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OPINIÃO

Salvo pela tecnologia, templo do Egito tem marca da cultura do cancelamento

Templo de Philae, no sul do Egito Imagem: Arquivo pessoal
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Christian Dunker

07/01/2022 04h00

Estava no templo de Philae, numa ilha próxima do lago Nasser, no sul do Egito, quando meu guia Achmed tentou me explicar que o desenvolvimento tem seu preço:

"Veja bem, ya habibi, nos anos 1970 fizemos esta colaboração com a União Soviética para criar muita energia para o Egito crescer e se tornar um país moderno."

Isso significou que o nível do rio Nilo chegou a subir quase 60 metros deixando muitos monumentos da região de Aswan debaixo d'água, causando um deslocamento massivo da população de Núbia que habitava as suas margens.

No caso do templo de Philae, erigido durante a dinastia grega dos Ptolomeus, isso significou a perda de um dos mais importantes símbolos do sincretismo entre a cultura grega, romana e egípcia.

Contando com ajuda da Unesco, o templo submerso foi cercado por uma redoma de aço inoxidável, depois coberto por areia. Depois de removida a areia ele pode ser desmontado, peça por peça, e remontado em uma ilha próxima, onde agora se pode contemplar paredes de 30 metros de altura, com a efigie de Hórus e Isis.

No lado oposto da entrada do pórtico, havia uma duplicata das mesmas figuras, mas onde só se podem ver o contorno das figuras que se encontram apagadas. A rasura do monumento foi feita pelos cristãos, anos mais tarde, quando esta se tornará a religião oficial do Império Romano.

A "desobra" contém uma mensagem pedagógica muito clara: "egípcios pagãos, observem bem, seus deuses aí ao lado viram suas próprias imagens serem apagadas e não tiveram poder ou influência para fazer nada."

De fato, não fomos nós que inventamos o cancelamento, e deveríamos olhar um pouco para sua história antes de praticá-lo.

Passaram-se muitas dinastias no Egito até que o reino do norte se reunisse ao reino do sul. Mesmo neste processo de unificação cultural os símbolos do processo parecem ser invertidos: no norte a unidade é representada por um hieróglifo composto pelos pulmões, no lado de baixo é uma haste que se ergue, indicando a associação entre o Nilo e a importância de sua nascente.

Mas a medida que caminhamos para o sul, o mesmo processo passa a ser representado pelo hieróglifo da vida, ou seja, um círculo em cima de uma cruz. De novo o Nilo, mas agora ele tem dois lados na parte mediana, o deserto ocidental e o deserto oriental, acentuando a forma uma cabeça (em cima), dois braços (no meio) e uma haste inferior (em baixo).

Aparentemente a forma como a unidade egípcia foi obtida é simétrica ao modo como ela relacionou-se, com a cultura de outros povos e com as minorias que ela sucessivamente abrigou (copta, judaica, núbia).

Quando a unidade adveio da luta contra um inimigo comum, como por exemplo durante as invasões persas e otomano-mamelucas remanesce um sentimento de que estes deveriam ser apagados de nossa história, assim como eles nos tentaram apagar da nossa.

Quando a unidade derivou de processos internos de reunião teológico e jurídico, como no caso de Akhenaton, examinado na coluna passada, as minorias se sublevaram em violenta guerra civil. Como se houvesse duas forças de colonização: aquela que se faz a afirmação de si pelo cancelamento do outro e aquela que faz a afirmação de si pela incorporação dos outros, internos ou externos.

No primeiro caso, o último capítulo é decisivo, pois ele oferece ao vencedor a prerrogativa de "fazer a história".

No segundo caso, perdedores e ganhadores revezam-se ao longo do tempo, sendo a história, a "história deste conflito".

Mas o caso do templo de Philae mostra que existe ainda uma terceira possibilidade.

Discutia com Achmed sobre o contraste entre a tecnologia requerida para tirar um templo debaixo da água ou construir uma usina hidrelétrica e a aparente falta de tecnologia para prever a subida do nível da água ou lidar com os efeitos disso sobre a vida das pessoas.

Ele me diz que o resultado geral foi bom, mas que foi preciso "sacrifeser". Achmed é um ótimo guia, fluente em português, espanhol e inglês, por isso estranhei quando esta palavra apareceu em nossa conversação, em vez do esperado "sacrificar" ou "sacrifício".

Depois de algumas risadas e um tanto de associação livre, chegamos à conclusão que a palavra cabia, pois designava o sacrifício necessário para se tornar algo ou alguém melhor, lembrando e esquecendo quem se era antes.

A história de sacrifícios que uma cultura faz para se tornar o que é, ainda que tais sacrifícios sagrados ou profanos sejam inconscientes para ela mesma. A história capaz de lembrar de seus momentos de apagamento.

Desta maneira o templo de Philae é uma curiosa forma de monumento ao apagamentos de monumentos, dos quais a história do Egito, como a de muitos outros países está repleta.

Visitando um povoado núbio e percebendo como eles estavam felizes, mas tristes porque não estavam em sua terra, da qual faziam questão de lembrar, brindamos ao "sacrifeser".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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