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André Noel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desenvolvedor 'pilha cheia': nome é a metáfora de nossa vida na pandemia

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Imagem: Freepik
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André Noel

Andre Noel é programador, webcartunista, autor do Vida de Programador, professor universitário (UEM e Unicesumar), youtuber e sabe pregar botões em roupas.

29/08/2021 04h00

É comum, ao passear pelas vagas de empregos em T.I., encontrar vagas para programadores/desenvolvedores full stack. Você sabe o que é um desenvolvedor full stack?

Ao pé da letra, "full" e "stack" nos dariam uma ideia de "pilha cheia", sendo aqui a pilha no sentido de coisas empilhadas. A ideia é que um desenvolvedor full stack sabe toda a "pilha" do começo ao fim, sabe fazer todas as partes de um sistema, em uma definição bem superficial.

Informalmente, eu gosto mais de uma definição que traduz "full" como "tudo" e "stack" como "nas suas costas", ou seja, é aquele desenvolvedor que leva o projeto todo nas costas se desdobrando para dar um jeito.

Mas eu não vou focar na definição formal ou no papel do desenvolvedor, eu quero pensar mais nesse termo da "pilha cheia". Não sei como você está, mas eu estou com a "pilha cheia" (e cada vez mais) desde o início da pandemia.

Felizmente eu não trabalho com papéis, mas se eu trabalhasse tenho certeza de que minha mesa teria pilhas cheias deles com coisas a resolver. O papel foi substituído, aqui, pelo calendário online, listas de tarefas, emails, mensageiros e diversos meios de anotar ou cobrar pela conclusão de algo.

Se já não bastassem as minhas pilhas cheias, aqui as pilhas de todos da família interagem, então juntam pilhas de avisos e tarefas de escola das crianças (que estão online), pilhas de brinquedos espalhados pela casa, pilhas de roupas para lavar e guardar, pilhas de compromissos médicos e agendas que precisam estar todas sincronizadas para que enquanto alguém trabalha, outro possa ficar com as crianças, em revezamentos dignos de medalha olímpica.

Às vezes eu falo sério e às vezes eu brinco, como na tirinha da semana passada, a respeito da saúde mental e como mantê-la em tempos de pandemia. Até me tranquiliza pensar que mantê-la totalmente é algo impossível, todos estamos sendo afetados de uma forma ou de outra.

Você não tem mais os mesmos hábitos e nem as mesmas amizades de antes, não vê as mesmas pessoas, não trabalha do mesmo jeito, independente se está em quarentena ou não. As lembranças de dois anos atrás estão distantes como se tivessem se passado dez anos.

Minha filha menor tem dois anos, viveu pouco tempo "do lado de fora". A dinâmica com ela é muito diferente de como criamos os outros nessa fase.

As crianças estão em uma fase onde estão com a pilha cheia, mas a pilha deles é no sentido de energia mesmo. Estão cheios de energia acumulada e que de algum jeito eles precisam extravasar.

O resultado disso são as paredes da casa quase todas riscadas, crianças pulando na sua frente (ou em cima de você) enquanto você trabalha e mil atividades criativas que a gente tem que propor para estimular e canalizar as energias.

Para resumir, eu estou sim com a pilha cheia. Tenho plena ciência de que funciono mais lento do que antes e que a minha reação às situações está diferente, com um nível de tensão mais alto que precisa ser pensado e repensado antes de agir.

Isso me ajuda quando lembro que as outras pessoas também estão passando por isso, consigo ter uma empatia melhor com quem me atende, com quem me pede algo ou com quem se frustra comigo por uma coisa.

Como a gente vive em uma realidade fragmentada, onde as pessoas lutam com diferentes verdades e isso estende por muito mais tempo a pandemia, nos resta aprender a lidar com as pilhas cheias, procurar manter ao máximo uma boa saúde mental e ter empatia com os outros que estão também com as suas pilhas cheias.

Uma boa semana para você e para suas pilhas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL