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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Plano chinês pretende transformar ex-colônia portuguesa em polo tecnológico

Centro histórico de Macau: ex-colônia portuguesa terá privilégios tech na China - Bureau de Turismo de Macau
Centro histórico de Macau: ex-colônia portuguesa terá privilégios tech na China Imagem: Bureau de Turismo de Macau
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

08/12/2021 04h00

A expressão "Bay Area" é bem conhecida no mundo tech e refere-se à Baía de São Francisco que, além da cidade que lhe dá o nome, abraça outros municípios icônicos do mundo da inovação, como Palo Alto, Mountain View, Menlo Park ou Cupertino. Bem, na China, como tudo se propõe a ser maior e mais grandioso, a expressão tech mais usada é "Greater Bay Area", ou GBA.

O termo define a conurbação que reúne Shenzhen e dois territórios com relativa autonomia, Hong Kong e Macau, este último uma ex-colônia portuguesa famosa por seu centro histórico que lembra cidades... portuguesas (e brasileiras) e pelos cassinos que movimentam US$ 54 bilhões ao ano. Mais recentemente, convencionou-se chamar de GBA áreas próximas continente adentro, como a cidade de Guangzhou e as zonas industriais de Jiangmen e Zhongshan.

Em todos estes territórios, de fato, há muita tecnologia. Lá ficam as fábricas que integram dispositivos da Apple e Samsung, por exemplo, e grandes fabricantes chineses de produtos tech. Em Shenzhen, por exemplo, estão a Tencent, a DJI e a BYD. Em Macau, no entanto, há pouca tecnologia.

A ex-colônia portuguesa (em que menos de 5% dos locais sabem falar português) depende, basicamente, dos cassinos para sobreviver. Segundo as autoridades locais, 80% dos impostos coletados da região autônoma provém dos cassinos, um tipo de atividade fortemente prejudicado pela covid e não muito bem-visto por Pequim.

Autoridades chinesas sabem, há tempos, que Macau é usada para, além de apostas, lavar dinheiro de criminosos e sonegadores de impostos. Mas como limitar a ação dos cassinos se são eles que sustentam a economia local?

O plano apresentado, na última semana, em um evento público em Macau, apontou a saída óbvia: integrar a ex-colônia lusa à indústria tech da GBA.

Empresas como a Huawei anunciaram a implementação de redes 5G e o fornecimento de tecnologias de gestão tech para a prefeitura, convertendo o local em um exemplo de vanguarda entre as "smart cities" no mundo

Para dar um exemplo, equipamentos de IoT, da Tencent serão instalados na tubulação de água da cidade e, via 5G, são capazes de emitir alertas sob vazamentos.

A desenvolvedora de soluções de reconhecimento facial SenseTime também anunciou a abertura de um escritório no local. Seu primeiro projeto será implementar sua tecnologia em redes de hospitais públicos, para controle de acesso e triagem de pacientes via reconhecimento facial.

Naturalmente, estes anúncios têm mais impacto "simbólico" do que real na transformação de Macau. Investimentos massivos devem começar com a aprovação, por fundos públicos chineses, de linhas de crédito para que empresas de três setores estratégicos se mudem para lá: novas energias, inteligência artificial e produção de circuitos integrados.

Igual poder simbólico deve, há uma semana, a detenção de um dos magnatas das apostas em Macau, Alvin Chau, acusado de facilitação de evasão de divisas. Sua detenção carrega uma mensagem clara aos ricos do país: não invista em cassinos, invista em tecnologia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL