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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Governo chinês espanta investidores em big techs? Não é o que dados mostram

Mercado de tecnologia em Shenzhen - Wikipedia Commons
Mercado de tecnologia em Shenzhen Imagem: Wikipedia Commons
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

29/09/2021 04h00

A China está destruindo suas joias tecnológicas? O país está atacando suas grandes empresas porque deseja uma reaproximação com o compromisso socialista da revolução de 49? A insegurança sobre o futuro vai destruir a confiança dos investidores estrangeiros no setor tech chinês? Se a resposta para estas perguntas for baseada em números e dados da realidade de mercado, será não.

Comecemos pelo mais difícil. Sim, é correto afirmar que a recente pressão regulatória sobre as big techs chinesas fez seu valor de mercado cair.

Em 11 de agosto, o indicador que soma as companhias da China com papéis negociados na Nasdaq anotava US$ 47 bilhões em perdas em comparação a seu melhor momento, em janeiro deste ano. Um recuo e tanto, admitamos.

Nas últimas semanas, porém, estas perdas foram amenizadas e os papéis, lentamente, recuperam seu valor. Face ao enigmático futuro da regulação das big techs na China, é um fato que pequenos investidores e fundos mais conservadores fugiram dos papéis chineses.

Esta semana, porém, um relatório publicado pela NUS, uma prestigiosa escola de negócios de Cingapura, demonstra que investidores mais experientes seguem apostando —e lucrando— com as big techs chinesas.

O estudo analisa o mercado de "bonds", que em português é o setor de "títulos de dívida" que corporações privadas emitem para se financiar. A China é o segundo maior mercado deste tipo no mundo, apenas atrás dos Estados Unidos.

De acordo com a consultoria Seafarer, há US$ 15 trilhões em "bonds" emitidos por empresas privadas chinesas nas mãos de investidores espalhados pelo mundo.

O mercado funciona mais ou menos assim: eu compro por US$ 1 um título que me dá o direito de receber, por exemplo, US$ 1,10 daqui dois anos. Este não é um caso hipotético. É um exemplo real de um título emitido pela empresa chinesa de e-commerce Pinduoduo.

A diferença, porém, é que os investidores receberam US$ 1,37, pois havia uma cláusula de desempenho na venda dos "bonds" e quem apostou na empresa beneficiou-se de seu crescimento acima do esperado.

O estudo mostra que este caso se repete com dezenas de outras empresas de tecnologia da China, que seguem pagando bônus a seus investidores, já que sua performance "no mundo real" é ótima, ainda que no cenário das análises exista, de fato, incertezas sobre o que o governo da China quer impor a suas empresas de tecnologia.

Há quem afirme que o governo local só quer disciplinar o setor, após anos de frágil regulamentação, mais ou menos como fazem os Estados Unidos ao disciplinar Google, Facebook ou Microsoft, corporações várias vezes levadas aos tribunais americanos.

E há quem garanta que Pequim busca controlá-las, por temor de seu crescente poder e influência sobre a população local.

Seja qual for a resposta, erra quem achar que investir e explorar o mercado chinês é fácil, simples ou previsível. Neste e em outros momentos da história, a China nunca foi fácil. Muito menos simples.

Assim como no passado, porém, quem persistiu na parceria com a China sempre colheu frutos. A julgar pelo ótimo desempenho de quem aplicou recursos nos "bonds" chineses, não parece que será diferente agora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL