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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

De Bill Gates a empresas, filantropia é lição importante do novo normal

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Imagem: Freepik
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

01/05/2021 04h00

Em 2015, Bill Gates, fundador da Microsoft, afirmou que o mundo enfrentaria uma pandemia nos próximos anos e não estaríamos prontos para quando ela chegasse.

A profecia se autorrealizou de maneira precisa e, com ela, o esforço deste empreendedor para transformar o cenário global de resposta à crise.

Esse tem sido um dos principais focos do trabalho da Bill & Melinda Gates Foundation, uma organização sem fins lucrativos que historicamente atua no combate aos principais desafios mundiais: pobreza, doenças e iniquidades —aqui falei um pouco sobre como ela foi importante para o desenvolvimento de tecnologias para o saneamento básico.

A Fundação deve investir US$ 1,75 bilhão em ações de combate à pandemia de covid-19, incluindo investimentos em pesquisas para o desenvolvimento de vacinas, testes e possíveis tratamentos. Deste total, US$ 156 milhões foram destinados para a iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) Covax Facility, e que deve garantir dois bilhões de doses de vacinas em todo o mundo, especialmente para os países que enfrentam desafios para assegurar a oferta pública de imunização.

Outra organização que tem se dedicado ao combate da pandemia de covid-19 é a Chan Zuckerberg Initiative (CZI), fundada pelo criador do Facebook, Mark Zuckerberg, e pela médica, Priscilla Chan.

Uma das estratégias da CZI é ser uma grantmaker, ou seja, garantir o investimento de recursos em projetos desenvolvidos por outras organizações.

Uma das apoiadas, a Resolve to Save Lives, por exemplo, tem atuado desde 2017 com estratégias para reduzir o risco de pandemias, trabalhando junto a atores internacionais, como o Banco Mundial e a Organização Mundial da Saúde, e sendo responsável pelo apoio a resposta imediata em países do continente africano.

A Resolve to Save Lives recebeu US$ 225 milhões em investimentos da CZI, da Bill and Melinda Gates Foundation e da Bloomberg Philanthropies.

A excelente notícia é que a atuação da filantropia também tem se mostrado muito forte no Brasil.

Em 2020, um grupo de oito organizações — Ambev, Americanas, Itaú Unibanco (Todos pela Saúde), Stone, Instituto Votorantim, Fundação Lemann, Fundação Brava e a Behring Family Foundation— uniram esforços para equipar e financiar a infraestrutura necessária à produção da vacina contra a covid-19, doando-a à Fiocruz.

Outras iniciativas visam aliviar os efeitos da pobreza extrema que se ampliou com a chegada da pandemia. São os casos da União SP, que já arrecadou mais de R$ 40 milhões em doações, o Movimento União Rio, com 64 mil cestas básicas doadas e a Gerando Falcões, que já arrecadou mais de R$ 28 milhões para a compra de cestas básicas para 95.620 famílias atendidas —números que, por sorte, se atualizam a cada dia.

E o Unidos pela Vacina, movimento liderado pelo Grupo Mulheres do Brasil e por Luiza Helena Trajano, que tem como objetivo realizar ações que garantam a vacinação de todo o Brasil até setembro de 2021.

No ano passado, tive a oportunidade de conversar com Luiza Trajano, na live "Conversas para Inspirar", e falamos da importância de lideranças comprometidas em alcançar objetivos que beneficiem toda a população —não tenho dúvidas de que o movimento é um exemplo muito frutífero dessa visão.

Colaboração que não devem acabar

A semana teve início com tristes notícias no cenário global da pandemia. A Índia, país com 1,4 bilhão de habitantes, tem sido apontada como o novo epicentro da contaminação de coronavírus.

Jornais de todo o mundo alertaram para a situação dramática do país e as imagens são desesperadoras: famílias precisam comprar suprimentos médicos para garantir o atendimento de seus entes queridos, hospitais não conseguem mais admitir novos pacientes e torna-se cada vez mais comum a cremação coletiva de corpos em cidades como Nova Déli.

As cenas são tristemente familiares para o Brasil. Há algumas semanas vivemos os dias mais críticos desde o início da pandemia, o que nos fez alcançar a triste marca de 400 mil mortos.

É bem verdade que observamos relativa melhora nos índices de contágio e ocupação de leitos nas UTIs, mas o cenário ainda é crítico e demanda que continuemos sendo cuidadosos, afinal, enquanto não pudermos garantir vacinas para a maioria dos cidadãos, a pandemia segue sendo um problema complexo, sistêmico e dinâmico.

Diante de um cenário tão desafiador é preciso esforço conjunto de toda a sociedade para o enfrentamento das questões que são urgentes e demandam respostas rápidas e determinantes para salvar vidas.

E a pandemia tem deixado evidente que o papel da sociedade civil tem sido fundamental para combater a covid-19 e seus efeitos perversos.

Recentemente, Bill Gates, que previu a pandemia de covid-19 muito antes que ela fosse realidade, trouxe ventos de esperança ao dizer que há possibilidade de que voltemos ao "normal" até o fim de 2022.

Torço para que essa profecia também se torne realidade, e mais: que os esforços de colaboração e solidariedade continuem presentes muito depois disso. Que possamos aprender a lição de que a mudança passa por todos e cada um de nós; somente com a atuação coletiva é que podemos superar as piores crises da humanidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL