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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que são os laboratórios de inovação que tornam o governo mais tecnológico

rawpixel.com/ Freepik
Imagem: rawpixel.com/ Freepik
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

22/05/2021 04h00

A digitalização do setor público é o tema central dessa coluna. Govtech significa o desenvolvimento de tecnologias digitais por startups, para que possam ser incorporadas pelos governos e, assim, transformar o modo como as políticas públicas são criadas, implementadas e como elas impactam a vida dos milhões de cidadãos do país.

Acredito muito no potencial desta agenda e, estando há cinco anos à frente do BrazilLAB, tenho inúmeros exemplos de como as startups estão transformando o setor público, trazendo inovações tecnológicas que são absolutamente disruptivas e que contribuem para a construção de serviços mais eficientes e de maior qualidade.

Mas como entusiasta da transformação digital, é muito satisfatório reconhecer que a digitalização do setor público é um movimento que está sendo fortalecido em diversos espaços e por diferentes atores.

Já são muitas as secretarias de inovação e digitalização criadas em estados e municípios do país, isso sem contar no trabalho dedicado de diversos gestores e gestoras públicas que desenvolvem projetos de inovação e incorporação de tecnologias em suas áreas de atuação —você pode conhecer mais sobre algumas dessas histórias reconhecidas pelo Prêmio Espírito Público.

E para fortalecer ainda mais esse movimento, surgem os laboratórios de inovação, tema do estudo inédito elaborado pelo BrazilLAB e pela Fundação Brava, em parceria com o Center for Public Impact (CPI), e que será lançado no próximo dia 28 de maio, no BrazilLAB Talks.

Que invenção é essa?

Se ao ouvir o termo "laboratório de inovação" a primeira ideia que veio à sua mente foi a de um espaço com equipamentos que permitem a realização de pesquisas científicas e testes, saiba que você está correto.

No contexto do setor público, os laboratórios de inovação são assim chamados porque a experimentação é a sua principal estratégia de atuação: eles são compostos por equipes de diferentes áreas de atuação —cientistas sociais, antropólogos, engenheiros— responsáveis por testar políticas públicas em um ambiente "controlado", permitindo que seus impactos sejam mensurados e suas estratégias aprimoradas antes que a implementação ocorra em larga escala.

E graças a sua vocação primordial de ser um espaço para testagem de possíveis soluções, os laboratórios são o ambiente ideal para que a inovação possa surgir. Nele, metodologias disruptivas são criadas, problemas são delineados, ideias são geradas, protótipos são criados e validados.

A ideia é bastante intuitiva: um gestor público que deseja implementar uma nova metodologia de ensino, nunca antes testada, pode conduzir um experimento com um pequeno grupo de estudantes, verificar os resultados obtidos e fazer os ajustes necessários antes de expandi-la para toda a rede educacional, composta por milhares de alunos, professores e outros trabalhadores.

Experimentos em políticas públicas permitem, ao mesmo tempo, liberdade para inovar e também rapidez para colher resultados e validar hipóteses ou, ao contrário, captar decisões equivocadas e fazer correções de rota.

O surgimento de laboratórios de inovação é um fenômeno que tem se ampliado muito no Brasil e em todo mundo. Os resultados são muito positivos.

Quem são e onde estão?

A pesquisa traz mais de 11 casos de laboratórios de inovação no Brasil e no mundo. Há exemplos de iniciativas no governo federal, mas também em estados e municípios, e nos diferentes poderes —executivo, legislativo e judiciário.

O GNOVA, Laboratório de Inovação da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), por exemplo, foi fundado com apoio do laboratório Mindlab, do governo da Dinamarca, tem como objetivo o fortalecimento da agenda de transformação digital a partir do apoio à criação de novas unidades de inovação em estados e municípios.

Já o Laboratório de Inovação da Justiça Federal de São Paulo (iJuspLab) foi fundado em 2017 como "arena de inovação, destinada à cocriação de soluções para os desafios enfrentados na prestação de nossos serviços, com participação de todos os atores envolvidos e foco no usuário".

Por meio do Mapeamento de Oportunidades de Inovação (MOI), são coletadas de forma aberta em seu portal propostas de melhoria dos serviços, contando, para isso, com o envolvimento do servidor, juiz ou usuário, que submete um problema identificado e com potencial de resolução pelo laboratório.

Um exemplo internacional mapeado foi o Laboratorio de Innovación Social en Gobierno Digital do Uruguai.

Criado em 2014, pela Agencia de Gobierno Electrónico y Sociedad de la Información y del Conocimiento (AGESIC), responsável pela transformação digital do Uruguai, o laboratório nasceu para "criar uma nova forma de relacionamento entre o Estado e as pessoas".

Tem como objetivos cocriar soluções sustentáveis que se adequem às necessidades das pessoas, difundir e testar novas metodologias de trabalho com foco no usuário.

Estes são só alguns exemplos que mostram como laboratórios de inovação têm um papel importante na inovação do governo ao desenvolverem experiências que geram conhecimento, produtos ou serviços testados junto ao usuário final dos serviços públicos, uma contribuição fundamental para o processo, pois reduz o risco, tempo e recursos utilizados.

Laboratórios de inovação e o futuro dos governos

A pesquisa lançada pelo BrazilLAB e pela Fundação Brava demonstra a relevância dos laboratórios de inovação para a transformação digital, mas é possível ir além,.

Em um contexto futuro marcado por crises sistêmicas, a demanda por soluções tecnológicas e inovadoras deve aumentar muito nos próximos anos, e com ela, o papel dos laboratórios de inovação ganham ainda mais relevância.

E a tendência é que sejam ainda mais importantes, já que os laboratórios de inovação receberam um capítulo específico na Lei Federal nº 14.129, a chamada Lei de Governo Digital, sancionada no último dia 29 de março e considerada por muitos especialistas um grande avanço para a agenda da transformação digital no Brasil.

Se você quer saber mais, não perca o lançamento do estudo, se inscreva aqui e acompanhe mais notícias no portal do BrazilLAB.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL