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Helton Simões Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Erros de Facebook e YouTube inflam discurso de perseguição de Bolsonaro

Estúdio Rebimboca/UOL
Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL
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Helton Simões Gomes

Jornalista com mais de 10 anos de experiencia na cobertura de ciência e tecnologia, com passagens por Folha, Band e TV Globo. Vencedor do prêmio CNI de Jornalismo de 2013.

Colunista de Tilt

15/08/2021 04h00

Assim como nos Estados Unidos, conservadores do Brasil revivem o discurso de que as redes sociais os perseguem sempre que alguma delas aplica uma medida para combater desinformação. É que, não raro, os posts deles vão para berlinda. Nas últimas semanas, eles nem se esforçar muito. As próprias plataformas deram um pretexto de bandeja: suspenderam figuras proeminentes do bolsonarismo para, posteriormente, dizer que foram erros técnicos.

A ação não passou despercebida pelo presidente Jair Bolsonaro, que requentou a ameaça de editar um projeto de lei para limitar o poder de Facebook, YouTube, Twitter e similares na hora de decidir o que fica no ar.

Não é de hoje que as redes sociais deixaram a vista grossa de lado e passaram a agir contra posts que espalham mentiras e discurso de ódio. Nesta semana, parecia que era o caso. Mas só parecia, porque:

Erros acontecem. Mas a pisada na bola das redes sociais justamente contra Eduardo Bolsonaro e Allan dos Santos dá munição a quem acha que a balança pende mais para um lado. Tanto que o presidente usa isso nos seus frequentes disparos contra estas plataformas. Os últimos vieram em tom de ameaça, durante entrevista a uma rádio.

Nesta semana, nós enviarmos um projeto bastante curtinho para dentro do Parlamento. Mais ou menos nos seguintes termos, baseado em dispositivo do artigo 5º da Constituição, sobre as garantias e direitos individuais (...) Um deles é a liberdade de expressão. Fazer com que qualquer matéria sua, de quem está nos ouvindo aqui, só possa ser retirada dessas páginas [nas redes sociais] por decisão judicial e ponto final
Jair Bolsonaro, presidente do Brasil

Hoje, a moderação de conteúdo é feita pelas próprias redes sociais, que vira e mexe enfrentam críticas por demorar demais a tirar algo ofensivo e prejudicial do ar. Foi assim quando um atirador entrou em duas mesquitas e transmitiu ao vivo a execução de 49 pessoas.

No Brasil, essa moderação é contestada, mas encontra respaldo na lei. O Marco Civil da Internet impede que as empresas de internet sejam responsabilizadas judicialmente por conteúdos publicados em suas plataformas, o que só pode acontecer se descumprirem alguma determinação da Justiça.

Não é a primeira vez que Bolsonaro acena com a possibilidade de mexer neste dispositivo. Em maio, ele prometeu um decreto, que não veio. Até a publicação deste texto, também não chegou ao Congresso o projeto sugerido nesta semana. O presidente tenta ainda construir um paralelo com a situação dos norte-americanos:

Vai acontecer exatamente o que vimos nos Estados Unidos. Onde quem apoiava o [ex-presidente Donald] Trump era censurado, e quem não apoiava era exaltado

É bravata. Diversos estudos já comprovaram que não há perseguição. Para além das ameaças, o perigo real desses deslizes das redes sociais é jogar no descrédito ações sérias para debelar campanhas criminosas de informação falsa. Exemplo é a que o Facebook promoveu nesta semana contra uma rede, flagrada afirmando que as vacinas da AstraZeneca transformavam quem a tomasse em chipanzés e as da Pfizer tinham altas taxas de mortalidade. Tudo mentira, além de um desserviço em meio a uma emergência sanitária.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL