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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assédio no metaverso: vamos tolerar violência no mundo que estamos criando?

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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

29/01/2022 04h00

Em meu último texto, falei sobre as principais tendências para a agenda govtech em 2022. Uma delas tem sido amplamente discutida nos últimos meses: o metaverso.

Como entusiasta da inovação e da tecnologia, entendo que o metaverso pode ser o maior ponto de inflexão de nossa geração. As possibilidades que se abrem com essa tecnologia são infinitas e podem transformar profundamente diversas instâncias da nossa vida.

Com ela, a relação dos seres humanos com o digital passa a um novo patamar, em que não somente estaremos conectados virtualmente pelos diversos aplicativos existentes, como também seremos capazes de criar novos mundos e povoá-los com nossas réplicas no ambiente virtual —os famosos avatares.

Em resumo, há muitos motivos para sermos otimistas, mas também cautelosos. Afinal, o metaverso pode ser permeado por práticas grotescas presentes no mundo físico. É o que mostra um recente e triste evento: uma usuária foi assediada nesse espaço.

O que é o metaverso?

O metaverso é um ambiente virtual imersivo construído por meio de diversas tecnologias, como realidade virtual, realidade aumentada e hologramas.

O potencial dessa tecnologia é tão grande que fez até o Facebook mudar seu nome para Meta. Para se ter uma noção, o grupo de Mark Zuckerberg vai investir US$ 10 bilhões em seu projeto ligado à realidade virtual e aumentada.

E em dezembro de 2021, a Meta lançou a versão beta de sua realidade virtual, a Horizon Worlds. Nesse espaço, até 20 avatares podem se reunir para interagirem no espaço virtual.

E foi em um desses encontros que o caso de assédio aconteceu: uma usuária do ambiente relatou a experiência no grupo de testes no Facebook, descrevendo que havia sido apalpada por um estranho. E o pior: os demais avatares não esboçaram qualquer reação para ajudar a vítima.

Vivek Sharma, vice-presidente da Horizon, descreveu o incidente como "absolutamente infeliz", enquanto que a análise técnica da Meta indicou que a mulher poderia ter acionado o recurso chamado safe zone, uma espécie de "bolha protetora" que impede outros usuários de tocar, falar ou interagir com quem a aciona.

Esse é o caminho?

O assédio, especialmente contra mulheres, é algo estrutural. Por isso, não é necessariamente surpresa que ele pudesse acontecer no ambiente virtual, sendo ele uma extensão do que vivemos no mundo físico.

Isso em nada diminui a gravidade do ocorrido ou altera uma verdade absoluta: casos de assédios são inaceitáveis e precisam ser combatidos ativamente.

O que surpreende é que os desenvolvedores da Meta —e de outros metaversos, como o QuiVr, que também já enfrentou casos de assédio em 2016— não tenham desenvolvido soluções efetivas para prevenir que esses episódios aconteçam.

Sim, os mecanismos de segurança que impedem o contato físico entre os avatares seguem sendo fundamentais, mas eles também perpetuam uma mensagem cruel e que conhecemos bem: a de que cabe aos próprios indivíduos a garantia de sua segurança contra assédios.

Mais do que ensinar as vítimas a se cuidarem, é preciso responsabilizar os agressores.

Sim, o assédio, ainda que virtual, é uma agressão, e é fundamental que o percebamos assim.

Isso vale para outras tantas violências que possam, infelizmente, acontecer no metaverso.

Sendo ele uma extensão de nossa vida, é fundamental garantir que nesse espaço tenhamos direito ao bem-estar, à segurança e ao respeito.

Como já discuti por aqui diversas vezes, estamos diante de um momento singular na história da humanidade e de sua relação com a tecnologia.

Somos nós, seres humanos, os responsáveis por decidir os parâmetros éticos que deverão ser adotados pelas novas tecnologias e novos mundos —interplanetários ou digitais— que serão povoados.

E cabe a nós a garantia de que essas novas criações não sejam a repetição do que vemos no mundo físico. Temos a chance de criar algo novo, melhor e justo para todos.