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Letícia Piccolotto

Com poucas mulheres eleitas, 2020 reflete o que acontece na tecnologia

Rawpixel.com/Freepik
Imagem: Rawpixel.com/Freepik
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

05/12/2020 04h00

A liderança feminina é um tema sempre presente aqui na coluna. Não poderia ser diferente. Sou mulher, mãe e as minhas experiências pessoais e profissionais me fizeram adotar essa como uma bandeira de vida.

discuti a importância de termos mais meninas e mulheres trabalhando com programação; de valorizarmos as habilidades desenvolvidas pelas mães para as áreas de tecnologia e também como é preciso valorizar o empoderamento feminino a partir do empreendedorismo.

A baixa participação de mulheres em posições de liderança é um fenômeno que ocorre por diversos motivos, muitos deles relacionados aos estereótipos de gênero: são as crenças de que há papéis que devem, obrigatoriamente, ser desempenhados por mulheres —por exemplo, o cuidado com os filhos ou com as tarefas domésticas— ou que algumas atividades são melhor desempenhadas por homens.

E há estudos mostrando como essas crenças impactam as mulheres em suas trajetórias profissionais.

Segundo pesquisas de Katherine Coffman, professora da Universidade de Harvard, os estereótipos de gênero fazem com que mulheres se sintam menos confiantes em determinadas áreas, como tecnologia e matemática, desconsiderem feedbacks positivos sobre seu trabalho e deixem de manifestar suas ideias no ambiente profissional por considerarem que elas não são tão valiosas ou pertinentes como a de seus colegas.

Trabalhando na área de tecnologia há muitos anos, consigo ver como esses estereótipos se manifestam. Por exemplo, nos diversos eventos que pude participar como palestrante, seja no Brasil ou em outros países, poucas foram as vezes em que pude dividir o palco com outra mulher.

Aqueles que pesquisam, empreendem, trabalham ou tomam decisões na área de tecnologia são, em sua maioria, homens.

E esses estereótipos também estão presentes na política.

Embora tenhamos tido avanços fundamentais nos últimos anos, especialmente com medidas para ampliar o número de candidaturas femininas, somente 12,32% dos 70 mil cargos eletivos do país são ocupados por mulheres —o que resulta em exatos 8.624 mandatos.

Aqui na coluna refleti sobre a importância de termos mais mulheres nos espaços de decisão e poder da política.

A crise de covid-19 demonstrou o quanto esse esforço pode trazer resultados para as políticas públicas. As lideranças femininas foram bem-sucedidas e demonstraram um desempenho superior na gestão da crise e de seus efeitos —inclusive, estudos de impacto trazem essa evidência.

Esse ano, tivemos uma oportunidade para ampliar a participação de mulheres no poder. Diversas oportunidades, inclusive, já que com as eleições foram selecionadas as lideranças para os poderes Legislativo e Executivo nos 5.570 municípios do país.

Reduzir as disparidades de gênero na política é fundamental para corrigirmos os erros históricos e o resultado vergonhoso que o Brasil apresenta no tema.

Hoje compartilho alguns destaques sobre esse desempenho. E já lanço um spoiler: avançamos muito menos do que o necessário ou desejável.

Os resultados e o que representam

Em 2020, tivemos um tímido avanço no número de candidatas mulheres no primeiro turno, passando de 31,9% do total, em 2016, para 33,6%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Embora seja muito importante ampliar o número de mulheres candidatas, o que fará mesmo a diferença é garantir que elas sejam eleitas. Nesse quesito, o desempenho foi distante de satisfatório: apenas 12% dos eleitos no primeiro turno em 2020 eram mulheres. Houve um pequeno aumento de vereadoras eleitas que, em 2016, eram 13,5% e passaram a ser 16% dos ocupantes de cargos nas câmaras municipais.

A baixa representação de mulheres é um padrão que se repete —e se agrava— em todo o país. Das 26 capitais do país, somente Palmas (TO) será liderada por uma mulher — aguardamos os resultados da eleição em Macapá (AP) que foi adiada em virtude da crise no estado.

Quando analisados os resultados no Poder Legislativo, o cenário não melhora. Segundo dados do TSE, o número de mulheres eleitas para as câmaras municipais não passa de 30% em todas as capitais do país.

Porto Alegre (RS), por exemplo, elegeu 11 mulheres dentre os 36 assentos (30,6%), enquanto que, em João Pessoa (PB), só haverá uma mulher dentre os 27 assentos (3,7% do total).

Os resultados são desanimadores, mas temos motivos para comemorar, ainda que de forma tímida e insuficiente, a diversidade.

A eleição de 2020 será marcada como a primeira na qual candidatos puderam utilizar seu nome social —171 pessoas fizeram uso desse direito.

Também há razões para celebrar a diversidade racial. Ao contrário de 2016, esse ano, o número de candidaturas de pessoas negras foi maioria - muito embora as mulheres negras sigam como um grupo absolutamente sub-representado, já que em 53% das cidades brasileiras nenhuma mulher negra ocupará um mandato no legislativo.

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Um problema tão histórico e grave certamente não seria completamente resolvido no espaço de uma eleição. Serão necessários muitos anos para que possamos implementar mudanças relevantes para reduzir a desigualdade de gênero na política.

Ainda assim, não deixa de ser desolador reconhecer que, por mais quatro anos, as mulheres, maioria do eleitorado brasileiro, ainda serão uma minoria nos espaços de poder político.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL