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Álvaro Machado Dias

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Avanço da tecnologia nos faz perceber o trabalho obsoleto que realizamos

Eliminação de empregos por causa do avanço da tecnologia pode esconder um sinal positivo - Umit Yildirim/ Unsplash
Eliminação de empregos por causa do avanço da tecnologia pode esconder um sinal positivo Imagem: Umit Yildirim/ Unsplash
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Álvaro Machado Dias

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica "Frontiers in Neuroscience", membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Ele estuda tomada de decisões do ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Para mais informações, acesse: alvaromd.com.br. Contato: alvaromd@wemind.com.br

10/05/2022 04h00

Períodos pré-eleitorais são propícios para a apreciação de convergências além, é claro, de divergências, as quais não passam despercebidas dos analistas políticos.

Algumas convergências entre opostos ideológicos são parciais, como a de que a invasão da Ucrânia possui legitimidade. Outras convergências discursivas são totais. A maior de todas é a de que a geração de empregos é um fim em si mesmo.

É claro que existe uma diferença de posição muito grande em relação à reforma trabalhista; mas, nenhum ideólogo ou político de renome coloca em discussão a importância da empregabilidade em si. Todos sabem que isso seria irracional — e que representaria suicídio político.

Faz sentido, afinal, este é um país em que multidões anseiam por uma fonte de renda que lhes permita colocar comida na mesa e ter um mínimo de conforto, sendo o emprego o caminho mais digno e sustentável para tanto.

O combate ao desemprego se coloca acima das divisões ideológicas mais elementares por questões de sobrevivência política, ao mesmo tempo em que a natureza do fazer raramente é discutida, o que me parece um grande problema.

Se 95% da população empregável está ocupada, então, está tudo ótimo. Não importa que parte relevante esteja realizando tarefas inúteis. Enquanto os números estiverem bons, estaremos bem. E vice e versa.

Não é preciso franzir demais a testa para perceber que se trata de uma falácia. Tarefas precisam acrescentar algo para a sociedade. Caso contrário, só servirão para desgastar aqueles que as realizam, gerando insegurança e baixa autoestima —além, é claro, de ancorar a renda nacional no platô inferior em que está desde sempre.

O debate sobre a substituição do trabalho pela tecnologia no Brasil tende a deixar este aspecto fundamental de lado, reduzindo-se a uma espécie de elogio do atraso e da paúra: devemos fazer de tudo para segurar o avanço da indústria automobilística posto que esta ameaça acabar com a prática da montaria, destruindo um monte de empregos.

Em contraste, assim como o tear e o arado mecânico, os elevadores modernos e os veículos que dispensam cocheiros tornaram a vida melhor. Isso vale em geral e em particular para aqueles que estavam na rota de se tornarem ascensoristas e que hoje dão um duro fazendo alguma outra coisa.

Nos Estados Unidos e no Japão, a substituição atinge em cheio os trabalhos menos qualificados; aqui, eles são mal pagos a ponto de passarem quase ilesos. Por enquanto.

O principal alvo da substituição tecnológica em economias médias como a nossa é a baixa gestão ou "gerenciamento": profissionais que fazem atas de reunião, mandam emails para que ninguém se esqueça de preencher determinado formulário e, em seguida, baixam-no e o salvam em Excel.

Aqui também entram os profissionais que aplicam processos seletivos em papel e depois compilam os resultados, gente que trabalha de não deixar os fornecedores atrasarem o pagamento, os funcionários de enviar o entregável e a pessoa do contábil de mandar a nota fiscal, após a aprovação do cliente.

Não é que essas tarefas, junto com as profissões associadas, sejam inúteis; o ponto é que os problemas que resolvem tornaram-se muito menores, com a ajuda da tecnologia.

A visão canônica no Brasil e no resto do planeta até algum tempo atrás era de que a substituição trabalho pela automação e inteligência artificial concentrava renda, gerava desemprego e nada mais.

Hoje, vê-se um quadro mais nuançado, em que o declínio de profissões tradicionais impulsiona o surgimento de diversas outras, em parte pelo aumento da riqueza total disponível, incluindo a produção de alimentos e remédios, e em parte em função dos mercados secundários que as próprias tecnologias emergentes estimulam. Vale notar que é comum que estes mercados tornem-se maiores do que aqueles que lhes originaram.

Automação e IA são sinônimo de menos trabalho na indústria, no campo e em ocupações tipicamente urbanas, de base algorítmica. É também sinônimo de maior demanda por serviços de base interpessoal, digital e diversas outras.

Uma visão de médio prazo sobre a substituição tecnológica do trabalho deve incluir mecanismos de complementação de renda —ou mesmo a renda básica universal— afinal, a tendência envolve uma redução geral na necessidade de esforço produtivo, como inúmeros sociólogos já expuseram.

Igualmente importante é posicionar a educação, incluindo o treinamento de adultos, no centro do debate. Sem escolas públicas de qualidade, como as que dão o tom da vida educacional nos Estados Unidos e na Europa (que não privatizaram a educação bem conduzida, como nós), estaremos fritos.

Feitas estas considerações, torna-se importante não esquecer o outro lado dessa história: as tarefas importantes não estão deixando de ser feitas; elas simplesmente estão demandando menos sofrimento humano, o que as torna invisíveis para nós.

Ninguém precisa esfregar o chão para que ele fique limpo; uma maquininha simplória faz isso, livrando aos habitantes dos países mais ricos de tal fardo. O mesmo se aplica às funções gerenciais mais simples por aqui.

Um dos aspectos mais notáveis disso tudo é que a massificação das tecnologias tidas como disruptivas numa época é o que leva à percepção de que uma tarefa ou ocupação é inútil. Acendedores de lampiões em vias públicas só passaram a ser vistos como parte dessa equação quando a iluminação elétrica tomou conta das ruas das grandes cidades.

Agora, vamos imaginar como essa percepção se espalhou. Será que assim que surgiu a iluminação pública todo mundo imediatamente percebeu que ter uma pessoa cuidando dessa função era ilógico, ou será que tal entendimento foi ganhando forma ao longo do tempo?

Do mesmo modo, será que o surgimento dos elevadores automáticos eliminou os ascensoristas ou será que, por um bom tempo, vimos gente sentada em elevadores apertando botões, como ainda é o caso em prédios de nobreza e racionalidade singular? Você entendeu, eu sei.

A utilidade do fazer humano não é mera função das alternativas disponíveis, mas uma proxy para a capacidade de atualização das crenças sobre como as coisas devem funcionar.

O progresso tecnológico oferece-nos subsídios para perceber o caráter inessencial de uma tarefa, função ou trabalho, enquanto a dinâmica com que isso efetivamente ocorre é uma característica da sociedade, que se adapta de maneira idiossincrática às diferentes inovações.

Muitas vezes, tal componente idiossincrático sequer está perpassado pela problemática da eliminação de empregos e pelas tensões políticas classicamente associadas.

Tome, por exemplo, o uso de ferramentas de videoconferência, durante a pandemia. Este foi endossado de A a Z, o que acabou expondo o quanto boa parte das interações físicas são dispensáveis para que os circuitos produtivos estabelecidos sigam o seu fluxo.

Horas e mais horas de trânsito, relógios de ponto, almoço coletivo no refeitório da empresa, tudo isso foi suprimido por quase dois anos sem gerar quedas substanciais de produtividade.

No entanto, dado o sinal para a retomada, o que a gente vê é que muitas instituições não conseguiram reter uma gota de aprendizado, o que as colocou em posição de desvantagem frente àquelas que assimilaram a importância de dosar o presencial e o remoto, de maneira estratégica.

O mesmo pode ser dito sobre países: enquanto alguns parecem ter absorvido este princípio de maneira mais profunda, outros passaram em grande medida incólumes pela virtualização forçada, tal como um paciente demenciado, com sua incapacidade típica de aprender.

Tomando o progresso tecnológico por um ponto de vista internacional, é fácil se colocar de vítima, dizendo que a tecnologia gera desigualdade entre os países na medida em que separa os que produzem dos que consomem.

Mais preciso seria considerar que a desigualdade se dá em parte por isso e em parte pela capacidade de reagir às inovações que chegam de fora, incorporando o quanto certa maneira de fazer as coisas pode ser substituída por outra melhor.

Apesar de estar às vésperas de se tornar a maior economia do mundo, a China passa longe de ser o maior celeiro de inovações disruptivas do planeta. Pelo contrário, a marca do país é a velocidade de adaptação, incorporação e pivoteamento de tecnologias originadas em outros países.

É isso o que nos falta. Mais até do que capacidade para liderar a nova fase da inteligência artificial ou do metaverso.