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Akin Abaz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como aprendi na prática a importância da inclusão digital para deficientes

Tima Miroshnichenko/ Pexels
Imagem: Tima Miroshnichenko/ Pexels
Akin Abaz

Akin Bakari D'Angelo dos Santos é fundador da InfoPreta e homem trans. Um curioso nato e um amante do desconhecido, sempre se interessou por montar, desmontar e entender o funcionamento dos eletrônicos. Fez cursos técnicos na adolescência e, aos 15 anos, já atuava na área da indústria com manutenção eletrônica de maquinário pesado. Em 2011, começou a consertar computadores em seu quarto e dois anos depois fundou a InfoPreta, empresa de serviços de manutenção que tem por objetivo inserir pessoas negras, LGBTQI+ e mulheres no mercado tech, aliando lucros a projetos sociais de grande impacto.

Colunista do UOL*

18/02/2021 04h00

Nas últimas semanas, a internet foi palco de discussões sobre acessibilidade digital. O debate explodiu com o surgimento de uma rede social baseada em grupos de conferências através de áudios. Muitos internautas apontaram a falta de transcrição automática das falas, além da impossibilidade de trocar textos e imagens, o que exclui pessoas surdas.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 6% da população brasileira possui algum tipo de deficiência. Investir em tecnologias acessíveis significa possibilitar mais autonomia e qualidade de vida para esses indivíduos.

Algumas dessas inovações (que às vezes nem são tão novas assim) também são muito comuns entre pessoas sem deficiência, o que convenhamos, ajuda no seu investimento e desenvolvimento.

Essas discussões me lembraram muito da minha avó cega, que junto com minha tia-avó, cuidava de mim quando eu era criança. Minha avó, apesar de viver em uma época com tecnologias diferentes das que se tem hoje, seguia a vida. Ela sabia ler em braille e contava com a ajuda de outras pessoas que descreviam detalhadamente o que ela não podia enxergar.

Ela me ensinou a ler em braille, me mostrou como a vida, apesar de ser escura para ela, tinha inúmeras cores. Ela costumava colocar uma venda nos meus olhos para que eu pudesse acompanhá-la na sua imaginação.

A inclusão, naquela época, era feita também instintivamente e por cuidado ao outro. No tempo em que muita coisa não era acessível para minha avó, e para outras pessoas com deficiência, era a rede de apoio que tinha o papel de incluir.

Acessibilidade digital: direito e dever

A inclusão digital pode acontecer através de diversos dispositivos, técnicas ou serviços. Um deles é o audiobook, também conhecido como "livro em áudio", que é a gravação de um livro lido em voz alta.

A alternativa funciona para quem não pode parar para ler, e por isso pode aproveitar o tempo gasto em outras atividades para escutar, e também para quem tem alguma dificuldade na leitura, ou ainda pessoas com perda parcial ou total de visão.

Outra ferramenta de inclusão digital é o menu de acessibilidade em Libras, a Língua Brasileira de Sinais. Presente em muitos sites, o serviço facilita a navegação de pessoas surdas, permitindo que compreendam o conteúdo com mais facilidade.

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, sancionada em 2015, torna obrigatória a acessibilidade em sites brasileiros, mas não é isso que acontece.

O Movimento Web Para Todos é um grupo que reúne organizações, desenvolvedores e pessoas com deficiência que buscam mobilizar a sociedade para a causa da acessibilidade digital. Em 2019, o MWPT desenvolveu um estudo, em parceria com a BigData Corp, que aponta que menos de 1% dos sites analisados passaram em todos os testes de acessibilidade.

Algumas empresas têm tentado mudar esse cenário.

Em janeiro deste ano, o Spotify disponibilizou gratuitamente nove audiobooks que foram gravados exclusivamente para a plataforma. Os livros estão em inglês, mas a empresa já afirmou que deseja expandir a operação.

A rede social Twitter também se mostrou preocupada em se tornar mais acessível ao lançar a função Audio Spaces que permite bate-papo entre os usuários, oferecendo a transcrição dos áudios. O Twitter também possui outras funções inclusivas, como permitir que seus usuários descrevam as imagens publicadas na rede.

A inclusão digital pode (e deve) ser construída por desenvolvedores, programadores e usuários também. Redes sociais como o já citado Twitter e o Instagram permitem que seus usuários descrevam as imagens publicadas na rede, fazendo com que o conteúdo seja "visto" de outra forma.

É importante e necessário que pessoas sem deficiência se questionem sobre seus privilégios, assumindo práticas que diminuam a exclusão.

* Colaborou Rhayssa Souza, jornalista e redatora de conteúdo da Infopreta

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL