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Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Qual a mistura que fez a cabeça de quem segue as conspirações do QAnon

Homem segura letra Q do movimento QAnon - iStock
Homem segura letra Q do movimento QAnon Imagem: iStock
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

05/02/2021 04h00

"Cosmos" é a palavra grega para designar a totalidade e a ordem do universo. Pitágoras teria sido o inventor do conceito ao introduzir a ideia de que existiria certa proporção entre as coisas (harmonia), dado que a essência do mundo são os números (arithmos).

Duas tradições surgiram daí, a de Heráclito —este pensador do fogo que associou a noção de cosmos com a de lei e transformação (nomos)— e a de Platão —que chamava de cosmos o "Deus visível", ou seja, o deus que é causalidade e ordenamento das coisas, que nos faz olhar para a natureza como uma máquina incrivelmente ajustada a si mesma.

Está posta aqui a oposição entre o cosmos humano e o cosmos divino: de um lado Prometeu (aquele que rouba o fogo dos céus para dar aos homens), do outro Sísifo (que rola sua pedra montanha acima e a vê recolocada em seu lugar pelos deuses).

A reflexão antropológica sobre o ser humano sempre focou-se na procura da proporção entre nós e o cosmos. Como se existe uma relação fixa, estável ou definida entre o microcosmo e o macrocosmo. Como se ao descobrir exatamente qual é esta relação teríamos a resposta para o sentido e o lugar de nossa existência no mundo.

Para alguns a técnica perturba esta relação, para outros ela é o real caminho para o cosmos.

Isso ocorre porque a tecnologia tem duas definições, a que repete e amplia funções naturais e a que cria e inventa relações artificiais.

No primeiro caso a tecnologia potencializa nossas aptidões naturais: o martelo que é mais forte e duro que a mão, o telescópio que vê onde nosso olho não alcança, as ondas do rádio que transmitem vozes para além do nosso alcance natural, os computadores que realizam operações lógico matemáticas de forma mais rápida e rigorosa que nosso pensamento.

No segundo caso a tecnologia fornece a base para novas experiências como a invenção dos tipos móveis por Gutenberg, a formulação do cálculo diferencial integral, mas também a pintura, a fotografia, o cinema.

Há casos intermediários, como a descoberta da escrita pelos fenícios. Ela substitui com vantagens a precariedade de nossa memória, por outro lado, ela habilita um novo tipo de comércio entre culturas que possibilita o crescimento econômico do Mediterrâneo.

No campo da medicina hoje se discute a diferença entre drogas que recompõem o funcionamento do organismo e substâncias, chamadas "enhanced", que criam novas aptidões nos tornando imunes ao cansaço, às variações de foco ou o desgaste "natural" do corpo.

Se o microcosmos cria uma anomalia, chamada tecnologia genética, que é capaz de alterar dramaticamente o rumo do macrocosmos, podemos considerar que o novo conjunto assim formado é natural ou artificial?

Este é o tipo de questão que o filósofo chinês Yuk Hui tem colocado com seu interessante conceito de cosmotécnica.

Estudioso da história comparativa da técnica, no oriente e no ocidente (China em particular), Yuk parte de uma observação trivial, mas bastante contraintuitiva, ou seja, por que será que achamos que a técnica é um mundo separado da política e da ética?

O nosso mito tecnocentrista crê firmemente que o mundo da tecnologia é um mundo de puras ferramentas, neutras, matérias maleáveis que antecedem nossa decisão ética de como usá-la. Qual Prometeu, posso explodir uma bomba atômica ou curar pacientes oncológicos. Logo depois a cosmopolítica tentará, como Sísifo, controlar a produção de urânio.

Nossa crença naturalista na neutralidade da técnica ignora o que a pensadora francesa Monique Davi-Ménard, chama de "a vida social das coisas". Para Yuk e para Monique, estaríamos vivendo uma época que desconhece a diversidade das "naturezas" e a "vontade" das coisas. Achamos ainda que a natureza é uma só e que as culturas são pontos de vista que criamos livremente sobre ela. O perigo aqui é ignorar que existem vários cosmos e que não precisamos de mediações para passar de um para outro ou para comparar um ao outro.

O cosmos naturalista é aquele ao qual estamos acostumados pela tradição da ciência moderna.

O cosmos animista, que acredita na continuidade entre coisas e pessoas.

O cosmos totemista acredita no grande ordenamento nominativo dos mundos.

O cosmos analogista procuram conveniências e correlações no código secreto da natureza.

No fundo agimos como animistas quando xingamos a impressora que falha, geralmente quando mais precisamos dela. Agimos como xamãs quando nos indignamos com sistemas bioeletrônicos de voz ou de inteligência artificial. Nos comportamos como totemistas quando achamos que uma ideia ou valor é mais interessante do que outros apenas e tão somente porque ele pertence a minha comunidade, a minha família ou à minha forma de vida.

A cosmotécnica, isto é, o reconhecimento de que cada cultura e no limite, cada pessoa incorpora a técnica de forma particular, compreendendo resistências, assimilações e traduções locais próprias, se opõe ao tecnocentrismo globalizado, ou seja, a hipótese de que serviços em escala global produzirão uma mesma cultura homogênea com esquemas de ação e pensamento semelhantes.

Os conceitos orientais de ki (energia vital) e dao (a ordem das coisas), mostram como é possível uma relação na qual o uso da tecnologia não se dissocia da ética, respeitando a vontade das coisas, mas também a forma como escutamos a ordem ético-simbólica da tecnologia.

Ora essa escuta é essencial para desenvolvermos certas habilidades críticas sobre a tecnologia, de tal maneira a nos distanciarmos de certos perigos históricos que sentimos diante das coisas: o fetichismo (há coisas que mandam em nós), a reificação (podemos agir e nos tratar como coisas), e a iatrogênese (efeitos colaterais indesejáveis de métodos desejáveis).

Mas um grande efeito iatrogênico da tecnologia advém do desconhecimento ou ignorância com relação aos seus modos de incorporação locais. Por exemplo, que produto teremos ao misturar videogames agressivos com jovens que se sentem excluídos socialmente pelas mulheres? E se misturarmos neste conjunto uma pitada de teologia cristã ou de alquimia medieval? E se esta combinação funcionar em um modo desavisadamente analogista.

É possível que uma combinação deste tipo esteja por trás do grupo QAnon, que vem sendo associado ao ataque ao Capitólio americano à época da eleição de Joe Biden.

Contando com mais de 100 mil simpatizantes, este grupo formado e multiplicado em plataformas digitais afirma que estamos vivendo uma "batalha secreta contra o 'Estado Profundo' comandado por guerreiros pedófilos que dominaram Hollywood, as grandes empresas, a mídia e o governo americano".

"Q" é um líder mítico, anônimo que faz previsões sobre "o plano" e sobre "a tempestade" e o "despertar". Ora, até aqui estamos diante de um discurso profético, como tantas que houveram antes de nossos tempos. Ele combina elementos políticos e conspiratórios, como vemos tantas vezes em certas perspectivas paranoicas de mundo. Há uma certa poesia na narrativa, que toma elementos sensíveis da história do ocidente e das grandes narrativas metafísicas (crianças em perigo, a necessidade de acordar para um plano superior de realidade).

Mas, para cada uma destas interpretações o líder apresenta evidências e provas "irrefutáveis". Ou seja, ele fala "de nenhum lugar", sem nenhuma experiência pessoal, encarnando desta maneira o espírito de liderança "sem rosto" do tecnocentrismo.

Nos acostumamos a aceitar "informações" que nos chegam sem checagem de procedência, sem qualificação de fontes e principalmente sem mediação que permita separar e traduzir perspectivas naturalistas (científicas) de outras formas de entender o cosmos.

Observemos que a ideia chave do QAnon é a existência de uma e apenas uma "Batalha Secreta". Assim, a trama extremamente complexa, formada por interesses transnacionais concorrentes e múltiplos é resolvida por um único inimigo (com uma única intenção). Assim, o desenraizamento e a desterritorialização produzidas por uma tecnologia sem história e sem contexto são tratados de forma ainda mais desenraizada e deslocalizada.

Para desconstruir este efeito tecnocêntrico da linguagem digital é preciso sim de agências de checagem de fatos, mas lembremos que a noção de "fato" pode variar enormemente do universo analogista para o universo animista e destes para o naturalismo científico.

Além dos fatos temos as "relações" e estabelecer que tipo de relação queremos sancionar e em que termos.

Afirmar que a terra é plana é um ótimo tema poético e uma inspiração infinita para memes e quadrinhistas. Que estamos sendo enganados por grandes corporações e sistemas de propaganda, isso também parece uma verdade circunstancial, para críticos da ideologia. Também é justo pensar que nossas crianças estão sendo expostas a um mundo tóxico e repleto de perigos. Tirar destas três ideias, a consequência de que existe um complô de pedófilos que está a nos enganar não funciona porque usa regras animistas para justificar uma conclusão naturalista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL