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Álvaro Machado Dias

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacina transmissível: por que técnica aponta para futuro com menos doenças

torstensimon/ Pixabay
Imagem: torstensimon/ Pixabay
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Álvaro Machado Dias

Álvaro Machado Dias é neurocientista cognitivo, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomadas de Decisão, editor associado da revista científica "Frontiers in Neuroscience", membro da Behavioral & Brain Sciences (Cambridge) e do MIT Tech Review Global Panel. Ele estuda tomada de decisões do ponto de vista cerebral, efeitos das novas tecnologias na compreensão do mundo, inteligência artificial, blockchain e o futuro da medicina. Para mais informações, acesse: alvaromd.com.br. Contato: alvaromd@wemind.com.br

08/06/2021 04h00

Na véspera do último dia das mães (9 de maio), eu e meu sócio, Renato Meirelles (Instituto Locomotiva), passamos o dia debruçados sobre uma pergunta macabra: quantas pessoas deixaram terminantemente de comemorar o dia das mães em função da covid-19 e seu manejo, no Brasil. A resposta foi 283.855.

Isso mesmo. 283.855 órfãos por parte de mãe, de 140.277 mães mortas pela pandemia, até aquele momento. Apesar de não ter sido fácil chegar a estes valores, decidimos não publicar os resultados perto da data, em respeito à dor das famílias enlutadas.

Atualizando estes valores (8 de junho) e considerando as perdas parentais dos dois lados, ultrapassamos 700 mil experiências de luto, de filhos e filhas, que perderam o pai, a mãe ou os dois.

É lógico que estes números não incorporam o fato de que muitas dessas pessoas poderiam ter morrido de outras causas, caso a pandemia não existisse ou tivesse sido manejada de outra forma.

Por outro lado, o impacto real vai muito além dos óbitos contabilizados, corrigidos estatisticamente ou não. Parte do que está em jogo é a felicidade de quem fica. Esta é altamente dependente das perdas sofridas, do contexto em que ocorreram e, claro, de seus desdobramentos práticos.

Muitas famílias jamais conseguirão se reestruturar. E o sofrimento vai correr por anos, através de veios diversos como o da nutrição, da aprendizagem, dos relacionamentos sociais e da confiança.

Este é, para mim, o ponto de partida para pensarmos sobre os impactos da pandemia e, em especial, das mortes evitáveis, decorrentes das mensagens contraproducentes e dos atrasos na vacinação. Não são números, mas pais, mães, irmãos, amigos. É a vida abandonada mais cedo por milhares e a sensação de perda irreparável por milhões.

Não assuma que faz parte do jogo. Pelo contrário, o caso brasileiro é um daqueles que vai ocupar um quadrinho especial sobre as anomalias de um período anômalo, em livros escolares do mundo inteiro. Eu penso em um livro desses, em holandês, coreano ou alemão, e o imagino ricamente ilustrado, com desenhos de vírus e seringas, mas também de árvores e animais.

O vírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, pode ter se espalhado dentro de um laboratório chinês, ter "transbordado" do seu repositório natural para a gente, ou ter sido hospedado por uma espécie intermediária antes disto acontecer. De todas as formas, sua matriz originária é, quase certamente, um coronavírus de morcego.

Ainda é cedo para um veredicto sobre as peripécias pregressas desse vírus. Pode até ser que escape do enquadramento objetivo deste futuro livro. De qualquer maneira, as árvores e os animais —morcegos entre outros— estarão lá.

Morcego voando - Sydney, Austrália - James Wainscoat/ Unsplash - James Wainscoat/ Unsplash
Imagem: James Wainscoat/ Unsplash

A razão é simples: mais de 70% das doenças infecciosas emergentes, aquelas que surgem de repente e rapidamente se espalham, são zoonoses originadas em animais não domesticados, cujo contato é estimulado pela desestruturação de seus respectivos nichos ecológicos —e o livro que eu imagino não será dedicado à pandemia que nos assola, como você imaginou, mas às pandemias que podem nos assolar, tendo a do biênio 2020-2021 como exemplo.

É sintomático que tanto o Sars-Cov, da epidemia de 2002-2004, quanto o Mers-Cov, que abateu o Oriente Médio no começo da década passada, tenham se originado em morcegos, que passaram a viver mais próximos dos seres humanos em função da degradação do meio ambiente. A mesma coisa vale para o ebola, zika, chikungunya e muitas outras doenças.

Perto da virada do século, morcegos da Malásia começaram a migrar em função da degradação do ambiente, estabelecendo-se perto de criadouros de porcos e outros animais. Estes criadouros tinham pés de manga, que davam frutos exuberantes, os quais os mamíferos voadores comiam e os terrestres também.

Por meio dos restos de compartilhados, um vírus da família Paramyxoviridae (paramixovírus) pulou dos morcegos para os porcos, sofreu mutações e chegou aos humanos, onde deu origem à doença de Nipah, que anda gerando preocupações (mortalidade de 40-70%), conforme o UOL e a BBC noticiaram, no começo deste ano.

Este é o quadro geral, no qual o SARS-CoV-2 é o específico e as presepadas responsáveis pela multiplicação das mortes evitáveis entram como hiperlinks do macabro.

Então, aqui vai um lembrete: quando você ouvir o barulho da Mata Atlântica queimando ou o dos últimos macacos do pantanal sendo carbonizados, não pense só no fato de que a beleza do Brasil está desaparecendo para sempre, enquanto o calor e a secura tornam-se infernais. Pense no currículo da garotada e tenha em mente que há boas chances dessa destruição toda estar no livrinho sobre a proliferação desenfreada das doenças infecciosas. Não quero ser alarmista, mas é isso.

A atividade humana moderna está alterando de maneira intensa e irreversível o mundo natural. Somando-se ao aquecimento global e às extinções em massa, a atividade humana está alterando nossa relação com microorganismos, produzindo efeitos profundos. O impacto desta relação alterada pode ser observado no forte crescimento das taxas de surgimento de doenças infecciosas"

(Murphy, Redwood e Jarvis, 2015)

Se não caiu a ficha é porque você esqueceu de contabilizar o fato de que o Brasil é o país que mais desmata no mundo.

O cessar-fogo contra a natureza é uma necessidade sem substituto para a nossa felicidade de longo prazo. Porém, isso não significa que seja a única medida recomendada para conter a proliferação das doenças infecciosas emergentes.

Uma estratégia importante é a vacinação das espécies hospedeiras. Isto já é feito em alguns casos, como o da raiva, erradicada em diversos países (mas não em todos), após intenso esforço de conscientização.

Porém, como capturar todos os morcegos existentes para lhes vacinar? Como fazer isso com ratos e outras espécies? Não é factível. É aí que entram as vacinas que se disseminam sozinhas.

Vacinas transmissíveis X vacinas transferíveis

O salto de um patógeno de outra espécie para a nossa não segue uma lógica do tipo tudo ou nada. Em geral, a contaminação ocorre em fases.

Na primeira delas, a adaptabilidade do agente infeccioso é menor. Conforme novas contaminações vão ocorrendo e o microorganismo vai se espalhando, sua capacidade de adaptação aumenta e se torna mais difícil combatê-lo.

É isto o vimos com o SARS-CoV-2 e a razão pela qual é tão importante conter a sua proliferação. A cada nova mutação, a chance de eliminação do mesmo diminui.

A ideia dominante em vacinas que se disseminam sozinhas é a de vacinar uma parcela dos hospedeiros de patógenos que nos ameaçam, induzindo-os a levar à frente este processo, no intuito de bloquear o fluxo de transmissão, antes que seja tarde demais.

Dois tipos de tecnologia estão sendo aperfeiçoadas para tanto: vacinas transmissíveis e vacinas transferíveis. Aquelas são irradiadas de um animal para outro, sem a necessidade de contato, tipo doença respiratória; já estas são difundidas, como tinta fresca, pelo toque.

O primeiro tipo parte da inoculação por via injetável, enquanto as vacinas transferíveis são difundidas no corpo do hospedeiro (sobre seus pelos), que as repassa, através do alisamento e outras formas de interação física. Em ambos os casos, as aplicações precisam mirar agentes e eventos super-transmissores, como, por exemplo, os momentos em que os nascimentos são mais acelerados.

transmissão - Equipe WeMind - Equipe WeMind
Figura I. Esquema de funcionamento das vacinas transmissíveis
Imagem: Equipe WeMind
transferência - Equipe WeMind - Equipe WeMind
Figura II. Esquema de funcionamento das vacinas transferíveis
Imagem: Equipe WeMind

A produção de vetores modificados para vacinas que se autodisseminam acontece de diferentes maneiras. As mais conhecidas são atenuação da virulência do vetor da doença e inserção de uma parcela do genoma de um agente imunizante no genoma de um vetor transmissível mas inócuo.

Seja qual o for a técnica de produção de vetores adotada, o alcance das vacinas transferíveis é o do produto difundido pelo toque, ao passo que a cadeia de transmissão das vacinas transmissíveis pode se estender indefinidamente. Isso faz com que, ao menos em tese, possam eliminar por completo os diferentes coronavírus, entre outros microorganismos perigosos para a nossa espécie.

O jogo da eliminação de um patógeno possui as seguintes regras: quando a taxa de transmissão do vetor da doença é mantida sistematicamente abaixo da taxa de transmissão do vetor modificado, o microorganismo tende a ser eliminado da espécie que lhe serve de reservatório. Se isto acontecer antes de sua plena adaptação ao corpo humano, a doença tenderá a ser erradicada por completo.

Já quando a transmissão do vetor da doença mantém velocidade superior à da transmissão da vacina, há redução no potencial de contaminação humana, mas não eliminação do risco. Neste caso, o microorganismo pode se adaptar ao corpo humano e até causar uma nova pandemia.

Isto parece sugerir que as vacinas transmissíveis sejam incomparavelmente melhores. A realidade, para variar, é mais complexa do que isso.

Em primeiro lugar, as vacinas transmissíveis são baseadas na replicação natural do microorganismo modificado e a transmissibilidade tende a cair com a redução da virulência.

Vetores altamente eficazes tendem a se reproduzir mais lentamente, sendo menos eficientes na transmissão"

(Layman, Tuschoff, Nuismer, 2021)

Em segundo, mutações surgidas junto com a replicação podem fazer o vetor atenuado adquirir as características da doença selvagem, o que é bem perigoso.

Se uma vacina transmissível é desenvolvida por meio de algumas poucas substituições genéticas, a reversão ao tipo selvagem pode ocorrer rapidamente, como no passado já ocorreu com a vacina contra Pólio"

(Nuismer, et al., 2016)

Eu desconheço exemplo mais perfeito de disputa entre seleção natural e design inteligente. Aqui, não se trata de tolos querendo negar a realidade que fósseis e genomas comprovam.

A evolução por seleção natural é um fato, que justamente cria um problema, que a gente tenta resolver através do design inteligente de formas de vida menos suscetíveis aos processos naturais. Os mesmos processos que revelam a origem da espécie humana na ordem dos primatas e a origem da vida em reações químicas que converteram moléculas inorgânicas em orgânicas, neste planeta ou fora dele.

Aliás, vírus não estão vivos, no sentido convencional do termo. Vírus não crescem, não mantém seu equilíbrio interno, nem se reproduzem. Vírus se replicam, usando as células de seus hospedeiros, já que não têm as organelas necessárias para tanto. A única maneira de compreender o que são é através de uma visão evolucionária da vida —mas isto a gente deixa para uma outra discussão.

Com essas coisas estranhas gerando doenças infecciosas em cascata, o grande desafio tecnológico é desenvolver fórmulas biologicamente confiáveis, à luz dos conhecidos princípios evolucionários —problema que afeta mais as vacinas transmissíveis do que as vacinas transferíveis, as quais seguem à frente, nas esteiras da adoção.

Vários estudos estão sendo planejados e conduzidos, neste momento, para tentar acertar a receita molecular das vacinas transmissíveis. Como sempre é o caso, a verdadeira esperança está na chamada pesquisa básica —aquela que é pinchada por não ter aplicação prática imediata.

Uma das abordagens mais promissoras envolve novas estratégias em engenharia genética, que devem facilitar a inserção de instruções capazes de tornar as vacinas eficazes fortemente transmissíveis, ao mesmo tempo em que reduzem a viabilidade das variantes surgidas em função de processos evolucionários.

Eu estou otimista. Acredito que as vacinas transmissíveis vão ajudar a reduzir o risco de novas epidemias, enquanto insistimos no erro que é seguir em guerra contra a natureza, mesmo com a certeza de que, de uma forma ou de outra, estamos fadados a perder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL