilitar, são feitas pelo WhatsApp", afirma

Os membros também costumam utilizar aplicativos de mensagens instantâneas e chamadas de voz para smartphones para discutir sobre a filosofia budista em determinados dias da semana, sempre no período da tarde.

"A gente troca ideia de coração para coração mesmo. Quem está no seu quarto acaba trocando ideia com seus amigos que estão a fim de conversar sobre essa filosofia humanista, tá ligado", diz Mitsunaga.

Nathalia Porcelli, 29, é uma das moradoras participantes do núcleo virtual de filosofia budista na M´Boi Mirim - Arquivo pessoal/ Sonia Maria - Arquivo pessoal/ Sonia Maria
Nathalia Porcelli, 29, é uma das participantes do núcleo virtual de filosofia budista no M'Boi Mirim
Imagem: Arquivo pessoal/ Sonia Maria

Renovar energia durante a pandemia

Uma das participantes do núcleo virtual é Nathalia Porcelli, 29. Ela conheceu o budismo através da sua irmã. Antes disso, a moradora do Jardim Santa Margarida, localizado no distrito do Jardim Ângela, diz que tinha uma percepção totalmente distante sobre o que é a religião e a realidade da quebrada.

"O curioso é que antes de conhecer o budismo eu não sabia que tinha essa religião na periferia. Achava que era uma coisa que só iria ter lá no bairro da Liberdade. Quando eu conheci percebi que é bem acessível", diz Porcelli.

Para a jovem, os encontros virtuais serviram como apoio para renovar suas energias durante a pandemia. "As atividades sempre são energizantes, sempre que participo fico muito animada. É muito gostoso, você renova totalmente a energia", afirma.

Segundo Porcelli, a maior conexão entre as pessoas que fazem parte dos diálogos virtuais é o propósito do grupo. "Agora que estamos praticamente um ano sem fazer atividades presenciais, essas atividades virtuais são muito importantes. Por mais que a gente esteja fisicamente separado, a gente está junto no coração, na mente e nos nossos objetivos", diz.

"Certa vez, a gente teve uma apresentação musical com uma drag queen. Ela cantou 'O Amor e o Poder (Como uma Deusa)', ela estava toda caracterizada, maquiada, com direito a peruca e tudo. Também teve um teatrinho neste dia, foi bem legal. Foi um show exclusivo feito virtualmente, a gente viu pela telinha do computador, mas foi maravilhoso". diz Porcelli sobre um dos encontros marcantes.

Além dos encontros virtuais, Porcelli considera importante buscar outros meios para estudar a filosofia budista. "A gente tem muita orientação: têm livros, jornal, muitos canais digitais e meios para gente conseguir ter uma consulta", diz.

Desconectados

Mitsunaga diz que uma quantidade significativa de participantes não está habituado com a tecnologia, fazendo com que muitas pessoas desistam de acompanhar os encontros.

"Eles acabam achando que não são capazes de entrar nessa realidade, então ficam de fora. Nosso desafio tem sido não deixar ninguém para trás e estar conectado a essas pessoas", diz.

"Eu já precisei repetir várias vezes o que falei porque minha internet caiu, meu equipamento não é de última geração ou o mais moderno do mundo. Não é raro desaparecer as imagens de todo mundo durante as reuniões virtuais. São dificuldades dessa nova realidade do mundo pandêmico que a gente está tentando se adaptar", acrescenta.

"Temos membros que não possuem um computador para acessar essa atividade virtual ou não possuem celular para baixar um aplicativo, ou tem celular, tem computador e não tem internet, ou então pode ter internet ou celular, mas a pessoa não saber manusear... Isso também é uma realidade que a gente está vivenciando, principalmente entre os veteranos, que não são muito familiarizados com essa dinâmica virtual", finaliza.