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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Amanhã incerto? Servidor público agora tem chance de pensar como futurista

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Imagem: Freepik
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

10/04/2021 04h00

A pandemia de covid-19 nos deixou muitas dúvidas e poucas certezas, mas algo segue sendo inquestionável: a importância do trabalho dos servidores públicos. São eles que materializam o que chamamos de governo, e foram essas pessoas que mantiveram em operação, ao longo do último ano, os diversos serviços essenciais ao combate da pandemia: educação, assistência social, segurança pública e, principalmente, saúde.

Mas se a pandemia foi a síntese do inesperado para a maioria das pessoas —afinal, como poderíamos imaginar estar há mais de um ano vivendo as restrições que ela nos impõe—, ela foi sentida da mesma forma por esses profissionais, que tiveram que se adaptar às novas condições de trabalho.

Professores aprenderam sobre o uso de novas ferramentas digitais e sobre técnicas de ensino remoto; assistentes sociais precisaram desenvolver novas formas de atender às famílias em vulnerabilidade; e profissionais da saúde tiveram de desenvolver de maneira intensiva novas habilidades técnicas e também socioemocionais para prestar atendimento aos que precisam.

Nada disso foi previsto ou planejado. Quase todos os avanços dos últimos meses, ainda que orientados pela ciência, foram realizados com base no aprendizado contínuo, na observação e na capacidade de resiliência frente à crise.

Mas e se fosse diferente? E se pudéssemos, de alguma forma, captar tendências de mudanças antes que elas aconteçam?

Isso é o que propõe o projeto "Servidor Público do Futuro", uma iniciativa liderada pela Fundação Brava, em conjunto com a Fundação Lemann, Instituto Humanize e a República.org, organizações sem fins lucrativos que atuam no Brasil.

Pandemia é a primeira crise

O Brasil vive um verdadeiro paradoxo. Somos referência internacional em diversas iniciativas —como programas de transferência de renda, política de vacinação, digitalização do Poder Legislativo—, mas também somos a segunda nação mais insatisfeita com o serviço público, como mostra a pesquisa realizada pelo Ipsos.

Embora muitos fatores possam explicar a insatisfação dos cidadãos, grande parte pode estar conectada aos fatores humanos.

Investir na preparação, construção de capacidades e aperfeiçoamento do trabalho dos atores públicos nunca foi tão fundamental. E conforme apontam diversos especialistas, a pandemia de covid-19 é a primeira de uma série de crises sistêmicas que devemos enfrentar nos próximos anos — como a mudança climática, automação do trabalho e ameaças às instituições democráticas.

Em face desses desafios, os governos permanecem centrais para o desenvolvimento e o bem-estar das sociedades.

Para fazer frente aos complexos desafios que devemos enfrentar como sociedade, precisamos responder a duas questões fundamentais:

  1. Qual deve ser o futuro dos servidores públicos no Brasil?
  2. Como preparar esses atores para os desafios e oportunidades que devem surgir nos próximos anos?

Inventar o futuro

O projeto "Servidor Público do Futuro" terá como base a metodologia de foresight, também conhecida como estudos de futuro, conduzida pelo Institute for the Future (IFTF), organização do Vale do Silício e que, desde 1968, se dedica a apoiar organizações que desejam imaginar e se preparar para o futuro das mais diferentes áreas.

O foresight não é uma tentativa de prever o futuro, mas sim de mapear sinais de mudança que nos ajudem a antecipar o que pode acontecer antes que se torne realidade.

Com essa visão sistêmica, criamos a capacidade necessária para, hoje, nos prepararmos, identificarmos oportunidades e, assim, aproveitarmos da melhor maneira possível o futuro inevitável que virá.

É uma forma de sermos menos espectadores e mais protagonistas, afinal, como defende Alan Kay, cientista da computação e futurista, o melhor jeito de prever o futuro é inventá-lo.

Envolvendo diferentes atores nacionais e internacionais, como especialistas, escolas de governo, agentes públicos e representantes do setor privado, será elaborado um estudo sobre cenários futuros para os servidores públicos brasileiros, além de um plano prático de recomendações para que governos possam se preparar para os desafios e oportunidades que se apresentam nos próximos anos.

Mas uma das partes mais interessantes do projeto, sem dúvida, serão as sessões de treinamento para agentes públicos de todo o país. Ao longo de dois meses, os selecionados serão treinados na metodologia "Como pensar como um futurista". Desenvolvida pelo IFTF, a metodologia possui ferramentas que ajudam a concretizar o pensamento sobre futuros para as mais diferentes políticas públicas.

Sempre discuto aqui na coluna sobre como as tecnologias são fundamentais em nossas vidas, mas estou convencida de que não há nada mais importante do que estarmos preparados para antecipar, acelerar e influenciar cenários futuros.

Devemos todas e todos sermos futuristas em nossas respectivas áreas de trabalho, buscando identificar oportunidades, habilidades, tecnologias e desafios que sequer existem ainda, mas que podem transformar a forma como vivemos.

Essa talvez seja a habilidade profissional mais fundamental nas próximas décadas, e será incrível se puder ser incorporada por quem é responsável por promover transformações tão fundamentais em nossas vidas.

Conheça mais sobre o projeto nas minhas redes e, se você se interessou pelo tema, não perca o seminário de lançamento do projeto "Servidor Público do Futuro". O evento acontece dia 14 de abril, às 16h, e as inscrições podem ser feitas aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL