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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Base da inovação tecnológica, educação competitiva ameaça economia da China

Estudante se prepara para o Gaokao, o ultracompetitivo "Enem" chinês que garante acesso ao ensino superior no país - Zhao Qirui/VCG via Getty Images
Estudante se prepara para o Gaokao, o ultracompetitivo "Enem" chinês que garante acesso ao ensino superior no país Imagem: Zhao Qirui/VCG via Getty Images
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

20/05/2022 04h00

Universidades de classe mundial, centros de pesquisa responsáveis por um boom de patentes e alunos brilhantes que amontoam medalhas em olimpíadas científicas. O sucesso educacional da China é apontado por 10 entre 10 especialistas como um fator essencial para a revolução tecnológica que transformou o país nas últimas duas décadas, de um parque fabril para marcas estrangeiras em polo gerador de inovações.

Com a introdução de vídeos curtos, o TikTok tornou-se a rede social mais disruptiva do mundo dos últimos 10 anos.

Com a invenção do live commerce e social commerce, players chineses estão transformando o varejo em seu país —e sendo imitados em todo o mundo.

As novas tecnologias de conectividade à web, como o 5G, têm suas patentes majoritariamente nas mãos de empresas chinesas, como a Huawei.

Tantas inovações não seriam possíveis, claro, sem uma geração de técnicos altamente qualificados.

A construção da elite tecnológica chinesa, como é previsível, não ocorreu sem muita dor, sacrifício e sofrimento.

Todos os anos, cerca de 10 milhões de jovens chineses que concluem o ensino médio submetem-se ao "Gaokao", o ultracompetitivo vestibular nacional.

Ao contrário do nosso Enem, em que o aluno pode submeter-se à prova várias vezes na vida, se quiser, na China é tiro único. Você pode fazer a prova uma só vez, enquanto cursa o ensino médio.

Na cabeça de muitos jovens, é tudo ou nada. Um futuro brilhante ou o fracasso, com o peso extra de não ser este um revés individual, mas uma derrota para toda sua família, em especial para seus pais.

A pressão para fazer dos filhos pessoas bem-sucedidas criou no país uma miríade de serviços privados de educação e tutoria.

Empresas especializadas ensinam os jovens a falar inglês e os treinam para acertar todos os exercícios de testes de fluência. Tutores pessoais reforçam a habilidade em matemática, cursinhos pós-aula treinam os jovens a gabaritar testes de ciências naturais.

Tudo isso, é claro, ao custo de muitos milhares de yuans todos os meses.

Para sustentar uma educação de elite a seu filho ou filha (destaque para o substantivo no singular), pais chineses que não são ricaços passam a vida a economizar. Usam roupas velhas, não compram carros, não viajam nas férias. Fazem intermináveis horas extras em seus empregos... e investem quase tudo na educação de seu rebento.

Certa vez, ao almoçar com um então chefe chinês, em um restaurante em São Paulo, avistamos criancinhas pequenas, que brincavam em uma praça de rua, destas com balanço, gangorra e gira-gira.

"As crianças aqui têm uma infância bem feliz, brincam bastante. Na China, quando eu era pequeno, vivia no quarto estudando", contou-me.

Aquele episódio me deu uma dimensão pessoal do custo humano do sucesso chinês.

Para além dos dramas familiares, no entanto, o atual sistema educacional gera uma distorção econômica que ameaça o desenvolvimento do país.

Posto que a China já não consegue mais sustentar seu crescimento baseado no aumento das exportações e no investimento público, restou como alternativa desenvolvimentista a aposta no consumo das famílias. E aí começam os problemas.

Se milhões de famílias com renda média, com potencial para comprar, gastam seu dinheiro majoritariamente com a educação do filho, sobra menos para gastar no shopping. Ou nos apps de compras, para sermos mais fiéis ao comportamento local.

Mas há algo pior.

Ao prever o enorme dispêndio de educar um filho, jovens casais limitam-se a ter um único bebê —mesmo após anos do fim da política de filho único.

O senso comum poderia dizer que isto é uma vantagem, já que a China possui a maior população do mundo. O erro desta proposição é ignorar que o bônus demográfico chinês já passou e que, com tantos velhinhos aposentados, é preciso mais jovens para trabalhar —e consumir, o que fica difícil quando papais e mamães não querem ir além da cota única reprodutiva.

Desde 2021, a China vem endurecendo as regras para programas privados de tutoria, o que busca tornar menos desiguais as chances dos estudantes ao competir no Gaokao, mas, sobretudo, poupar o dinheiro das famílias.

É paradoxal a situação em que o país se encontra, em que ter atingido níveis excelentes de educação tornou-se uma limitação ao crescimento econômico chinês.