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Pergunta pro Jokura

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quem inventou a UTI? Rolou tecnologia e muito esforço para ajudar pacientes

Sungmin Cho/ Pixabay
Imagem: Sungmin Cho/ Pixabay
Tiago Jokura

Tiago Jokura é jornalista e, portanto, curioso profissional. Passou os últimos 15 anos respondendo as dúvidas mais complexas e inusitadas dos leitores na mídia impressa ? na tentativa infinita de explicar como o mundo funciona com clareza e bom humor. Agora, continua essa saga aqui no UOL. Mande sua pergunta cabeluda que ele faz questão de pentear.

10/05/2021 04h00

Quem inventou a UTI? - Pergunta de Roni Frias, de Boa Saúde (RN) - quer enviar uma pergunta também? Clique aqui.

Saúde, caro boasaudense. Na verdade, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não é obra de um único sujeito. Ela tem vários criadores ao longo da história.

Mas se fosse para eleger um pai, talvez o crédito devesse ir para o dinamarquês Bjørn Aage Ibsen, que morreu em 2007, aos 91 anos. No início dos anos 1950, o Zé Gotinha e a vacina que ele representa, contra a poliomelite, ainda não tinham dado as caras no planeta. Logo, epidemias de paralisia infantil eram relativamente comuns pelo mundo.

Em 1952, um surto de pólio acometeu milhares de pessoas em Copenhague, a capital dinamarquesa. Centenas dos contaminados necessitavam de auxílio respiratório e à época a opção mais usada para ventilação era um trambolho chamado pulmão de aço.

O enfermo entrava na máquina, deitado, e ficava só com a cabeça para fora. Lá dentro, era criado um vácuo que estimulava a expansão dos pulmões para que mais ar entrasse —técnica conhecida como ventilação por pressão negativa.

Pulmão de aço - Articseahorse/ Creative Commons - Articseahorse/ Creative Commons
Pulmão de aço localizado em um posto do exército americano no Texas
Imagem: Articseahorse/ Creative Commons

Como a cidade só tinha uma máquina para mais de 300 pacientes com quadro respiratório grave, Ibsen teve a ideia de trabalhar com um procedimento em massa para fornecer o ar de maneira direta aos pulmões debilitados: por meio de um corte na traqueia (traqueostomia), um tubo era inserido para ventilar os pulmões.

Só que os ventiladores não eram automáticos e uma tropa de choque de médicos e estudantes de medicina e até de odontologia foi convocada para bombear o ar, manualmente, para cada paciente. A cada turno eram pelo menos 70 profissionais envolvidos nesta função. A intubação em massa foi um sucesso e estava inaugurada a era das UTIs.

No ano seguinte, Ibsen montou o que pode ser considerada a primeira UTI médico-cirúrgica fixa da história, no hospital municipal de Copenhague. E foi nela que ele e seus colegas estabeleceram um protocolo para tratamento de tétano com uso de relaxantes musculares (fundamentais para o paciente suportar o incômodo da intubação via oral) e de ventilação controlada.

Mas como eu disse lá no começo do texto, a criação da UTI faz parte de um longo processo, que se inicia no que hoje chamamos de medicina intensiva. Então deixa eu mencionar alguns avós da UTI, sem os quais o Bjørn Aage Ibsen talvez não tivesse chegado lá:

  • A enfermeira britânica Florence Nightingale, que, durante a Guerra da Crimeia, em 1854, inaugurou a triagem (priorizando feridos que precisavam de tratamento de emergência) e estabeleceu padrões sanitários médicos que duram até hoje, como a lavagem de mãos;
  • O neurocirurgião americano Harvey Cushing, que inaugurou, nos anos 1930, o acompanhamento pós-operatório com uma junta clínica observando a recuperação do paciente com relatórios frequentes, monitoramento de pressão e exames de imagem;
  • E o anestesista austríaco Peter Safar, que estabeleceu a primeira UTI nos EUA, em Baltimore (1958) e projetou, juntamente com a doutora Nancy Caroline, a primeira UTI móvel, nos anos 1960.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL