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Helton Simões Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Covid e briga judicial do Facebook: como Saverin virou maior ricaço do país

28.abr.2021 - Foto de arquivo: Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, em evento em Nova York, nos EUA - Jason Kempin/Getty Images for Common Sense Media
28.abr.2021 - Foto de arquivo: Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, em evento em Nova York, nos EUA Imagem: Jason Kempin/Getty Images for Common Sense Media
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Helton Simões Gomes

Jornalista com mais de 10 anos de experiencia na cobertura de ciência e tecnologia, com passagens por Folha, Band e TV Globo. Vencedor do prêmio CNI de Jornalismo de 2013.

Colunista de Tilt

11/07/2021 04h00

Toda vez que sai uma lista de bilionários, o brasileiro lembra com a perplexidade que só um desmemoriado pode ter que um dos criadores do Facebook nasceu aqui. Dessa vez, o espanto foi outro. Parceiro de Mark Zuckerberg em outros tempos, o paulista Eduardo Saverin ultrapassou Jorge Paulo Lemann e virou o maior ricaço do país, de acordo com levantamento da Forbes.

Afastado da operação da rede social há 16 anos após uma disputa judicial por controle acionário, o brasileiro se beneficiou justamente de outra briga do Facebook na Justiça. A vitória que catapultou sua fortuna para o patamar de US$ 19,5 bilhões ocorreu no primeiro round de uma disputa ainda longe de acabar. Mas diz respeito, e muito, a como a rede passou a fazer negócios após sua saída.

Na semana passada, o Facebook atingiu valor de mercado de US$ 1 trilhão. Os donos do dinheiro reagiram bem a uma novidade que não saiu dos scripts dos programadores da empresa, mas, sim, dos tribunais:

  • No mesmo dia, o juiz federal James Boasberg, de Washington, descartou duas ações contra a empresa de uma vez só. E olha que...
  • ... Do outro lado do ringue, estavam adversários de peso, como a Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês) e um grupo de 46 estados norte-americanos. Ambos...
  • ... Acusavam a companhia de usar estratégicas anticompetitivas para monopolizar o segmento das redes sociais. Isso, diziam, ocorre de duas formas...
  • ... Por um lado, a empresa usa seu poder de mercado para comprar os rivais mais bem posicionados para colocar seu poderio em risco, caso de Instagram e WhatsApp. Por outro...
  • ... Impede que plataformas vistas como ameaças possam se conectar a algum de seus serviços, o que restringe suas atuações já que seus apps são gigantescas portas de entrada para o público. No caso da FTC...
  • ... O juiz Boasberg afirmou que a métrica usada para mensurar a fatia de mercado dominada pelo Facebook ("mais de 60%") carecia de fundamento, tanto que a classificou como "especulativa". Aos estados...
  • ... O magistrado disse que tardaram demais para ver infração na lei nas compras, já que uma ocorreu em 2012 e a outra, em 2014. Ainda assim...
  • ... Deu 30 dias para os reclamantes refazerem suas ações, o que deixou um gostinho de "vai ter volta". Isso bastou para que...
  • ... O mercado visse na decisão motivo para confiar no futuro da empresa, e as ações dela valorizaram 4,2% naquele dia. Saverin gostou. Antes disso...
  • ... Ele já havia visto a valor de mercado do Facebook mais que dobrar desde março de 2020. Tudo isso graças à pandemia, que forçou as pessoas a recorrer cada vez mais a plataformas conectadas para trabalhar, se divertir, enfim, viver.

Com isso, o Facebook se tornou a mais jovem companhia a entrar no clube do trilhão — a única nascida depois dos anos 2000, já que Apple, Microsoft, Amazon e Alphabet (Google), as outras integrantes, são de 1976, 1975, 1994 e 1998, respectivamente. Segundo o porta-voz, a rede social não poderia estar mais satisfeita:

Competimos de forma justa todos os dias para ganhar o tempo e a atenção das pessoas e continuaremos a fornecer ótimos produtos a pessoas e empresas que usam nossos serviços

O alívio é compreensível. Está em curso um plano do Facebook para integrar todos os seus apps (mandar mensagem do Messenger para o Instagram e enviar dinheiro do WhatsApp para o Facebook é só o lado mais visível; o que corre nos bastidores é o casamento das estruturas dessas plataformas). Um processo antitruste bem-sucedido poderia desfazer a união antes de ser concretizada no altar.

Se hoje ganha a vida como investidor em Singapura, Saverin se beneficia de uma empresa que criou, mas definitivamente não ajudou a crescer. Quando saiu do Facebook em 2005, a rede social não tinha modelo de negócio, pois publicidade virou fonte de renda bem mais tarde. Usar dados pessoais para direcionar anúncios era ideia que nem estava no horizonte.

Ter mantido distância, no entanto, não foi tão ruim. Com certeza, ele tem menos cabelos brancos do que o ex-colega Zuckerberg. Afinal, não viu de perto a rede social ser usada para manipular as eleições dos Estados Unidos e a de outros países, ser acusada de virar um repositório de mentiras que minam democracias, protagonizar a maior queda diária na Bolsa de NY e ter de prestar contas diversas vezes a parlamentares norte-americanos.

Não fosse sua reclusão e aversão a contatos com a imprensa, seria ótimo ouvir o que ele tem a dizer sobre o futuro de coisas que ele ajudou a criar, como as redes sociais, e que, involuntariamente, ajudou a impulsionar, como as fake news. Ainda mais porque sua fortuna, em boa medida, resulta de uma escandalosa intersecção das duas coisas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL