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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Robô, app, IA: tecnologia faz parte do combate à violência contra mulheres

drobotdean/Freepik
Imagem: drobotdean/Freepik
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

24/07/2021 04h00

Nas últimas semanas, jornais de todo o país noticiaram um assombroso caso de violência doméstica contra uma mulher. As imagens gravadas e compartilhadas amplamente atestam para uma realidade que se repete, ainda que com personagens diferentes.

Nela vemos um homem agredindo sua companheira, dentro da própria casa, em frente aos filhos e de testemunhas que nada fazem para interromper o crime. O que se seguiu é ainda pior: pessoas relativizando o caso e tentando buscar justificativas para aquilo que deveria ser inadmissível.

Não o é, está longe de ser. É o que mostram os dados da recente publicação Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em 2020, foram registrados 1.350 feminicídios no Brasil. Entre as vítimas, 74,7% tinham entre 18 e 44 anos, a maioria era negra (61,8%) e, o mais assustador: 81,5% foram mortas por seus atuais ou ex-companheiros.

Em 2020, foram recebidos um chamado de violência doméstica por minuto. Somente no número 190, da Polícia Militar, foram 694.131 ligações, correspondendo a um aumento de 16,3% em relação ao levantamento anterior.

Os efeitos da pandemia, especialmente o isolamento social, têm sido apontados para explicar o aumento nessas ocorrências, muito embora tenha havido uma redução de 7,4% nos registros de lesão corporal dolosa por violência doméstica contra mulheres.

Completam esse cenário desolador os casos de violência sexual: foram registrados oficialmente 60.460 casos no ano de 2020, sendo que 86,9% de vítimas eram do sexo feminino.

Do total de crimes, 85,2% foram perpetrados por autores conhecidos das vítimas, enquanto que 60,6% delas tinham até 13 anos e a imensa maioria, 73,7%, eram vulneráveis e incapazes de consentimento.

O Brasil teve importantes avanços para combater à violência contra meninas e mulheres. Fazem parte deste esforço a aprovação de normativas, como a Lei Maria da Penha, a criação de instituições, como serviços especializados em atendimento às mulheres, assim como campanhas para conscientização de profissionais e da população sobre o problema, seus efeitos e os recursos disponíveis para enfrentá-lo.

Ainda assim, como mostram os dados, estamos a anos-luz de alcançar uma solução.

As causas para isso são diversas e bastante características de um fenômeno como a violência, que é complexo e multicausal.

De um lado, faltam recursos para construção de políticas públicas mais efetivas nas áreas de educação, saúde e assistência social; ampliar o acesso a informações sobre direitos e medidas protetivas; são necessárias ações de empoderamento feminino, empregabilidade e de assistência às vítimas; assim como a devida notificação dos crimes, investigação e punição dos agressores.

Embora não haja uma única resposta ou solução, as tecnologias podem ser grandes aliadas para o enfrentamento dessas violências. Há diversas iniciativas —no Brasil e no mundo— que buscam aplicar soluções digitais para o combate à violência contra meninas e mulheres.

É o caso da ISA.bot, um robô criado pela organização Think Olga e pelo Mapa do Acolhimento, com o apoio de Facebook, Google e ONU Mulheres. A solução fornece orientações para meninas e mulheres em situação de violência, podendo ser acessada no chat do Google Assistente ou do Facebook.

Outra iniciativa é o Todos por Uma, um aplicativo que permite o envio de avisos (pedidos de socorro) para contatos selecionados como "Anjo". Já foram realizados mais de 20 mil downloads da solução, que também está presente em países como EUA, Colômbia e Alemanha.

Ou o Projeto Glória, uma solução que combina três tecnologias disruptivas —blockchain, inteligência artificial e analytics— para aprimorar a coleta, análise e disponibilização de dados relacionados à violência contra meninas e mulheres, possibilitando a construção de políticas públicas com base em evidência.

Ainda estamos distantes de resolver o problema da violência contra meninas e mulheres.

As soluções tecnológicas serão fundamentais nesse esforço de apoiar, fortalecer e empoderar as vítimas. Mas, principalmente, é fundamental que a sociedade firme um pacto coletivo de que esse crime não possa mais ser relativizado ou tolerado. Não poderemos avançar enquanto este não for percebido como sendo um mal que atinge a todas e todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL