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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Trabalho remoto derruba mito da baixa produtividade, mas desgaste preocupa

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Imagem: Freepik
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

02/10/2021 04h00Atualizada em 04/10/2021 14h47

Este ano, o noticiário brasileiro está repleto de notícias aterrorizantes. O caos tem sido tão grande que, por vezes, nos resignamos diante daquilo que parece imutável

Mas, por vezes, as boas notícias chegam e nos trazem um sopro de esperança e animação. Uma delas, em especial, foi muito celebrada por aqui: até outubro, o Brasil terá 100% de sua população adulta completamente vacinada.

O futuro que tanto desejávamos, no qual a covid-19 teria seus impactos reduzidos, finalmente, parece que se tornará realidade muito em breve.

Não sem o custoso saldo da pandemia, que foi extremamente duro no país em que quase 600 mil pessoas perderam suas vidas —não nos esqueçamos nunca disso.

Com o avanço da vacinação, surge também a perspectiva de que poderemos retornar para atividades que antes eram comuns à nossa rotina, especialmente, o trabalho.

Após mais de 18 meses de atividades remotas —para aqueles que dispõem dessa opção— muitas empresas já discutem a volta ao escritório.

O experimento não planejado de home office deve ter fim e retornaremos todos ao escritório, tal qual o deixamos em março de 2020.

Esse deve ser, de fato, o caminho a ser seguido?

A volta ao modelo antigo não parece ser o desejo da maioria.

Recente pesquisa realizada pela Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA/USP) aponta que 78% dos entrevistados desejam permanecer no modelo de trabalho remoto pós-pandemia.

A satisfação e a produtividade parecem ter aumentado ou, ao menos, se mantido similar àquelas obtidas no modelo presencial.

Estando à frente da Fundação Brava, observo que esses elementos estão, de fato, muito presentes. Mas as vantagens desse modelo não se restringem somente a eles.

O trabalho remoto rompeu barreiras geográficas em um Brasil que tem dimensões continentais e que possui talentos distribuídos nas mais diferentes regiões.

Neste ano tivemos a oportunidade de contratar membros para a nossa equipe em cidades como Caruaru (PE), algo que seria impensável há um ano e meio.

Dados do Linkedin para o ano de 2020 reforçam que esse movimento acontece em escala global. A plataforma observou um aumento de 357% nos anúncios de vagas com a possibilidade de trabalho remoto.

O home office também trouxe novas possibilidades para o reskilling e upskilling —e conhecemos ainda muito pouco sobre o impacto dessa transformação.

Cursos que antes eram presenciais, absolutamente custosos e pouco acessíveis à imensa maioria de pessoas que não residem em grandes centros urbanos, podem ser realizados através da tela do computador.

E não menos importante: a experiência de trabalho remoto durante a pandemia põe por terra o mito da improdutividade.

Uma pesquisa publicada pela Fundação Dom Cabral em parceria com a Grant Thornton e a Emlyon Business School aponta que mais de 58% dos respondentes afirmam ser mais produtivos ou significativamente mais produtivos em home office. O mesmo índice foi de aproximadamente 44% em 2020.

Mas nem todos os resultados são positivos e os desafios já começam a surgir.

De burnout a cultura organizacional

O aumento da produtividade no trabalho online pode esconder um perigoso lado: as pessoas produzem mais, ao custo de trabalharem por mais horas.

Você já deve ter passado por algo semelhante: reuniões consecutivas sem um intervalo para o café; mensagens e e-mails que chegam tarde da noite; ou a incômoda sensação de nunca estar desconectado do trabalho.

Os dados são realmente alarmantes: de acordo com a mesma pesquisa da FEA/USP, 23% dos entrevistados afirmam trabalhar entre 49 e 70 horas por semana.

O trabalho online também impacta o contato humano e direto entre os integrantes dos times. Com isso, a distância física pode comprometer um aspecto fundamental: a presença de uma cultura organizacional forte e compartilhada entre as pessoas.

Não há solução única para esses dois importantes desafios, mas há boas experiências para se inspirar.

Em todas as conversas que já tive a oportunidade de ter com outras lideranças, fica a clara mensagem de que a transparência, o diálogo e a avaliação frequente das práticas são bons princípios para se adotar em um cenário no qual o modelo remoto ou híbrido possa ser uma realidade que veio para ficar.

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Como liderança, estou entusiasmada com a possibilidade de retorno ao ambiente presencial e a todas as vantagens que ela nos traz. Anseio pela retomada de eventos, viagens e, sobretudo, pelo contato com o time.

Mas também entendo a responsabilidade que esse momento impõe.

Se, em março de 2019, tivemos de nos apressar e avançar —de maneira não planejada— alguns anos na revolução do trabalho, temos, agora, a oportunidade de promover um retorno orientado por evidências, que possa contribuir com o engajamento dos times e também permitir que os resultados positivos do modelo online —que são tantos— continuem a ser uma realidade no mundo pós-pandemia.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, o experimento foi em março de 2020.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL