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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Superdigital e controladora, China terá metaverso com uma cara própria

Plataforma XiRang, criada pelo Baidu: big techs chinesas começam a buscar soluções para o metaverso - Divulgação
Plataforma XiRang, criada pelo Baidu: big techs chinesas começam a buscar soluções para o metaverso Imagem: Divulgação

28/01/2022 04h00

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A expressão "com características chinesas" tornou-se comum sempre que alguém tenta descrever para forasteiros como funciona alguma parte da sociedade local. Em economia, por exemplo, usa-se a expressão "socialismo com características chinesas" para justificar o fato de, mesmo vivendo sob uma agressiva dinâmica de livre mercado, o governo do país declarar-se comunista.

O termo serve com perfeição para definir o que será o metaverso da economia mais digitalizada do mundo. Entenda-se "mais digitalizada" tanto no sentido nominal (mais de 1 bilhão de usuários conectados) quanto relativo (a China é o único país onde a maior parte das compras - 51% x 49% - ocorrem em canais online).

O metaverso, como sabemos, é (quase) consensualmente apresentado como a "próxima fase" da internet, em que a largura de banda (permitida por redes 5G e a vindoura 6G) e a adição de tecnologias imersivas, como os óculos de realidade virtual (VR) e os dispositivos de realidade aumentada (AR) (que projetam dados virtuais sobre cenários reais) permitirá que todos nós vivamos uma significativa parte de nossa vida neste novo mundo.

As vantagens chinesas na construção de seu metaverso, em comparação ao Ocidente, são muitas.

A mais óbvia é maturidade tecnológica do país. O país já possui uma infraestrutura instalada de redes 5G e, segundo o MITT (órgão equivalente ao Ministério da Ciência e Tecnologia), mais de 497 milhões de usuários se conectam diariamente a estas redes.

O país também é o maior centro mundial produtor de hardware, o que implica dizer que a disseminação de dispositivos de VR e AR será mais barata e rápida por lá.

O dado mais importante, porém, é que inúmeras atividades que são descritas como aquelas que migrarão antes para o metaverso já são digitalizadas na China.

A mais evidente delas, a indústria de jogos, é absolutamente profícua na China. Outras atividades, como cuidados com a saúde, compras no varejo e educação já acontecem fortemente via canais online, de forma que para milhões de consumidores chinesas quase não há "fricção" para migrar suas atividades para o metaverso.

Desta forma, com meu avatar exclusivo vestido com grifes digitais protegidas por NFT, posso fazer aulas de inglês pela manhã, interagindo com meu professor e minha turma em minha sala de aula no metaverso e jogar basquete de verdade logo após o almoço.

Suar o corpo, fazer cestas de 3 pontos e até torcer o tornozelo após um salto de mau jeito, tudo isso, naturalmente, sem sair da sala de casa, usando luvas e óculos conectados ao metaverso.

Muitos dos conceitos explorados no metaverso —como a prática de esportes, consultas médicas e a compras de itens virtuais em que se ganha "de brinde" um item no mundo físico— já fazem parte de diferentes modelos de negócio em curso na China.

No final de 2021, as maiores big techs do país —como Tencent, Baidu e Alibaba— anunciaram serviços de nuvem que permitem a terceiros desenvolver suas soluções —como cursos, jogos e clínicas médicas digitais— ou acessar ferramentas de modelagem para criar suas próprias soluções para o metaverso.

Evidentemente, tudo é muito inicial, e já há nos fóruns chineses críticas de internautas às falhas destes serviços.

O fato objetivo é que, mesmo considerando as limitações das soluções apresentadas, o cenário chinês é muito favorável ao desenvolvimento desta nova fase da internet. A não ser, é claro, "pelas características chinesas".

Como já ocorre em todos os demais ambientes do país —virtuais ou reais— há controle no fluxo de informação. Não me refiro aqui a questões sensíveis, como questionamentos às fronteiras chinesas, mas a questões socioculturais, como a organização de comunidades LGBTQiA+ ou de diferentes grupos religiosos, por exemplo.

Ao contrário de outros "metaversos", na China, as criptomoedas não devem encontrar guarida, como aliás já não a acham na atual internet chinesa.

Transações digitais, devidamente reguladas, possivelmente acontecerão pelas já conhecidas ferramentas de mobile payment Alipay e WeChat Pay ou, mais consistentemente, pela novíssima criptomoeda soberana do país, o eRMB.

São temas incógnitos, ainda, o apetite dos investidores locais em colocar o necessário capital para acelerar o desenvolvimento do metaverso chinês.

Desde que começou sua nova política de regulação, há um ano, o governo chinês coloca uma dúzia de pulgas atrás das orelhas de quem pensa em apoiar novos modelos de negócios baseados em dados e tecnologias.

Mais avançada que outras sociedades em seu processo de digitalização, a China antecipa, ainda, alguns debates que devem permear o mundo todo nos próximos anos: como desfrutar de tanto avanço tecnológico sem tornar-se dependente deles?

Um dos debates mais acalorados do país, no último ano, foi como convencer os jovens a viver menos mergulhados em seus celulares — e mais tempo praticando esportes ao ar livre.