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Felipe Zmoginski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

China aposta bilhões na indústria de chips em nova batalha contra os EUA

MasterTux/ Pixabay
Imagem: MasterTux/ Pixabay
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

01/07/2021 04h00

A disputa tecnológica travada entre uma potência consolidada, os Estados Unidos, e um poder ascendente, a China, encontrou no desenvolvimento e fabricação de processadores e semicondutores um ponto decisivo para as pretensões americanas de "chutar a escada" da escalada chinesa ou, por outro lado, assegurar a caminhada ao topo da nação asiática.

Embora tenha apresentado progressos inegáveis em áreas como uso de inteligência artificial, conectividade 5G e aplicações blockchain, a China vive a fragilidade de não dominar plenamente a cadeia de fabricação de processadores.

As tecnologias da Huawei, Baidu, BYD ou Tencent valem pouco sem processadores a rodar suas engenhosas aplicações. Maior fabricante mundial de eletrônicos para uso comercial e pessoal, o país importa 96% dos chips que embarca nos dispositivos made in China.

Em tempos normais, isto não seria um problema. Como maior exportador mundial, é até simpático que a China compre chips de produtores taiwaneses, alemães, japoneses ou coreanos. Assim, ao menos, diminui-se o déficit destes países com a China, criando condições mais equilibradas de comércio internacional.

Ocorre que, desde a gestão Trump, empresas estrangeiras que comercializam itens tech com a China podem sofrer penalidades no mercado americano, o que fez acender as luzes amarelas, vermelhas, roxas, enfim, de todas as cores de alerta em Pequim.

Ciente da necessidade de não depender de estrangeiros, a China tem feito o possível --e um pouco mais-- para diminuir sua desvantagem no setor de processadores.

À taiwanesa TSMC, uma das maiores fabricantes mundiais de chips, a China ofereceu vantajosos acordos para exploração de seu multibilionário mercado interno, desde que fábricas da empresa fossem construídas na porção continental do país, o que efetivamente aconteceu.

Talentos de Taiwan, aliás, vêm sendo recrutados por companhias chinesas de modo agressivo, ao ponto de o governo da antiga de Formosa deter alguns "agentes de recursos humanos de Pequim" que faziam "prospecção de talentos" em Taipei.

De janeiro a maio deste ano, US$ 6,2 bilhões foram derramados por fundos de venture capital em startups chinesas que se comprometem a desenvolver processadores, de acordo com a consultoria JW Insights.

O montante é uma enormidade, se levarmos em conta o cenário de pouco dinheiro de risco à disposição no primeiro ano pós-pandemia no país. O montante investido nos cinco meses de 2021 equivalem ao total investido no setor, na China, ao longo de todo 2020.

A aposta chinesa é, como o próprio nome diz, uma aposta. Projetos apoiados por "venture capital" possuem mais chances de dar errado do que de dar certo. Mesmo assim, os investimentos no setor seguem em alta, beneficiados por novas leis que garantem subsídios e vantagens fiscais aos investidores que apoiarem o esforço nacional pela indústria de semicondutores.

O fenômeno é ruim para a China, ao menos no curto prazo, que perdeu o acesso a vários fabricantes internacionais de chips --e pior ainda para estes fabricantes. Japoneses, coreanos e alemães veem suas valiosas indústrias ociosas em função da política externa americana. É ruim também para o consumidor, que no final do dia paga mais caro pelo notebook ou smartphone.

Para a hegemonia americana, no entanto, esta é uma estratégia central. Como não pode impedir a China de criar seus próprios chips, a administração Biden anunciou, este mês, um novo plano: vai apoiar a indústria local a criar mais e melhores chips, tão poderosos que mantenham os rivais chineses sempre um passo atrás.

Gina Raimondo, secretária de comércio do governo americano, enviou ao Senado do país um projeto chamado de "Innovation and Competition Act" que prevê alocar US$ 52 bilhões ao longo dos próximos oito anos para o setor de tecnologia, com manifesta preocupação em "acelerar o desenvolvimento de novas gerações de chips".

Ao menos um aspecto podemos antecipar desta disputa: os processadores ficarão melhores e mais rápidos já nos próximos anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL