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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Novas sanções dos EUA afetam chip da China e podem deixar celular mais caro

Maquinário da holandesa ASML: restrições anti-China afetam comércio tech global - Divulgação
Maquinário da holandesa ASML: restrições anti-China afetam comércio tech global Imagem: Divulgação
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

12/05/2022 04h00Atualizada em 13/05/2022 09h30

O volume de sanções que os Estados Unidos impõem à China, aparentemente, não tem limite. Nesta semana, o site de relatórios pagos sobre a indústria de tecnologia global The Information revela que burocratas de Washington desenham um plano para limitar ainda mais o acesso chinês à chips e processadores.

Embora tenha uma fabulosa indústria tech, a China não é autossuficiente na fabricação de processadoras. Aliás, nenhum país no mundo o é. Grandes produtores de chips, como os americanos, sul-coreanos e japoneses o fazem trocando tecnologias entre si.

A forma como a indústria de semicondutores se desenvolveu obriga qualquer fabricante a licenciar patentes e comprar tecnologias de terceiros.

No caso da China, como o crescimento econômico do país desafia a hegemonia americana, os Estados Unidos tentam, desde a administração Obama, limitar o acesso chinês a tecnologias avançadas.

Para isso, as restrições não se dão apenas para exportados com origem nos Estados Unidos, mas também de qualquer empresa do mundo que use alguma patente criada por uma companhia americana. Ou seja, todas.

Um exemplo disso é a restrição que Washington impôs à ASML, uma companhia holandesa que produz máquinas de litografia UV (ultravioleta) e EUV (ultravioleta extrema). Os equipamentos da ASML são 99% europeus, mas em algum momento, fazem uso de certos componentes americanos... Bingo! Encontrou-se um motivo para proibir suas exportações para algumas empresas chinesas.

O mesmo vale para itens de companhias japonesas e coreanas, que em algum momento tenham parceira com americanos.

Oficialmente, o discurso americano não é contra "o país China", mas contra uma ou outra empresa chinesa, acusada de contribuir para espionagem, desrespeitar os direitos humanos ou outros argumentos similares.

Pontualmente, é possível, sim, que as empresas "banidas" infrinjam regras e convenções internacionais, mas por óbvio este é só um pretexto americano para limitar o acesso chinês a mais tecnologia.

Com efeito, os Estados Unidos consomem petróleo saudita, armas israelenses e minérios de países africanos que enfrentam muito mais acusações de abusos do que a China.

É como um menino rico que deseja impedir seu competidor mais pobre de ter acesso às melhores chuteiras e, com isso, aumentar suas chances de ganhar o jogo.

No caso das máquinas da holandesa ASML, elas são essenciais para produção de chips de sete nanômenos ou menos, arquiteturas que a SMIC, empresa chinesa de chips, não consegue produzir sozinha.

Ao todo, a China mantém quatro grandes fabricantes de chips e, em alguma medida, todas são dependentes de tecnologia estrangeira.

Paradoxalmente, o "principal aliado" chinês são, justamente, as empresas americanas, que não estão, assim, tão preocupadas com a patriótica defesa de seu país —ou a suposta proteção aos direitos humanos na China—, mas desejam com todo ardor manter seu acesso ao multibilionário mercado chinês.

A nova onda de sanções deve atrasar (um pouco) a ascensão chinesa, mas, a longo prazo, só forçará o país a tornar-se totalmente independente de insumos americanos.

O maior perdedor desta guerra tech, por ora, é o consumidor —americano, brasileiro ou chinês — que vai pagar mais caro por um celular ou um smart gadget qualquer, seja ele made in China ou made in USA.