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Felipe Zmoginski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Longe de desbancar iOS e Android, Huawei mira nos dispositivos inteligentes

Engenheiro da Huawei mostra nova versão do Harmony OS - Divulgação/ Huawei
Engenheiro da Huawei mostra nova versão do Harmony OS Imagem: Divulgação/ Huawei
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

09/06/2021 04h00

A Huawei apresentou esta semana seu primeiro grande upgrade para o sistema operacional Harmony OS. Ficou lindo, intuitivo, fácil de instalar, está amarrado com parceiros gigantes para o desenvolvimento de apps e, bem, deve permanecer irrelevante no mercado de smartphones.

Segundo dados da StatCounter, 99% dos smartphones usados no mundo rodam iOS ou Android. Na última década, LG e Microsoft gastaram fortunas para promover seus sistemas operacionais, remuneraram desenvolvedores terceiros, mobilizaram seus melhores talentos e, no final, ficaram só com uma conta —astronômica— para pagar.

A Huawei conhece bem essa história e não criou seu OS por megalomania, mas porque foi proibida de usar o Android e outras tecnologias parcialmente desenvolvidas por empresas americanas.

Ao criar seu sistema proprietário —muito elogiado nos sites de programadores— a Huawei garante competitividade doméstica, que modestamente é apenas o maior mercado consumidor de smartphones do mundo, a China.

Por lá, a Huawei espera embarcar o novo Harmony OS em 300 milhões de dispositivos até o final deste ano. Chamado de Hongmeng na China, o sistema que continua em código fechado (apesar de promessa da empresa no sentido oposto) estará presente ainda neste mês nos modelos topo de linha da empresa, como P40 e Mate Pro.

A oferta de apps não deveria ser um problema sério para a Huawei, empresa com poder suficiente para seduzir desenvolvedores pelo mundo. Há até uma plataforma (Arc Compiler) que permite a fácil conversão de um aplicativo Android para o Harmony OS.

O obstáculo central está na proibição de que aplicativos fundamentais para usuários não-chineses, como o YouTube e o Google App estarem banidos do sistema.

Se a batalha no campo dos smartphones está perdida, há um espaço em que a desenvolvedora chinesa pode triunfar, o palco dos smart devices, o que compreende desde smartwatches até TVs, geladeiras, ar-condicionado e toda gama de eletrodomésticos.

Desenvolvido nativamente para a era da "internet das coisas" (IoT), o sistema é construído sobre uma tecnologia chamada de "microkernel". Em linguagem de não-programadores, é como se o sistema operacional pudesse ser montado em blocos, como um Lego, para as mais diferentes plataformas.

Como sabemos, não é preciso rodar YouTube em uma máquina de lavar inteligente ou no ar-condicionado de casa, embora equipá-los com internet seja um caminho óbvio para o avanço destes dispositivos na competitiva indústria de "home-appliances".

O "microkernel" torna o Harmony OS mais flexível e possível de ser usado com chips mais baratos e menos sofisticados, como os que equiparão equipamentos simples de casas e escritórios.

Em meio à catástrofe que foi o banimento americano à Huawei, parece que a empresa soube fazer algo dos limões que recebeu. Se não uma limonada, há no Harmony OS uma estratégia coerente para posicionar a empresa no promissor mercado de IoT.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL