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Como podemos formar até 300 mil profissionais digitais que o país precisa

Pressfoto/ Freepik
Imagem: Pressfoto/ Freepik
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

14/11/2020 04h00

Costumo dizer que a transformação digital precisa de três pilares para que possa acontecer. O primeiro, obviamente, são as tecnologias, sejam os aplicativos, wearables e as soluções de inteligência artificial, IoT, blockchain, entre outras. O segundo pilar consiste na revisão dos processos, isso porque não basta digitalizar o que está sendo feito no mundo analógico sem avaliar se esse é o melhor modo de ofertar determinado serviço ou produto —criando o que chamo de e-Burocracia. O último pilar é pessoas, pois, sem elas, não há transformação que possam ocorrer e se sustentar.

Há algum tempo falo sobre o tema aqui na coluna e nas minhas redes sociais, e gosto sempre de ressaltar que o surgimento das tecnologias nos faz mais humanos e mais necessários.

A demanda por profissionais que possam desenvolver todas as soluções tecnológicas é um dos principais gargalos de nosso país. Isso é o que mostra o estudo inédito divulgado pelo BrazilLAB e pela Fundação Brava no último dia 6 de novembro: caso nenhuma medida seja tomada, o Brasil pode enfrentar um déficit de mais de 300 mil profissionais até o ano de 2024.

O desafio da quantidade é apenas um deles. Também é preciso avançar na qualidade da formação desses profissionais, já que os cursos tradicionais não fornecem o conjunto de capacidades e habilidades necessárias ao mundo do trabalho.

É também fundamental assegurar a diversidade. Como também já discuti, a baixa participação de mulheres e de pessoas negras e pardas é uma realidade grave e que traz resultados muito concretos —além da injustiça social— como o viés tecnológico.

Então, o que é possível fazer? A pesquisa do BrazilLAB e da Fundação Brava, em parceria com o Centre for Public Impact (CPI), mapeou 34 experiências de 14 países. A boa notícia é que o desafio não é exclusividade do Brasil, e há bons casos sendo implementados pelo mundo, ou seja, podemos aprender com quem já avançou. O quadro pode ser revertido. Mas precisamos começar já.

Experiências pelo mundo

Profissionais digitais podem ser definidos como aqueles que, dentro de seu conjunto de habilidades, conseguem construir produtos, serviços e estratégias para a transformação digital. Eles não estão relacionados a uma graduação específica e muito menos a um perfil jovem.

Muitas profissões do universo digital ainda nem existem e serão desenvolvidas em virtude do avanço tecnológico. Por isso, resiliência, adaptabilidade e paixão por aprender são os requisitos de um profissional digital: alguém que deve estar sempre aberto e atento às mudanças que as tecnologias podem trazer.

Buscando enfrentar o déficit de profissionais digitais, os países, em geral, tendem a adotar duas principais estratégias: formar profissionais nacionalmente ou atraí-los de outros países para que atuem no mercado local.

Em Cingapura, por exemplo, o "TechSkills Accelarator" é um programa de treinamento da força de trabalho —uma iniciativa construída em conjunto pelo governo, indústria e Congresso da União Nacional de Comércio (NTUC)— que buscava ofertar incentivo a treinamentos na área digital, incluindo ações como a oferta de bolsas, conteúdo sobre o tema, serviço de carreira, entre outros.

Na Holanda, o foco foi a educação básica, com o "Geef IT Door", ou "Passe a TI adiante". O programa tem como objetivo incentivar jovens a seguirem carreiras de tecnologia, a partir da conexão entre alunos do ensino médio e profissionais digitais, que despertam o interesse deles para estudarem e trabalharem nesse setor.

No Reino Unido, por sua vez, foi implementado o "AI Sector Deal", uma iniciativa na área de inteligência artificial composta por diversas ações, desde a oferta de bolsas de doutorado, até programas de reskilling para proporcionar o reingresso de pessoas no mercado de trabalho.

A China criou o "Thousand Talents Plan", um programa de atração internacional de talentos que promete aumentar a atratividade do país para profissionais de alto nível que residiam no exterior e que tenham recebido alguma oferta para trabalhar no país. Um dos pontos mais relevantes é que apenas 390, dos quase 8 mil participantes, foram estrangeiros. Quase 95% dos profissionais digitais "importados" foram chineses que retornaram para preencher vagas no país de origem.

Homem e código binário refletido em seu rosto - Cottonbro/ Pexels - Cottonbro/ Pexels
Imagem: Cottonbro/ Pexels

O Canadá, por sua vez, está focado em estratégias para aumentar a mobilidade internacional, facilitando a obtenção de vistos para profissionais digitais residirem no país.

Na França, foi criado o "La French Tech", uma estratégia para fomentar o ecossistema de startups, com a criação de polos de excelência para acelerar o desenvolvimento destas empresas, além de vistos para estrangeiros empreenderem no país e fundos de investimento para financiar empreendimentos.

As soluções para enfrentar o desafio da demanda por profissionais digitais são diversas e podemos aproveitar as estratégias já adotadas para pensar em um plano para o Brasil.

Mas, independente de qual seja a medida adotada, é fundamental que os esforços sejam somados para a construção de um verdadeiro ecossistema para a formação de profissionais. Ou seja: só será possível avançar se pudermos contar com o esforço conjunto do setor privado, dos governos, das instituições de ensino e também da sociedade civil.

Todos, e cada qual a seu modo, têm um papel fundamental para ampliar o número, diversificar o perfil e aprofundar a qualidade da formação dos profissionais digitais.

Contribuição

Pensando nisso, a Fundação Brava, o BrazilLAB, a Fundação Behring e o Instituto Alpha Lumen criaram a Alpha Edtech, uma startup social que tem como objetivo oferecer um ensino de excelência em programação, inicialmente à distância, para todas as idades e sem fins lucrativos.

A Alpha Edtech é uma escola de programação no modelo bootcamp que foi pensada para os desafios do contexto brasileiro.

Os alunos selecionados deverão passar por cursos de nivelamento para reforçar os conhecimentos de pensamento matemático e inglês, além de receberem uma bolsa de estudos no valor de R$ 1 mil por mês para viabilizar a dedicação exclusiva ao programa de formação.

O curso tem três semestres de duração e, ao final, o profissional é contratado pela mesma companhia que o acompanhou para que possa trabalhar como programador(a).

As inscrições para a primeira turma da Alpha Edtech já estão abertas e podem ser realizadas aqui. Não há limite de idade e pessoas de qualquer lugar do país podem se candidatar, já que a formação será online.

Inclusão

Termino o texto desta semana com o relato de Roger Pina, estudante do Insper e um dos professores-mentores da Alpha Edtech. Pina foi aluno de escolas públicas, hoje estuda numa das melhores universidades do país e descreve muito bem a realidade vivida por diversos jovens.

"Sem a bolsa de estudos eu não conseguiria estudar e sem o auxílio, meus pais não conseguiriam me manter aqui em São Paulo. Há diversas barreiras que acabam impedindo uma parcela da população de alcançar emprego e ensino que possibilitam abrir portas. Com a Alpha Edtech queremos quebrar essas barreiras", disse Pina.

Nada descreve melhor o objetivo da Alpha Edtech: uma experiência para ampliar o número de profissionais digitais no país ao mesmo tempo em que transforma a tecnologia no melhor que ela pode ser: uma ferramenta para promover a inclusão e o desenvolvimento social.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL