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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não é só para o celular: empresas também devem encontrar soluções com o 5G

Gerd Altmann/ Pixabay
Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay

Carlos Roseiro*

Especial para Tilt

24/10/2021 04h00

Estamos no final de 2021 e o leilão das frequências de espectro para uso da quinta geração de telefonia móvel (5G) está na iminência de acontecer. O 5G é frequentemente apontado como uma tecnologia que vai mudar a forma como a sociedade opera. "Se o 4G mudou os hábitos das pessoas, o 5G transformará a sociedade", já é uma frase conhecida. Mas, será que existe uma falsa expectativa entre a "promessa tecnológica" e a realidade possível?

Diria que não. A curto prazo, ou seja, em um período de dois anos, após o lançamento da tecnologia, já será possível ter acesso a algumas soluções baseadas no 5G.

Podemos dizer que a tecnologia segue um ciclo de vida no qual, primeiro, é adotada pelos consumidores mais entusiastas e, depois, começa a atingir o mercado de massas, com novas aplicações, até atingir uma maturidade de mercado.

Muitos dos aplicativos que hoje já são usados pelos consumidores em seus smartphones, como plataformas de streaming de vídeos e redes sociais serão aqueles que se beneficiarão primeiro do 5G, pois eles passarão a ter uma experiência muito melhor.

As páginas web serão carregadas em milesegundos e arquivos subirão para nuvem em questão de segundos.

No fundo, não é de se esperar que no início do 5G surjam "killer applications", ou seja, aplicativos disruptivos que só poderão ser usados na rede 5G. Mas podemos esperar sim que tenhamos uma "killer experience" (uma "experiencia matadora") onde exista a cobertura 5G.

Vários países da Europa, América, Oriente Médio e Ásia já possuem uma rede 5G. Neles, podemos constatar que o uso do 5G se difundiu rapidamente à medida que as coberturas de rede iam se alargando.

Porém, para que se comece a perceber de forma mais significativa o impacto do 5G na sociedade, é preciso mais do que apenas aparelhos celulares e cobertura 5G. Será necessário que o 5G B2B (Business to Business) se desenvolva.

E isso implica o desenvolvimento de ecossistemas verticais entre indústrias, nos quais empresas das mais variadas vertentes tecnológicas, como cloud (computação na nuvem), inteligência artificial, computação de borda, IoT (internet das coisas) e integradores, trabalhem para no desenvolvimento de soluções que só a conectividade 5G poderia viabilizar.

O desenvolvimento do 5G B2B irá trazer aplicações com potencial para transformar a sociedade como a conhecemos.

É, claramente, uma tarefa que vai muito além das operadoras, dos fornecedores de redes e dos fabricantes de smartphones. Ela depende de todo o tecido econômico do país, que inclui indústrias e pessoas com domínio tecnológico e capacidade de encontrar formas de se beneficiar das redes de alta velocidade, para gerar mais produtividade, eficiência e gerar mais riqueza.

Certamente, muitas ideias estão já emergindo em outros países, tirando partido da experiência de poder usar uma rede 5G.

Alguns cases de referência podem ser usados como inspiração para o Brasil. Na China, por exemplo, o 5G também foi lançado pelas operadoras para o B2C (Business to Consumer) e B2H (Business to Humans), primeiro. Porém, desde o início, o 5G B2B foi colocado como pilar central das estratégias das operadoras, seguindo uma política industrial nacional.

Assim, de 2019 até 2021, as operadoras seguiram a lógica de "0 a 1", o que quer dizer que eles fizeram mais de 5 mil projetos, em 20 indústrias diferentes com mais de 100 casos de uso. A partir de 2021, elas estão entrando na fase "1 a N", ou seja, estão começando a replicar os casos de uso que deram mais certo.

No setor portuário chinês, o 5G permitiu o desenvolvimento de uma tecnologia que funciona como "um controle remoto de guindastes", idealizado pela empresa de equipamentos portuários ZPMC em conjunto com a China Mobile e Huawei.

Antes, cada guindaste usado para içar os contêineres dos navios necessitava de três a quatro funcionários, em turnos diferentes, a cada 24 h, trabalhando em altitudes e em um ambiente que não poderemos chamar de confortável.

No local, foi instalada uma rede de cobertura 5G AS de alta velocidade e um pequeno data center. Assim, foi possível colocar um único funcionário operando até seis guindaste no seu turno, em um confortável ambiente de escritório com ar condicionado.

Os demais foram realocados para outras funções, até mesmo na operação de outros controles com a expansão do porto. Portanto, a produtividade aumentou seis vezes, e os riscos trabalhistas foram significativamente reduzidos.

Na Alemanha, surgiu um case muito interessante relacionado ao setor de distribuição de combustíveis.

A Total aliou-se à Vodafone Alemanha para adotar cerca de 1.200 estações de serviço de conectividade 5G por meio de uma solução de rede privada.

Todos os serviços das estações da Total passaram a estar conectados com conexões seguras, com um serviço dez vezes mais rápido do que as conexões anteriormente existentes e, dessa forma, poderem usar com mais rapidez e confiabilidade os sistemas de registros e pagamentos em cloud.

Além disso, os painéis de apresentação de preços ficaram online com informações em tempo real, e ainda usaram a conexão 5G para disponibilizar um serviço de wi-fi gratuito para clientes e funcionários.

Estes dois casos têm níveis de complexidade distintos. Mas ambos têm em comum a necessidade de se ter a conectividade disponível para experimentar, e a cooperação entre indústrias, operadores e desenvolvedores para buscar soluções que revolucionem diversos setores.

Por isso, acredito que a partir do final deste ano, após o leilão do 5G, uma nova dinâmica concorrencial será trazida para o mercado B2C e B2H pelas operadoras.

Além disso, certamente muitos ecossistemas verticais começarão a se mobilizar para tirar partido da experimentação prática da combinação de alta velocidade com baixa latência de rede, para com isso, injetar uma nova dinâmica de crescimento de emprego e produtividade na economia brasileira.

* Carlos Roseiro é diretor de Soluções Integradas da Huawei no Brasil

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL