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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aposta nos jovens: conheci talentos que aprenderam programação no celular

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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

18/09/2021 04h00

Ao longo de minha trajetória profissional, tive diversas oportunidades de testemunhar a potência da juventude.

Tudo começou com minha atuação na Endeavor, primeira organização do Brasil dedicada ao empreendedorismo. Aos 18 anos, eu era responsável por selecionar candidatos para os programas de aceleração, quase todos eles seguindo um mesmo perfil: jovens inquietos, apaixonados por inovação e com grande interesse por construir soluções para enfrentar problemas.

Nos anos 2000, ajudei a criar a Fundação Brava, organização do terceiro setor que investiu em diversos projetos de impacto junto ao setor público. Foram incontáveis iniciativas inovadoras lideradas por nossa equipe, quase sempre muito jovem, sonhadora, dedicada e ambiciosa.

Esse ciclo se repetiu diversas vezes, seja no BrazilLAB, organização que fundei há 5 anos e que já acelerou mais de 100 startups que atuam com governos, e também em outras parcerias, como o Mulheres na Ciência e na Inovação, liderado pelo Museu do Amanhã e o British Council.

Tive a oportunidade de dialogar com mais de 200 jovens mulheres pesquisadoras em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemática) que desejam inovar e empreender —recomendo fortemente a publicação "Meninas na escola, mulheres na ciência", um verdadeiro "manual" de como podemos ampliar a nossa participação em áreas predominantemente masculinas.

Essas experiências ocorreram em diferentes períodos, mas reforçam uma mesma certeza: a juventude é protagonista quando o assunto é o desenvolvimento de tecnologias e da inovação.

A inquietude, resiliência e a paixão, sentimentos tão característicos dessa fase da vida, são fundamentais para os avanços que já testemunhamos e para aqueles que ainda virão.

Mundo precisa cada vez mais dos jovens

A revolução tecnológica que vivemos não reduzirá a importância das pessoas, ao contrário, seremos cada vez mais relevantes —como já discuti aqui.

Para além de uma certeza para o futuro, o mercado tech é uma janela de oportunidade para promover a transformação social e a inclusão produtiva.

Por aqui, vivemos um profundo paradoxo. Enquanto a taxa de desemprego no grupo de jovens entre 18 e 24 anos foi de 29,8%, segundo o IBGE, sobram oportunidades no setor tech. Para se ter uma ideia desse potencial, a remuneração média de vagas na economia digital é quase três vezes superior ao salário médio nacional.

Uma outra excelente notícia: há a expectativa de que mais de 420 mil vagas sejam criadas no setor tech até 2024.

Não há uma solução única capaz de sanar este problema social tão complexo, mas uma tem sido especialmente bem-sucedida: investir em formação digital.

Esse esforço será geracional e deve começar nos primeiros anos de vida.

A educação básica precisa se conectar com as demandas do século 21, incentivando o desenvolvimento de habilidades que serão fundamentais para os jovens, sejam elas digitais, mas também socioemocionais, como apontam estudos do Fórum Econômico Mundial.

Experiências para inspirar

O Brasil dispõe de excelentes experiências de educação digital para jovens. Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar de perto duas dessas iniciativas.

A primeira, chamada Fellowship Tech, foi idealizada pela Fundação Estudar, e consiste em um programa para formação de lideranças na área de tecnologia.

Os selecionados recebem mentoria profissional, suporte para a carreira, além de bolsas de estudos para o financiamento de cursos de graduação ou intercâmbio de longa duração em universidades do exterior na área de STEM.

A Fellowship Tech recebeu milhares de inscrições e foi absolutamente incrível acompanhar a diversidade de perfis existentes na área de tecnologia.

Conheci candidatos especialistas em programação; outros que se dedicaram ao universo maker e à robótica; ou empreendedorismo, como os casos de mulheres que fundaram suas próprias startups para enfrentar problemas graves da sociedade, como a baixa representatividade feminina nas áreas de tecnologia ou a exclusão de pessoas com doenças mentais.

Também tive a oportunidade de acompanhar a Alpha Edtech, uma code academy que iniciou suas operações em 2021 e teve um processo seletivo com mais de 14.000 candidatos de todo o Brasil.

As histórias impressionam e me enchem de esperança: conheci jovens apaixonados por tecnologia, verdadeiros talentos que aprenderam programação estudando em casa, muitas vezes utilizando um celular, e que estão deslumbrados com todas as possibilidades que a tecnologia pode trazer.

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Ter a chance de acompanhar todas essas iniciativas me trouxe muita esperança.

A tecnologia pode ser um elemento de transformação social para um país com tantas desigualdades.

É claro que não colheremos seus frutos sem começarmos hoje mesmo uma revolução no mercado de trabalho e na educação.

Mas estejamos certos de que a energia e a determinação da juventude brasileira pode nos levar a um futuro muito próspero e potente nos próximos anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL