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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como um estacionamento inteligente pode marcar a trégua entre China e EUA?

Adeus, manobrista: robô leva carro a elevador de estacionamento da empresa chinesa  Yi Po - Reprodução/ CCTV
Adeus, manobrista: robô leva carro a elevador de estacionamento da empresa chinesa Yi Po Imagem: Reprodução/ CCTV
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

16/02/2022 04h00

Durante muitos anos, captar dinheiro nos Estados Unidos foi um ótimo negócio para as empresas chinesas de tecnologia. O primeiro motivo para isso é o fato, óbvio, de o país americano ser o maior repositório mundial de capital de risco. O segundo motivo, menos evidente, é o fato de, uma vez conquistados sócios americanos, se conseguir uma espécie de "chancela" de que sua empresa é transparente, possui balanços "críveis" e está apta a expandir-se para os mercados ocidentais.

Desde meados de 2021, no entanto, buscar dólares em Nova York ou São Francisco tornou-se uma operação inglória para as techs chinesas.

A maior vítima deste "novo momento" foi a poderosa Didi, a maior empresa de corridas por aplicativo do mundo. Só na China, a Didi faz mais corridas que o Uber em todo o mundo e, nos últimos anos, tornou-se líder em países da África, Sudeste da Ásia e também no Brasil, onde é dona da 99.

Em junho, apesar de "aconselhada" por autoridades de Pequim a não fazer captações fora da China até solucionar questões sobre a privacidade de dados de seus usuários, a Didi foi à Nova York buscar investidores. Conseguiu. Mas, na semana seguinte, levou um gancho em seu país de origem e teve seu app suspenso nas lojas de download de toda a China. Um prejuízo colossal.

Após o castigo dado à Didi em praça pública, ninguém mais ousou ir aos Estados Unidos pedir dinheiro.

A razão para as restrições de Pequim ao capital ianque é a guerra tech travada entre as duas nações. Se uma companhia chinesa tem sócios americanos, é natural que tais sócios tenham acesso aos dados sensíveis de seus clientes, o que a China entende como um "risco" a seus interesses.

Na última semana, no entanto, a empresa de estacionamentos inteligente Yi Po anunciou, ousadamente, que irá à América captar US$ 27 milhões. O objetivo é expandir seu negócio internacionalmente.

O modelo tech da Yi Po é um achado para cidades apinhadas de carros: pequenos robôs autônomos entram debaixo dos carros, os levantam e os manobram para as vagas e, depois, os devolvem aos motoristas.

Ao chegar a um shopping ou prédio comercial, por exemplo, você simplesmente deixa o carro (trancado) na área de desembarque... e os robôs fazem o resto do serviço. Quando quiser o carro de volta, você pode solicitá-lo, minutos antes, via app que, entre outras coisas, processa o pagamento do estacionamento. Nada mais de filas, espera por vagas ou discussões com manobristas.

Para muitos analistas, a "ousadia" da Yi Po é um risco calculado, já que US$ 27 milhões, para os padrões das relações de investimentos entre os dois países, não é tanto dinheiro e, por tal razão, pode não chamar tanta atenção das autoridades locais.

Se ocorrer sem percalços e Pequim não punir a Yi Po, o caso pode ser interpretado como um "cessar-fogo" entre o governo e as startups tech do país, e incentivar a volta à colaboração entre China e Estados Unidos na arena tech. A conferir.