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Blog do Dunker

Da morte de Lady Di à vacina contra covid, obsessivo é dominado por dúvidas

Montagem/ Freepik / Tim Graham - Tim Graham Photo Library via Getty Images/ Reprodução Nasa via AP
Imagem: Montagem/ Freepik / Tim Graham - Tim Graham Photo Library via Getty Images/ Reprodução Nasa via AP
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

04/12/2020 04h00

Em seu clássico "Totem e Tabu", Freud descreve o tabu do tocar como uma das formas elementares das restrições que comandam nossa relação com o totem, ou seja, seres animais ou vegetais que assumem a função simbólica de representar nossa ancestralidade.

A interdição de tocar estes seres, estaria referida ao fato ambíguo da relação com o sagrado, ou seja, ao mesmo tempo pertencente a uma outra dimensão, superior e respeitosa, mas de outro lado, objeto de sacrifícios rituais, onde sob condições propícias o totem é morto e ingerido pelos convivas de uma determinada comunidade.

A função do totem seria revivida pelas crianças em suas fobias típicas de animais, como cães, gatos ou cavalos, ou seja, substitutos simbólicos do medo que sentimos por nossos pais, ainda que por outro lado sejam objetos de amor.

Freud notou que esta atitude de temor e respeito ao totem e de obediência e transgressão do tabu verificada em inúmeros povos, particularmente da África e da Oceania, replicava estruturalmente os sintomas da neurose obsessiva. Tais pacientes sofrem com uma peculiar forma de ambiguidade de afetos, conhecida como ambivalência. Isso significa que pensamentos intrusivos com relação a pessoas que eles amam intensamente podem indicar conteúdos contrários: de morte e hostilidade.

Obsessivos são frequentemente acuados por um conjunto de "mandamentos" incompreensíveis para eles mesmos, mas que podem envolver injunções causais do tipo: "tenho que contar quantos azulejos existem nesta parede, senão algo terrível vai acontecer". Ou então pensamentos punitivos do tipo: "se vejo uma mulher nua, meu pai vai morrer". Ou ainda: "diante do corpo de Jesus Cristo seminu, tive pensamentos libidinosos, por isso sinto que serei punido".

O mais típico e curioso é que tais pensamentos são sabidamente ilógicos e correspondem a inferências que a própria pessoa sabe que são incorretas.

Para se defender da angústia que atravessa eventos cotidianos, às vezes mínimos, bem como da vergonha que se impõe em relação a esta verdadeira vida paralela exigida pelos encargos de manutenção das exigências impostas pelo sintoma, o sujeito desenvolve ritos protetivos, promessas e demais formas de contra-pensamentos evitativos.

Ora, certos aspectos específicos da epidemia de covid-19 penalizaram gravemente estes pacientes. Muitos deles agravaram sua inclinação a não sair de casa e a reduzir o contato social. Outros tantos enfrentaram aumento substancial de formações de angústia: somatoforme, hipocondríaca ou pânico.

A prática da higienização com álcool em gel concorre para dar suporte realístico para o complexo de contaminação, tão frequente nesses casos.

O sentimento de purificação, tantas vezes culturalmente associado com o sagrado, a indeterminação das estratégias de enfrentamento, o desconhecimento da natureza da doença, a incerteza quanto ao futuro, tudo isso seriam condições convergentes com o que para Freud seria o sintoma fundamental da neurose obsessiva, a saber: a dúvida.

Por isso eles teriam uma certa propensão a se interessar por temas indecididos tais como: vida após a morte, paranormalidade e enigmas científicos.

Isso explicaria a concorrência e a conexão tão frequente entre a abertura para o negacionismo e o desenvolvimento de narrativas, cuja serventia para muitos não é a real oposição e crítica a sistemas hegemônicos e consensos, mas a infiltração da dúvida por si só.

Ou seja, mesmo sabendo que o homem chegou à Lua, a prática de duvidar das evidências sobre isso, demandar provas e criar contra-argumentos, ainda que improváveis, satisfazem a exigência fundamental da dúvida, que neste caso torna-se uma dúvida não razoável.

Objeções do tipo: será que o homem chegou à Lua mesmo? Que provas temos de que não existe uma conspiração mundial dos comunistas para trazer as trevas e dominar o mundo? Não são, necessariamente, a expressão de uma crença inversa (por exemplo, que a terra é plana), mas maneiras de criar este trabalho da dúvida, necessário para dominar a morte e a finitude, reduzindo a angústia.

É por esta via também que os obsessivos são conhecidos como grandes procrastinadores, ou seja, adiam decisões e prolongam tomadas de posição justamente porque o processo da dúvida é uma fonte de prazer inconsciente. Outro tema irresistível são as "mortes estranhas", como John Kennedy, Tancredo Neves e Lady Di, pessoas mortas vivas, como Elvis Presley ou Jim Morrison, ou vivas mortas, como Paul McCartney (ou seria um sósia dele?).

Nesta pandemia a teoria que junta negacionismo, dúvida e ambivalência é a teoria das vacinas.

Lembremos que em 1904, quatorze anos antes da gripe espanhola, eclodiu no Rio de Janeiro, a revolta da vacina. Moradores dos bairros populares se insurgiram contra as campanhas de vacinação contra a varíola, proposta por Osvaldo Cruz. O sentimento era de que "nossas mulheres e crianças" não podem ter seus corpos expostos, e eventualmente possuídos por este estranho chamado Estado.

Barricadas foram montadas e vidas foram perdidas para impedir que este ser incompreensível chamado vírus fosse combatido por meio de uma injeção. A ambivalência entre amor e ódio (reprimido) que sentimos por nossas crianças, a fantasia de sermos controlados pelo outro (pela introdução de um objeto) e a negação do conhecimento sanitário (como recusa a deixar substituir a autoridade pessoal paterna, pela autoridade impessoal científica).

O vírus Sars-CoV-2 se presta a ser um caso limite entre o animismo, que acredita na ação de agentes mágicos "invisíveis", e o totemismo, que acredita no poder genealógico de nossos ancestrais, e nas nossas dívidas simbólicas para com eles. De toda forma nesta pandemia nos tornamos todos um pouco mais obsessivos.