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André Noel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Michelangelo do trampo: como ser bom em tudo que a empresa pede de você?

Pietà, de Michelangelo,  está na Basílica de São Pedro, no Vaticano - Stanislav Traykov/Wikimedia Commons
Pietà, de Michelangelo, está na Basílica de São Pedro, no Vaticano Imagem: Stanislav Traykov/Wikimedia Commons
André Noel

Andre Noel é programador, webcartunista, autor do Vida de Programador, professor universitário (UEM e Unicesumar), youtuber e sabe pregar botões em roupas.

27/02/2021 04h00

Você já viu os currículos dos artistas da Renascença? Leonardo da Vinci foi cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. O mesmo cara que pintou a Monalisa projetou também um avião.

Se você olhar para o Michelangelo, ele foi pintor, escultor, poeta e arquiteto. Ele conseguiu executar com perfeição a pintura da Capela Sistina, assim como a escultura da Pietà.

Como é que pessoas como eles conseguiam ser boas em tudo?

O primeiro palpite é que eles não tinham celulares para distraí-los o tempo todo. :)

Olhando o artigo sobre Da Vinci na Wikipedia, vemos que ele é descrito como um "polímata", termo que a própria enciclopédia define como "uma pessoa cujo conhecimento não está restrito a uma única área".

Depois da Renascença, resumindo muito a história, houve um movimento grande em busca da especialização, onde as pessoas buscavam ser boas em uma área, que era aquilo que fariam como carreira.

Mas vemos, de uns tempos para cá, a busca por novos polímatas, pessoas que possam fazer a ponte entre áreas e até mesmo que navegam entre as diferentes áreas. Algo que é até retratado no mundo de startups como "slashies", que são pessoas que fazem (ou sabem fazer) diferentes funções.

Longe de ter a pretensão de me comparar ao Da Vinci, mas se você olhar para o meu LinkedIn vai ver algo próximo a um polímata, porque eu também não fiquei a carreira toda fazendo a mesma coisa. Eu sou programador, professor, webcartunista, comediante, escritor, empreendedor e sei pregar botões em roupas, entre outras coisas.

Durante os anos, a vida foi me levando a aprender coisas diferentes e a trilhar caminhos diferentes. Mas mesmo quem permanece em uma mesma função tem sentido a cobrança por ser um polímata, é só olhar uma vaga de emprego para programador para se perceber como a empresa espera dele uma enorme gama de conhecimentos.

Tirinha #2115 - Vida de programador - Andre Noel/ Vida de Programador - Andre Noel/ Vida de Programador
Imagem: Andre Noel/ Vida de Programador

"Procura-se programador novo, com 20 anos, mas com 30 anos de experiência em uma tecnologia que surgiu há 5 anos, além de saber todas as demais tecnologias correntes, instalações de infraestrutura, escalada de paredes, mergulho, criação de foguetes e espeleologia."

Tudo bem, exagerei na parte da espeleologia. Porém, novos profissionais de T.I. tendem a ter dificuldades de encontrar um emprego por não serem profissionais "júnior" com conhecimentos de "sênior".

A ansiedade ao tentar aprender as mais diferentes tecnologias para estar apto a se candidatar a uma vaga tem trazido desilusão aos que estão iniciando e levam ao burnout profissionais que já estão na área e que precisam abraçar o mundo.

E é neste momento em que voltamos à pergunta do início: como ser bom em tudo? Como fazer para ser bom em diversas áreas ao mesmo tempo?

Não somos treinados para várias habilidades como eram os artistas da Renascença. Vivemos em uma época onde é difícil ter foco naturalmente, imagine ter foco ao mesmo tempo onde tem que se fazer de tudo.

Como está na tirinha, é relativamente fácil saber várias tecnologias diferentes quando se sabe apenas superficialmente. Infelizmente, várias empresas buscam pessoas que sabem muitas coisas superficialmente, imaginando que vão conseguir profissionais que saibam a tecnologia profundamente.

A minha dica permanente para quem está começando é: não tente aprender tudo de tudo.

Aprenda sob demanda, à medida que for precisando utilizar. Você não vai saber a fundo muitas linguagens de programação. Procure aprender bem a fundo uma ou duas e saiba um pouco de outras linguagens, isso facilita a troca quando você precisar.

E para quem já está na área há um tempo, compartilhe o seu conhecimento com os mais novos. Quando você compartilha o seu conhecimento, invariavelmente você aprofunda o seu conhecimento naquela tecnologia.

Cuidem-se. Boa semana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL