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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'ZicaBerg': o que o apagão do Facebook e Whats nos ensinou sobre nós mesmos

Gerd Altmann/ Pixabay
Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

07/10/2021 04h00

O Brasil encontra-se no 56º lugar, entre 110, no ranking mundial de Qualidade de Vida Digital, subindo duas posições em relação ao ano passado e ficando em terceiro lugar na América do Sul. Estamos em primeiro lugar na estabilidade fixa e móvel do serviço de internet, mas por volta do septuagésimo quando se trata de velocidade, acessibilidade de banda larga e segurança. Dinamarca, Coreia do Sul, Finlândia e Israel ocupam os primeiros postos.

O contraste entre a estabilidade da oferta de internet com a relativa precariedade da acessibilidade a banda larga pode ajudar a entender nossa reação diante do colapso do WhatsApp, Facebook e Instagram, nessa segunda-feira, 4 de outubro. As pessoas pareciam não acreditar que o sistema pode deixar de funcionar, pois estão habituadas demais a lidar com déficits locais de oferta de rede e descontinuidade de banda ou simplesmente falta de crédito no celular.

Ou seja, a pane revelou como nossa imagem sobre "o sistema" é muito reduzida e parcial.

Preferimos xingar a Vivo ou a Claro ou achar que alguém está nos prejudicando a imaginar que o sistema, em seu conjunto, pode apresentar um erro estrutural desconhecido.

A situação é reciprocamente sentida como injusta, pois afinal ninguém vai relevar os nossos próprios erros estruturais incógnitos.

Vivemos um mundo de resultados onde fingimos que os processos não são irrelevantes. Um dos piores efeitos subjetivos disso é sentir que uma não resposta é uma resposta, em geral negativa.

Assim também nos acostumamos a contratar serviços e marcar horários que nunca são cumpridos. Tudo isso reduziu-se drasticamente com a pandemia e as reuniões por Zoom ou Meets, que inapelavelmente registram quem está e quem não veio. Como se não houvesse nenhum motivo para alguém não responder a não ser a má vontade, a arrogância ou o desprezo.

Isso ajuda a entender a aparição de inúmeros dispositivos para criar pseudo-respostas, tais como secretárias eletrônicas, respostas automáticas de e-mails, caixas postais e agora as novas inteligências artificiais.

Por trás disso há o paradoxo de que aquilo que recebemos de graça, por mais vital que seja, passe com o tempo a ter cada vez menos valor.

É por isso que redescobrimos o valor da liberdade quando a perdemos, com na recente experiência pandêmica e antidemocrática.

Por isso também descobrimos a extensão de um grande amor quando ele acaba, a importância da água ou do ar quando estes se vêm escassos ou poluídos.

Somos uma cultura do contato, onde o sinal de presença do outro é um fator de reasseguramento e controle. Neste sentido precisamos entender como o WhatsApp tornou-se tão rapidamente um instrumento de união das famílias e um meio de conexão dentro das empresas.

A resultante destes dois contextos faz com que a precariedade de nossos processos seja suplementada por uma sucessão de pequenas certificações, checagens e pequenos gestos de acompanhamentos.

Qualquer um que tenha conduzido uma obra doméstica conhece a experiência na qual os pedreiros vão solicitando material de construção de forma picada e errática, enlouquecendo todos e tornando os prazos e os custos ainda mais imprevisíveis.

Isso cria uma cultura na qual a perspectivação do futuro, o planejamento de médio e longo prazo são substituídos por um conjunto contínuo de reacordos, mudanças de rota, mas também de suspensões e atrasos.

Ora, a segunda-feira da "ZicaBerg" mostrou que esta suplência digital para nossa precariedade de processos criou uma falsa segurança.

Quando retirada começamos a xingar o vizinho, imaginar planos mundiais de sabotagem e criticar a nossa própria dependência insabida. Algo análogo a quando nosso par não responde "na hora que queremos, porque imaginamos que ele está tão livre como nós" (apesar de sabermos que não).

A ilusão da prontidão digital tem acumulado muitas vítimas até aqui: casamentos, namoros, operações de crédito e vendas. Tudo como se todos estivessem "funcionando" em tempo real em disponibilidade irrestrita e gratuita.

Piaget falava do egocentrismo como sentimento infantil de que tudo que acontece no mundo tem alguma relação com nosso pensamento ou nossa vontade. O cronecentrismo é o análogo deste fenômeno em termos de tempo sincrônico compartilhado.

Infelizmente as relações de poder também se infiltram aqui, como se a vida dos senhores, com suas próprias rotinas e temporalidades, determinasse, sem negociação, o timing dos que dependem do serviço para sobreviver.

Esperemos que o colapso nos leve a repensar a fragilidade dos sistemas de comunicação nos quais estamos nos apoiando simplesmente porque eles são os mais baratos.

Assim também a valorizar as relações em sua própria temporalidade, que como nos velhos tempos, faz a sua própria hora e não espera acontecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL