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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Encontrei na ciência a razão para não presentear minha filha com um celular

Filtro altera rosto de usuário na tela de um smartphone - cottonbro/ Pexels
Filtro altera rosto de usuário na tela de um smartphone Imagem: cottonbro/ Pexels
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

05/06/2021 04h00

Se você, assim como eu, é pai ou mãe de um(a) pré-adolescente certamente vai se reconhecer nessa história. Há algumas semanas, minha filha completou 11 anos de idade e me pediu, como presente de aniversário, um celular.

As justificativas foram expostas de forma muito eloquente e pareciam bastante razoáveis: um celular seria importante para manter contato com os amigos da escola —quase todos eles já têm um aparelho— especialmente no momento de pandemia, também poderia ajudar em nossa comunicação e, claro, seria fundamental para a diversão dela, com os muitos aplicativos disponíveis.

Confesso que minha primeira reação foi concordar com o presente. Me lembrei de meus tempos de infância e adolescência e o quanto era bom se sentir pertencente ao meu grupo de amigos. Mas a concordância durou pouco e, por sorte, não foi compartilhada com minha filha. Refletindo melhor, cheguei a duas conclusões.

Primeiro, um celular representaria um acesso inesgotável à internet; hoje, minha filha já passa, aproximadamente, 6 horas online por conta dos estudos. Este número com certeza aumentaria de forma significativa. Muito embora eu saiba que estar conectado é quase um sinônimo dos tempos atuais, também acho importante priorizar o tempo offline sempre que possível.

Segundo e talvez mais preocupante: a exposição às redes sociais, em uma idade tão jovem, poderia trazer muitos riscos, seja maior ansiedade e dependência em relação a esses dispositivos —como bem retrata o filme "O Dilema das Redes"—, além de prejuízos para a formação da sua autoestima.

Alguns dias depois, tive a confirmação de que minha decisão inteiramente intuitiva já estava sendo objeto de estudo de diversos pesquisadores. É o que mostra o recente artigo publicado na Revista MIT Technology, da pesquisadora e cientista de dados Tate Ryan-Mosley: as redes sociais e, especialmente, os filtros de beleza e selfies, têm sido um fator crucial para abalar a já bastante frágil autoestima de meninas e mulheres.

De orelhinhas de cachorro até harmonização facial

"A maior expressão de realidade aumentada não está nos games, mas sim nos filtros das redes sociais", é o que afirma Tate Ryan-Mosley. Eles são febre em aplicativos como Instagram, Facebook e Snapchat.

Os números realmente impressionam: no Facebook, a divisão responsável por desenvolver produtos de realidade aumentada e virtual conta com quase 10 mil colaboradores.

E a cada dia cresce o número de "influenciadores de filtros": empresas que se dedicam a produzir e a distribuir essas soluções.

Especialistas avaliam que o valor de mercado global de investimentos em Realidade Virtual Aumentada (VR) e Inteligência Artificial (IA) será de US$ 126 bilhões em 2025.

A oferta é vasta, passa pelas soluções mais engraçadas, como orelhas de cachorro, passando por games e chegando aos filtros que promovem mudanças das feições do rosto. Com esse tipo de tecnologia, é possível alterar a cor dos olhos, estreitar os contornos da face, uniformizar o tom da pele e ampliar o tamanho dos lábios. Pesquisadores dão a esse processo o nome de "beautification", ou "embelezamento".

Pode até parecer que a tecnologia é inofensiva, mas já há estudos que apontam para os seus riscos. Ao monitorar o comportamento de meninas com idades entre 12 e 14 anos, Tate Mosley observou que o uso dos filtros de rosto inicialmente servia para pura diversão, mas, posteriormente, especialmente com o "boom" das selfies, esse artifício começou a moldar a autoimagem projetada e, consequentemente, os padrões de beleza ideais de toda uma geração.

E o que é mais assustador: o público mais atingido por esse recurso tecnológico é o de jovens meninas que, em um período tão decisivo de suas vidas, aquele relacionado à constituição de sua própria identidade, são confrontadas com padrões de beleza irreais e inatingíveis.

Redes sociais_govtech - Freepik/Freepik - Freepik/Freepik
Imagem: Freepik/Freepik

Muito embora não saibamos ainda a real extensão e impacto do uso de filtros de imagem, há pesquisas que sinalizam para os seus males.

Cientistas e pesquisadores da University College of London (UCL) monitoraram mais de 11.000 adolescentes na faixa de idade de 14 anos e obtiveram dados bem alarmantes.

As meninas que eram usuárias intensas das redes sociais apresentaram mais sintomas depressivos do que os meninos. Aquelas que se conectaram por três a cinco horas por dia tiveram um aumento de 26% nos sintomas depressivos, enquanto os meninos tiveram um aumento de 21%, em comparação com aqueles que usaram a mídia social por uma a três horas por dia.

A boa notícia é que já há iniciativas relevantes em curso que buscam combater o uso nocivo dessa tecnologia.

Em uma decisão inédita, a Advertising Standards Authority (ASA), agência reguladora do Reino Unido, definiu que marcas de produtos de beleza e seus influenciadores não devem utilizar filtros de imagem que possam resultar em uma falsa impressão sobre os resultados dos produtos.

E qual é a solução?

Como já discuti algumas vezes aqui na coluna, vivemos um momento decisivo em relação à tecnologia. Embora possa parecer que atingimos o maior patamar de desenvolvimento tecnológico da história da humanidade, posso garantir que os próximos anos e décadas nos reservam transformações ainda mais rápidas, complexas e profundas.

Estamos ainda no começo de uma curva longa e ascendente; por isso, é fundamental definirmos as bases do que consideramos aceitável e, sobretudo, desejável em relação aos avanços tecnológicos. Fazer isso posteriormente pode ser muito custoso e, quem sabe, impossível.

Ainda não temos uma solução para esses dilemas, mas isso não significa que precisamos ficar de mãos atadas.

Provocar reflexões e estabelecer o diálogo entre empresas de tecnologia, sociedade e academia é extremamente importante para o desenvolvimento de políticas e diretrizes seguras para o uso da internet e das redes sociais em todas as faixas etárias, com especial atenção a crianças, adolescentes e jovens.

Essa discussão precisa ser diária e deve ocupar todos os espaços: do trabalho até a escola; da casa até as instituições públicas. Isso porque, em todos eles, há a oportunidade de que os jovens possam ser encorajados e apoiados a refletir não apenas sobre o uso das redes sociais, mas sobre como ele pode impactar as diferentes dimensões de suas vidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL