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Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que um psicanalista diz aos pacientes que querem encontrar o grande amor

Rudy e Peter Skitterians/ Pixabay
Imagem: Rudy e Peter Skitterians/ Pixabay
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

20/08/2021 04h00

A idealização, disciplinar e normativa do que vem a ser uma história de amor é um dos piores inimigos da experiência amorosa em nossa época.

Ela cresce em função de dois fenômenos ascendentes: o encurtamento da narrativa amorosa (concernida ao conto, ao encontro, à sua estrutura de acontecimento) e o empobrecimento de nossa capacidade de transformar-se com o amor.

O que torna o amor uma substância preciosa e insubstituível é que ele é a força mais eficaz para transformar pessoas. Portanto, quando digo que estou propenso ao amor, que estou precisando de um grande amor, geralmente estou dizendo também: "queria me tornar outra pessoa, cansei de mim mesmo".

Quando meus pacientes me fazem esta pergunta eu geralmente respondo: "mas a sua vida é tão grande, complexa e rica de tal forma que você será capaz de "aguentar" um 'grande' (grandíssimo) amor?"

Na sua vida "cabe" um grande amor? Muitas vezes estamos falando de um estado de coisas no qual a coisa mais interessante (talvez a única, talvez a única que valha a pena) será este messias "que virá".

Em síntese, ela estabelece que o "verdadeiro" amor é uma narrativa da qual nós sabemos, antes que ela aconteça, quais são seus capítulos necessários, suas condições e principalmente sua conclusão.

O amor está sobrecarregado de imperativos de sucesso e felicidade que nada tem que ver com os critérios pelos quais seria mais aceitável avaliar esta experiência.

Aqui vão os meus cinco vilões favoritos para os que procuram um grande amor:

  1. Contabilizar vício e virtudes do candidato (nesta matéria o curriculum vitae conta muito pouco)
  2. Comparar, agrupar, criar tipos ou perfis. (A história de que este "é o meu número" é para quem acha que sabe o quer e não está disposta a se surpreender.)
  3. Imaginar que o amor é uma questão do que você é e não do que você faz.
  4. Agir fora do tempo e espaço da relação. (Pessoas que fazem o filme andar em meio a diálogos e planos imaginários que não são compatíveis com a intimidade real conquistada pelo casal.)
  5. Supor que se você gostam das mesma coisas... logo vão gostar um do outro. O amor tem certas condições para começar, mas elas são, em geral, bastante triviais. Gostos comuns ou incomuns não chegam nem ao prólogo de um grande romance.

Há histórias onde o amor vem no segundo ou no terceiro tempo. Muitas vezes elas são muito mais ricas do que os grandes amores à primeira vista.

Há um elemento fundamental no caso: "o humor". Uma das coisas menos comentadas é que a maior parte dos amores não acaba por ódio ou infidelidade, mas com uma coisa muito mais banal e terrível: o mau humor.

Mas o essencial da história é o seguinte. Se a gente consegue aprender a amar o outro (e nem sempre isso é realmente possível) o patrimônio de confiança, esperança e a capacidade compartilhada de "resolver problemas" se torna muito grande.

Um amor conquistado a longo prazo torna este momento mágico, que às vezes dura semanas, que é a grande paixão, um efeito que dispersa no tempo. Em função disso ele pode se entranhar melhor nas diferentes "curvas escondidas" que toda relação comporta.

Não acontece aquele banho de tolerância e rebaixamento cognitivo que encontramos nos grandes amores fulgurantes. Mas, ao contrário, ganhamos na longa distância e o conjunto de traços da outra pessoa começa a se formar como uma aquarela que de repetente ganha forma.

O lado B do disco é onde estão as músicas menos tocadas, mas também as que exigem um gosto musical mais fino. Ninguém quer se ver como um prêmio de consolação, mas no fundo, a lógica da vida amorosa é feita mais de destroços do que de monumentos lustros.

Amar ilusões é fácil, amar o real é a nossa tragédia.

Desde os gregos o amor é considerado um processo de inversões sucessivas: o desejo do amante é ser amado, e quando ele é amado seu desejo é retornar novamente para a posição de amante. Uma gramática amorosa consistente está baseada nestas inversões.

A grande vantagem do lado B é que em geral ele nos ama mais do que nós o amamos, e as pequenas inversões são grandes avanços.

O amor é uma experiência que convoca, necessariamente, uma discussão metafísica, ou seja: isso que estou vivendo e sentindo é parte da realidade ou é uma ilusão? É um amor real ou é uma criação de minha cabeça?

Aqui a oposição entre real e ideal deve ser confrontada com duas outras dimensões para as quais o amor funciona como uma espécie de articulador: o desejo e o gozo.

Imaginemos que o amor é uma ponte entre estas duas coisas, cuja realidade é tão fugaz quanto a ligação entre elas. Como tal ele tem uma existência necessariamente efêmera.

Por isso que quando pensamos em amor pensamos em atos, em gestos, em olhares, em encontros, em momentos.

O amor real é aquele que é capaz de negar-se a si mesmo e depois retornar. O amor só pode ser real se respeitarmos a sua realidade que é a de ser uma espécie de parênteses na vida, um parênteses essencial.

[Como diria um velho rock do The Sweet: "Love is like oxigen, you have too much you are high, if you don´t have enough you die" - Amor é como oxigênio, se você tem muito você fica louco, se você não tem o suficiente você morre" ]

Agora é difícil imaginar que o melhor da vida se apresente em estrutura de parênteses. É quase impossível não sonhar com uma vida feita só de parênteses.

O amor é real tanto porque o conjunto de sentimentos que o compõe pode ser mais ou menos autêntico quanto porque o fim do amor é que ele se realize.

Realizar o amor é passar para outra coisa, conquistar coisas juntos, dividir ganhos e perdas, consolar-se mutuamente, conceber e criar filhos, e assim por diante.

Ora, tudo isso não é obra do amor, mas do desejo. E o desejo sem amor é dominação e vontade de poder.

O amor real é difícil porque ele tem que deixar entrar o desejo para voltar a ser amor, amor em turno e returno. Por isso que, para muitas mulheres o amor verdadeiro será sempre o próximo. Para outras ele estará para sempre entre os que passaram. E assim protegemos o amor de desaparecer no desejo.

Ora, esta alternância tem outro ponto que realiza o amor, ou seja, "torna o amor real", trata-se do prazer.

Nada mais mentiroso e auto-enganador do que imaginar que o prazer conduzirá ao amor e retrospectivamente. Muitas mães e o discurso moral ordinário preocupam-se muito com este ponto porque sabem que há uma verdade que precisa ser disfarçada aqui.

O amor quando se toca com o sexo vira outra coisa, e com sorte volta a ser amor, mas nem sempre.

O prazer sexual não é um signo de amor, e nenhum signo de amor possui a potência de se converter em prazer sexual. Isso deixa muitas mulheres perplexas, o sexo não tem sentido, ele é um "contrassenso" porque se esgota seu sentido em si mesmo, não produz nada, só consome.

Isso é um escândalo difícil de sustentar. Muitas vezes colocamos o amor como uma espécie de "desculpa" para sustentar o sexo, ou então como uma condição subjetiva para o sexo, mas isso é outra coisa. Ocorre que sem isso o amor não consegue desaparecer e reaparecer em sua dança com o desejo.

Tenho que concordar que para muitas mulheres o amor torna-se uma espécie de martírio. Muitas vezes acontece porque elas não estão querendo amar outra pessoa, mas elas estão "apaixonadas pelo amor", apaixonadas pela ideia de amor, pelos seus poderes supostamente mágicos e "solucionáticos".

São mulheres que já estão amando, mas amando a si mesmas em estado de encantamento. E elas têm razão, nenhuma vida vale a pena ser vivida sem amor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL