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Pergunta pro Jokura

Não é vaga-lume ou criação da ciência: existe animal que brilha no escuro?

chiplanay/ Pixabay
Imagem: chiplanay/ Pixabay
Tiago Jokura

Tiago Jokura é jornalista e, portanto, curioso profissional. Passou os últimos 15 anos respondendo as dúvidas mais complexas e inusitadas dos leitores na mídia impressa ? na tentativa infinita de explicar como o mundo funciona com clareza e bom humor. Agora, continua essa saga aqui no UOL. Mande sua pergunta cabeluda que ele faz questão de pentear.

14/12/2020 04h00

Existem animais que brilham no escuro? - Pergunta de Sophia Fernandez, de Piracicaba (SP) - quer enviar uma pergunta também? Clique aqui.

Parece que tem uma rave underground animal rolando há um bom tempo, Sophia.

Há muito se observa espécies de plantas, fungos e corais, além de peixes, insetos e aves, cuja superfície absorve radiação e a emite em forma de luz, num mecanismo chamado de biofluorescência. Na prática, é parecido com aqueles adesivos de estrelas que a criançada adora colar nas paredes do quarto para brilhar de noite. Importante não confundir com bioluminescência, que é quando o animal produz luz própria, como ocorre com os vaga-lumes.

No caso dos mamíferos, esse brilho estava meio por baixo do pano. Primeiramente, por não se manifestar a olho nu: as descobertas recentes são de biofluorescência detectadas quando os animais foram expostos à iluminação ultravioleta (UV).

Embora haja relatos de gambás-da-virgínia (Didelphis virginiana) biofluorescentes desde 1983, em outubro deste pandêmico ano cientistas revelaram ao mundo o brilho psicodélico do ornitorrinco.

Ornitorrinco biofluorescente - Anich et al., Biofluorescence in the platypus (Ornithorhynchus anatinus), publicado no periódico Mammalia em outubro de 2020 - Anich et al., Biofluorescence in the platypus (Ornithorhynchus anatinus), publicado no periódico Mammalia em outubro de 2020
Imagem: Anich et al., Biofluorescence in the platypus (Ornithorhynchus anatinus), publicado no periódico Mammalia em outubro de 2020

A descoberta é uma das mais recentes de uma leva que vem desde pelo menos 2015, quando o fenômeno luminoso foi observado pela primeira vez em répteis. No caso, o brilho registrado foi das tartarugas-de-pente (Eretmochelys imbricata) nas Ilhas Salomão.

Em 2017, foi a vez de identificarem o brilho verde da rã Hypsiboas punctatus, que foi o primeiro anfíbio biofluorescente conhecido.

Foi também em 2017 que pesquisadores americanos descobriram por acidente que esquilos-voadores do gênero Glaucomys brilham no escuro. Em uma pesquisa de campo noturna para observar os hábitos da espécie, um LED que emitia radiação UV foi apontado para o bicho, que reluziu.

Como tanto o gambá-da-virgínia como o esquilo-voador e o ornitorrinco são espécies de hábito noturno, especula-se que a biofluorescência seja mais comum do que se imagina entre mamíferos mais ativos à noite.

O que não se sabe ao certo ainda é a função dessa característica. Ou se esses animais boêmios teriam capacidade visual para detectar esse brilho que só se revela para nós, humanos, só com a ajuda da radiação UV.

A empolgação, entretanto, tomou conta de pesquisadores familiarizados com a fauna australiana. Desde a descoberta do efeito "glow in the dark" nos ornitorrincos, cientistas dispararam luz UV sobre demônios-da-tasmânia, vombates, morcegos e bilbys. E os conterrâneos dos ornitorrincos brilharam também —acompanhe nas imagens abaixo, publicadas no perfil de Twitter de Kenny Travouillon, curador dos mamíferos no Western Australian Museum:

Enquanto não se descobre a utilidade dessa maquiagem camuflada dos mamíferos festeiros — já se observou peixes se comunicando por biofluorescência e que algumas aves fazem uso do efeito para acasalar—, a gente aprecia essa beleza radiante por si só.

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