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OPINIÃO

Como a sociedade digital faz você perceber mais de um 'eu' no espelho?

Espelho se tornou o principal acessório do eu e a condição primeira de nosso processo de individualização Imagem: Pexels
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Christian Dunker

24/05/2022 04h00

Nós, os modernos, que caminhamos para a metamodernidade representada pelo metaverso, não conseguimos imaginar muito bem o que seria um mundo sem espelhos. Mesmo assim eles nos parecem ter existido desde sempre.

Temos, é claro, o mito de Narciso, compilado por Ovídio por volta de 10 a.C., onde nosso personagem moderníssimo aparece apaixonado por sua própria imagem, refletida na superfície brilhante de um riacho.

Mas verificando a narrativa de forma mais precisa percebemos que a tragédia de Narciso não é que ele se veja no espelho das águas e se tome por objeto tão belo que se desencadeia a paixão por si mesmo. Pelo contrário, o mito diz que ele se encanta por uma imagem "incorpórea", que ele tenta apanhá-la em suas mãos, que ele se debate com esta captura estranha por uma imagem irreconhecível.

De fato os espelhos eram objetos relativamente raros durante a Antiguidade, e no Império Romano eles reduziam-se a pequenas esferas lustradas de bronze ou ferro, que devolviam uma imagem em geral muito pequena da própria pessoa. Foi no final da Idade Média e no início da Renascença, principalmente na pintura flamenga que se observam as primeiras representações fieis de um espelho, tal como o conhecemos hoje.

Exemplo notável é a tela "O Casal Arnolfini", hoje na National Gallery em Londres, representa o casamento como um ato simbólico, encimado por um espelho e acima desta uma espécie nova de assinatura: "Jan van Eyck Esteve aqui em 1434".

O Casal Arnolfini, de Jan van Eyck Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons

Nos parecerá estranho que um casamento se dê no interior do quarto de um casal, mas a cena toda é revestida de elementos alegóricos: o pequeno cachorro representa a fidelidade. Os tamancos deixados de lado indicam que eles estão com os pés no chão sugerindo pureza. Há uma noz no batente da janela, sugerindo fertilidade, assim como a pomba branca acena para a proteção do Espírito Santo. A cama só podia estar em vermelho, cor que começa a representar, desde então a luxúria.

Ela veste um pequeno colete em azul, cor dificílima de produzir na Idade Média e que passa a representar, desde então, a mãe de Jesus Cristo. (Atenção! Você leu certo. A cor azul é primariamente ligada à Virgem Maria. Então se você é um cristão esclarecido não tem essa de homem veste azul, mulher rosa, ok?)

Ela oferece sua mão espalmada para seu marido que faz o juramento que marca o casamento, com sua mão erguida em movimento vertical.

Sabe-se que até então os casamentos, com exceção dos nobres e aristocratas, para os quais ele indicava uma aliança política e militar, eram uma situação privada, celebrada pelos noivos, por sua própria decisão e engenho e anunciada à comunidade por livre e espontânea vontade. Os sacerdotes e representantes eclesiásticos eram apenas testemunhas deste ato, que era sobretudo um compromisso e um acordo entre os nubentes e suas famílias.

Por isso adquire especial importância a assinatura do mestre holandês. Ele realiza a função de testemunha, mas o faz escrevendo acima de uma outra função de reconhecimento, ou seja, o espelho.

Observando a imagem mais de perto vemos o casal, um pouco de lado, dado que o espelho é um tanto convexo, bem como pelo menos duas pessoas, entre elas intui-se a presença do pintor.

A cena introduz o espelho na mesma medida que a função de autoria está se tornando cada vez mais importante. Nas antigas oficinas muitas obras, eram compostas, geralmente de forma coletiva, sem assinatura, às vezes com a inclusão do autor, pintado como um personagem da cena, como vemos em Fra Angelico, Boltrafio e Signorelli.

O espelho vai se tornando ícone e instrumento fundamental de nossa "relação a si" em simetria com ascensão da forma romance na literatura, com a sociedade de massas e com a promessa, cada vez mais ambiciosa de que podemos exercer a liberdade, tanto na esfera pública, quanto na privada, tornando-nos virtualmente quem queremos ser.

Isso significa que temos que nos dedicar cada vez mais ao trabalho de autoajustamento, autorregulação, autocontrole, autocultivo. Para isso precisamos cada vez mais de "retornos", "feedbacks", "aplausos ou vaias", "críticas ou avaliações".

É neste contexto que Freud propõe a noção de narcisismo, desdobrada por Sartre e por Lacan no conceito de imaginário. Isso nos levará à consideração de que o próprio eu é um duplo. Eu e meu duplo. Eu e o eco de minha voz ou de minha consciência. Eu e minha banda. Eu e minha bolha.

O impacto da linguagem digital em nossa gramática de reconhecimento, os efeitos do neoliberalismo sobre nossa forma de trabalhar e o decréscimo de experiências de pertencimento, narrativas de comunidade e experiência de intimidade, na formação de nosso desejo, concorreram para que o espelho se tornasse o principal acessório do eu e a condição primeira de nosso processo de individualização.

Eu, minha sombra torna-se agora uma equação a três termos: sombra, minha e eu. É a sombra e o sentimento de propriedade sobre ela. Sentimento denunciado pelo uso reiterativo do pronome "meu". De tal maneira que na atual situação o problema imanente do imaginário se desdobrou em uma entidade tripla, não só dupla.

Agora, é como se ele "viesse de fábrica" como uma instância de autorreconhecimento efêmero, um pisca-pisca que nos permite dizer: aqui "eu", ou "lá de vez em quando acontece de ser eu", ou então "quando vi, me dei conta de que ... eu".

Ou seja, a impermanência do eu é sutilmente compensada pelo excesso de duplos auxiliares. Eles são importantes para sustentar um certo sentido de continuidade da experiência e da existência.

Depois disso temos a terceira incidência do eu, como função de propriedade e apossamento. Aqui se produz o desagradável efeito de inversão: tudo o que possuímos em demasia, logo se apresentará como nos possuindo. Se eu preciso dominar o outro, logo mais sentirei que este outro me domina.

Em tempos pré-eleitorais esperemos que estas três dimensões do imaginário possam ser substituídas pela força da palavra. Palavra pela qual podemos começar, terminar ou recomeçar os assuntos humanos. Palavra que Narciso não consegue escutar, e que nos faz ser tomados pela paixão da identidade, do juízo e da propriedade. Como diz Frejat em "Amor pra Recomeçar":

Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar

Eu desejo que você ganhe dinheiro
Pois é preciso viver também
E que você diga a ele, pelo menos uma vez,
Quem é mesmo o dono de quem."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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