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Blog do Dunker

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como acusação injusta de furto e celular provam caso brutal de racismo

O segurança do mercado é filmado pela professora; ao lado, imagens de Francisca sendo abordada na saída - Reprodução/TV Globo
O segurança do mercado é filmado pela professora; ao lado, imagens de Francisca sendo abordada na saída Imagem: Reprodução/TV Globo
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

27/08/2021 04h00

Imagine um país governado pela inflação e pelo desemprego. Os salários corroídos diariamente e as aplicações financeiras e o dólar usados para compensar a degradação diária do valor dos bens. Famílias perdendo todo seu patrimônio durante uma operação de compra e venda de um imóvel. Empresas falindo como moscas, atravessadas por planos econômicos que alteravam as regras do jogo, piorando o que já estava ruim e pela desordem tributária.

Não estou me referindo ao Brasil de hoje, mas aos anos 1980 e 1990, que atravessei com a moral da sobrevivência.

Naquela época de penúria e incerteza era comum patrulhas de amigos avisando que a carne tinha ficado mais barata em tal supermercado, isto é, quando havia carne para comprar.

Lembro-me que muitas passavam boa parte do dia comparando preços, com as sazonais tabelas e aproveitando ocasiões em que ocorria a conjunção perfeita entre a disponibilidade do produto, a liquidez dos seus recursos e a oferta que não passaria daquele dia.

Naqueles tempos que aprendi como pode ser humilhante não ter o dinheiro para comprar aquela coisa que você tem em suas mãos, naquela hora.

Parecia estampado na sua cara que você não era como os outros, que nem mesmo sua cobiça tinha dignidade.

Anos depois atendi muitas mulheres, algumas delas muito ricas, que não conseguiam entrar em determinadas lojas porque o olhar das vendedoras tinha virado uma espécie de prova de Rorschach, devolvendo a condição bio-psico-social pressuposta do consumidor.

Do modo de ser recebido ao tipo de produto indicado, passando pelas combinações possíveis, tudo indicava quem você era para o Outro.

Toda a lógica deste processo de opressão parecia invisível para aqueles que não tinham que encarrar a fila do pão, nem se perguntar quem é você dentro dela. Esta geração aprendeu a perceber o shopping center como lugar seguro para a democracia de consumo e o supermercado como plano de transparência dos gostos humanos.

Lembrei-me de tudo isso quando vi a Fran no Jornal Nacional deste sábado. Professora na escola de minha esposa, ela é querida por todos. Mãe dedicada, colocou seus filhos na mesma escola onde trabalha. Tornou-se orgulho para o centro de formação de professores, capitaneado pela Renata.

Mas a Fran não estava no Jornal Nacional por tudo isso.

Ela tinha ido a um certo supermercado para acertar a despensa. Remexeu nas ofertas, revirou os produtos e acho que não era uma daquelas ocasiões de ouro. Sem medo de ser percebida como uma destas que "não podem pagar pela loja na qual entram" saiu despreocupadamente do estabelecimento. Foi então abordada por um destes seguranças dizendo que ela havia furtado algo, que devia estar dentro da sua bolsa.

Ou seja, hoje temos equipamentos de segurança com observação e reconhecimento facial capaz de vigiar cada passo de um consumidor dentro de um supermercado.

Mas por algum motivo, que a mais moderna gestão neoliberal não consegue nos apresentar, ainda é preciso contratar pequenos vigias humanos do comportamento alheio. Seus métodos são os mais óbvios e seus erros recorrentes também.

Talvez, contando com a intimidação habitual, ele faz a pergunta conclusiva: o que você faz da vida?

Vejamos como esta pergunta poderia colher alguém mais vulnerável, por exemplo, alguém desempregado. Seria uma humilhação dramática ter que explicar que você é suspeito de manipular mercadorias, simplesmente porque não pode comprá-las.

A vergonha e o desrespeito crônico fazem milagres quando se trata de justificar a opressão. Contudo, desta vez o tiro parece ser preventivo: se acerto, ela se entrega; se erro, mal não vai fazer.

Mas Fran não é dessas de levar desaforo para casa e responde, com orgulho em todas as letras, que é professora. Vocês podem reprisar o vídeo que viralizou na internet com a cara do sujeito reagindo a esta resposta, diante de uma mulher... negra.

Sim, até aqui esta história podia ser a história de qualquer um importunado pelo preconceito de classe, empobrecido, julgado pela forma como se veste ou como fala. Esta parece ser a história invisível dos infortúnios pelos quais alguém negro passa habitualmente em espaços de civilidade branca.

Nesta hora, Fran decide tirar o celular do bolso e gravar o que estava acontecendo. Ele tenta tirar o celular dela. Inconformado com a resposta, o sujeito acha que ela está mentindo. Quer tirar o celular dela a qualquer custo. Ao mesmo tempo, ele parece se dar conta do efeito público do que está fazendo. Diz seguidamente: vamos ali resolver isso.

Onde é "ali"? De volta para a obscuridade invisível onde o preconceito e opressão podem operar livremente?

Temos então a origem das imagens que se tornaram posteriormente televisivas e internéticas. A resposta de Fran não poderia ser mais republicana: em vez de ir "ali" resolver o assunto, ela quer aclarar o assunto fazendo valer sua palavra, ou em última instância as câmeras do próprio supermercado que haveriam de comprovar o ocorrido.

A tecnologia de gravação por câmera de celular parece ter se tornado um instrumento kantiano de transparência.

Kant dizia que se você tem dúvida sobre a eticidade do seu ato, examine se ele poderia se tornar de conhecimento de todos. Imagine a transparência pública, de tuas palavras ou gestos e terás a coisa ética.

Mas, nesta situação o fato de que Fran se recuse a ter sua bolsa revistada, parecia contar apenas como uma confissão indireta de seu crime e não a defesa pública da palavra. Ou seja, o princípio da exposição pública só vale se você mesmo o invoca e não se algum outro em nome da força pública invada a vida privada. Por isso, é ele, e não ela, que chama a polícia que está passando pelo local.

A polícia chega e tipicamente tenta "aliviar" o caso. Impossível não pensar que a atitude seria oposta se fosse um grupo de adolescentes negros apanhados com alguns gramas de maconha.

Neste caso, não no outro, a exaltação faz mal aos negócios. Abre-se a bolsa. Não há sinais do tal pacote de acém que teria sido furtado. A ordem natural das coisas é que isso se trataria de mais uma batida "por procuração", por meio da qual a polícia paralela, representada pelos "seguranças", pode ter errado "desta vez", mas merece confiança porque acerta quase sempre.

Meus sentimentos são ambíguos para com este tipo de guarda miliciana à qual nos acostumamos.

Anos atrás eles prenderam uma de minhas pacientes que sofria com cleptomania e foi quase impossível explicar que este é um caso clínico que realmente existe.

Depois tive que assistir a outra paciente passar a noite na cadeia, com a filha por amentar em casa, por causa de outro deste insólito representante da lei em estrutura de milícia.

Afinal, com tantos empregos sendo devorados pela marcha tecnológica, porque ainda temos exércitos de vigias dispostos a exibirem violência e arrogância em qualquer loja de bairro?

Lembrei-me de Freud quando este diz que a mesma tecnologia que afasta nossos filhos porque se vão, de trem, trabalhar em outras cidades, traz eles de volta, por meio da invenção do telefone que nos aproxima.

Contra Freud eu pergunto: onde está a mesma tecnologia que permitiu a Fran se defender com um celular, mas que não foi usada para filmar que ela não colocou nenhum pedaço de carne na sua bolsa?

Por outro lado, compreendo que deve haver uma lógica de autojustificação da própria existência, coagindo os tais empregados explorados ao máximo a aprender "x" casos por dia ou por mês para manter sua meta e seus empregos.

Mal treinados na arte da palavra, como nossos policiais, cuja formação é ainda a da ditadura militar, incapazes de escutar, nossos "guardinhas" são também um sintoma do Brasil do subemprego. Eles são a ponta miserável que as máquinas não podem fazer, a não ser simbolicamente, ou seja, o serviço sujo da violência.

Mas desta vez pude acompanhar outro lado da história. O lado daqueles que denunciam e têm a coragem de enfrentar o sistema de invisibilidade do racismo no Brasil.

O filho de Fran tornou-se uma celebridade local para os amigos, mas isso não deixa de ser um pouco constrangedor. Os pais da escola se organizam para defender Fran e tornam o episódio um motivo para desencadear um coletivo antirracista.

Você se torna conhecida e reconhecida, não por ser uma professora exemplar, uma mãe cuidadosa ou uma amiga querida, mas por ter sofrido um episódio brutal de racismo.

Entrevistas, investigações, boletins de ocorrência, colunas (como a que o leitor está lendo agora), tudo isso transtorna a vida da pessoa.

Vamos lembrar, no início ela só queria um bom negócio no quilo do contrafilé. Como todos nós que estamos tentando sobreviver no meio desta crise.

Quando Beto Freitas foi espancado até a morte, em um supermercado em Porto Alegre, as câmeras filmaram tudo. Hoje temos seis indiciados pelo crime que segue a lógica de que o suspeito negro é culpado até que se prove o contrário.

Não gostaria que Fran fosse lembrada como um caso que segue a mesma lógica, ainda que com outras consequências e com outras proporções.

Queria que a Fran fosse lembrada como a grande professora que é, e que entre as virtudes do professor brasileiro, nunca nos esquecêssemos da coragem necessária para exercer esta profissão. Coragem que eu espero que ela tenha passado para meus filhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL