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Akin Abaz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Games, curso online? Realidade impede negros de ter tempo para distrair

Agência Nappy
Imagem: Agência Nappy
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Akin Abaz

Akin Bakari D'Angelo dos Santos é fundador da InfoPreta e homem trans. Um curioso nato e um amante do desconhecido, sempre se interessou por montar, desmontar e entender o funcionamento dos eletrônicos. Fez cursos técnicos na adolescência e, aos 15 anos, já atuava na área da indústria com manutenção eletrônica de maquinário pesado. Em 2011, começou a consertar computadores em seu quarto e dois anos depois fundou a InfoPreta, empresa de serviços de manutenção que tem por objetivo inserir pessoas negras, LGBTQI+ e mulheres no mercado tech, aliando lucros a projetos sociais de grande impacto.

Colunista do UOL*

05/12/2021 04h00

Ter um hobby para aliviar os estresses do dia a dia é fundamental não só para nossa saúde mental, mas também para a saúde física, como já foi comprovado em pesquisas científicas. Entretanto, na prática, o direito ao lazer, que é algo básico garantido pela Constituição, nem sempre se estende a pessoas pretas.

Sendo negro, nascido e criado em periferia, na zona leste de São Paulo, sei bem como é difícil ter tempo e cabeça para aceitar que preciso e mereço ter momentos de descanso e desfrutar de lazeres como viajar, ir ao cinema/teatro, frequentar restaurantes e museus ou fazer cursos só porque gosto daquilo sem a necessidade de ter que monetizar esse aprendizado.

Quando se vive em uma realidade em que a maior parte da população preta está inserida —que é de não ter um lugar digno para morar, estar em situação de desemprego, vivenciando algum grau de insegurança alimentar ou até a fome—, não há espaços nem cabeça para pensar em se distrair ou descobrir novos gostos e aptidões por prazer.

E mesmo para aqueles que são negros e não passam por esses tipos de necessidades e que podem pensar para além da sobrevivência e de fato viver, o racismo gritante em nosso país não permite que estejamos em todos os locais sem sofrer algum tipo de preconceito ou de simplesmente aproveitar sem se questionar quantos dos nossos não estão vivenciando o mesmo.

Por mais que eu já tenha viajado, conhecido outros países, aproveitado momentos de lazer sozinho ou ao lado de amigos e familiares, é impossível não pensar em quantas pessoas negras que estão ao meu redor, que são vizinhos, amigos de infância ou desconhecidos, não sabem de fato o que é poder viver sem ter o peso de lutar diariamente para conseguir ter o mínimo.

E o que mais me dói em pensar é que muitos morreram sem saber, e infelizmente outros tantos podem acabar na mesma situação por viver em um país ainda tão desigual como o Brasil.

Por isso também, a minha empresa vai além de um sonho realizado na questão profissional ou financeira, porque através dela eu consigo dar oportunidade a outros negros e negras de, assim como eu, poderem acessar uma nova realidade que um trabalho reconhecido e bem remunerado faz.

Inclusive, acho que essa frase de que dinheiro não traz felicidade foi escrita por algum branco milionário que não sabe o que é passar dificuldades na vida, que nunca pegou um ônibus lotado e passou duas, três horas em pé para chegar ao trabalho ou ter que fazer um salário mínimo para pagar aluguel, água, luz, alimentação, remédios, roupas etc. Algo que é humanamente impossível na prática para uma pessoa solteira que mora sozinha, que dirá para uma família de três pessoas ou mais.

Um outro lado da questão é o tanto de pessoas brilhantes com talentos únicos que residem nas periferias de todo o Brasil e não têm oportunidade de sonhar em construir carreiras tradicionais ou terem uma vida plena e feliz através de seus dons.

Ainda hoje a periferia não é vista por muitos como um centro de cultura quando se fala de investimentos. Não à toa que muitas pessoas fazem cursos que são focados em trabalhos manuais, operacionais e pouco artísticos.

Não que estes não sejam importantes e necessários para a sociedade, mas é importante que o olhar para a favela seja cada vez mais de procura e valorização dos talentos e de toda arte que existe ali e não de servidão.

* Colaborou Gabriela Bispo, jornalista, planner e redatora da InfoPreta

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL