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As promessas que Cyberpunk 2077 fez e não cumpriu

Nem Keanu Reeves salvou Cyberpunk 2077 das mentiras - Divulgação/CD Projekt Red
Nem Keanu Reeves salvou Cyberpunk 2077 das mentiras Imagem: Divulgação/CD Projekt Red

João Varella

Colaboração para o START

22/12/2020 04h00

Cyberpunk 2077 convenceu 8 milhões de pessoas a comprar o jogo antes mesmo de seu lançamento. Pudera, com a presença de Keanu Reeves, vídeos espetaculares e declarações dos desenvolvedores não deixavam dúvidas: os videogames estavam a ponto de atingir um novo patamar.

Na noite de 9 de dezembro, lançamento do game, o discurso da desenvolvedora CD Projekt Red ruiu: ao invés de uma experiência cyberpunk imersiva, o jogo chegou inacabado, cheio de defeitos e sem polimento. Veja aqui o que Cyberpunk 2077 prometeu, mas não cumpriu.

Rodar bem no PS4 e Xbox One base

A mais gritante distorção entre expectativa e realidade foi sobre o desempenho do jogo nos consoles da última geração: PS4 e Xbox One, principalmente no primeiro modelo de ambos.

Em uma chamada com investidores, dias antes do lançamento, o presidente-executivo da CD Projekt, Adam Kicinski afirmou que Cyberpunk rodava "surpreendentemente bem" no PlayStation 4 e Xbox One. "Um pouco abaixo [do PS4 Pro e Xbox One X], mas muito bom", disse Kicinski após ser questionado por um analista de uma corretora polonesa.

Um trailer com supostas imagens do jogo em um PlayStation 4 publicado no canal oficial do dispositivo em 19 de novembro com o título "Cyberpunk 2077 - Gameplay Trailer | PS4" confirmava a declaração:

A realidade, porém, foi outra. Todas as versões apresentam defeitos, especialmente os consoles da geração passada. Vídeos com o jogo real tomaram as redes sociais momentos após a entrega.

"Nós mostramos imagens do [jogo rodando em] console, mas nunca nos consoles da geração passada", afirmou Marcin Iwinski, co-CEO e cofundador da empresa, em uma reunião emergencial com acionistas realizada depois da estreia.

A declaração assevera que o vídeo no canal oficial da PlayStation é falso.

O "patch" salvador

Cyberpunk 2077 cidade - Sammy Anderson/GameHall/Versão PC com Ray Tracing/DLSS - Sammy Anderson/GameHall/Versão PC com Ray Tracing/DLSS
Toda a situação é pra ficar bem triste mesmo
Imagem: Sammy Anderson/GameHall/Versão PC com Ray Tracing/DLSS

A CD Projekt Red embargou as primeiras resenhas de Cyberpunk 2077 até 8 de dezembro, dois dias antes do lançamento. Prática comum no jornalismo de videogames, embargo é uma exigência das publishers para que as informações de um determinado título sejam publicadas a partir de uma determinada data

Diante dos primeiros relatos de bugs, o desenvolvedor Fabian Mario Döhla postou no Twitter que o jogo seria "diferente" depois de uma correção no primeiro dia (conhecido como Day 1 Patch).

Esse Day 1 Patch fez com que muitos jogadores ignorassem os alertas de problemas. As atualizações que o jogo vem recebendo trouxeram algumas melhorias, mas ainda estão longe de consertar a lista de problemas.

"Estávamos atualizando o jogo nos consoles da geração passada até o último minuto e pensamos que faríamos isso a tempo", justificou Iwinski.

A lenda dos mil NPCs

Outra promessa não cumprida são os mais de mil NPCs com rotinas diárias, conforme foi relatado pelos programadores Miles Tost e Philipp Weber ao site GameStar.

Isso significaria que os personagens mundanos teriam uma lista de tarefas que seria seguida ao longo do tempo, sem a interferência do jogador.

Cyberpunk 2077 Preview NPC - Divulgação/CD Projekt Red  - Divulgação/CD Projekt Red
Personagens na cidade teriam vida própria no jogo, o que não acontece de verdade
Imagem: Divulgação/CD Projekt Red

O jogo não tem nada disso. A inteligência artificial dos personagens de Cyberpunk 2077 é rudimentar, sem a vivacidade que a declaração apontava.

"O comportamento da inteligência artificial e dos NPCs se enquadram na categoria geral de bugs", disse o vice-presidente da CD Projekt Michal Nowakowski na reunião emergencial.

O Caso da Polícia

Cyberpunk 2077 perseguição - Divulgação/CD Projekt Red - Divulgação/CD Projekt Red
Nas imagens de divulgação tudo parecia lindo, mas com o game em mãos...
Imagem: Divulgação/CD Projekt Red

O comportamento da polícia dentro do jogo foi outro tópico das promessas da CD Projekt Red. Em entrevista, o desenvolvedor Alvin Liu declarou que haveria um revolucionário sistema de busca, com possibilidade de propinas e corrupção. Ou seja, um incremento significativo comparado a jogos de mundo aberto como os da série Grand Theft Auto.

Tost chegou a declarar que a polícia reagiria de acordo com a periculosidade do crime. O jogador poderia até eventualmente ser considerado em estado de ciberpsicose.

O comportamento da polícia também mudaria de acordo com cada área da cidade de Night City, com mais patrulhamento nas áreas mais ricas, de acordo com o produtor Richard Borzymowski.

Nada disso está em Cyberpunk 2077.

O comportamento da polícia no jogo é rudimentar e bizarro. Ao cometer um crime — como atirar em um civil —, policiais aparecem do nada atrás do jogador e permanecem surgindo até que o jogador fuja. Solução distante do que foi divulgado.

Dia e Noite

Outra promessa era que os ciclos dia e noite teriam impactos significativos no jogo. Liu afirmou em entrevista ao canal Última Ficha que seria possível ver, durante o dia, ricões circulando com limusines que parecem tanques de guerra.

Imagem do game 'Cyberpunk 2077' - Reprodução - Reprodução
Ciclo de dia e noite que impactam a experiência de jogo foi mais uma promessa não cumprida
Imagem: Reprodução

Atualmente, exceto por alguns prédios que abrem em um período determinado, a mudança é apenas cosmética. É possível fazer o tempo da narrativa avançar com um comando, mas o mundo permanece o mesmo. NPCs conservam a mesma posição, a rádio continua tocando a mesma canção etc.

Manipulação de resenhas

'Cyberpunk 2077' chega em 2020 para os principais consoles - Reprodução - Reprodução
Análises só da versão de PC já indicava que havia algo de errado no game
Imagem: Reprodução

Antes do lançamento, a CD Projekt Red cedeu apenas chaves para a versão de computador para a imprensa avaliar o jogo — ao START inclusive.

Muitos veem nisso uma manobra para omitir o real estado do software nos consoles, responsáveis por 41% das encomendas de pré-venda (cerca de 3,3 milhões).

O agregador de resenhas OpenCritic (similar ao mais famoso Metacritic) colocou um inédito alerta para a nota do jogo:

"A equipe da OpenCritic e vários críticos suspeitam que o desenvolvedor, CD Projekt Red, intencionalmente procurou ocultar o verdadeiro estado do jogo no Xbox One e PS4, permitindo apenas filmagens pré-renderizadas do jogo nas análises e não emitindo cópias de análise para as versões de PS4 e Xbox One", diz o texto.

Diante das primeiras resenhas, o agregador apontava nota 91. Nesta quinta-feira (17) estava em 82.

Jogo polido

A distorção que resume todas é a promessa da entrega de um jogo completo e polido. "Sem dúvida, a qualidade é de suma importância", disse Kicinski a investidores.

Quando Cyberpunk 2077 teve seu lançamento postergado pela segunda vez, a CD Projekt soltou uma carta explicativa aos fãs:

"'Pronto quando estiver preparado' não é apenas uma frase que dizemos porque soa correta, é algo pelo qual vivemos, mesmo quando sabemos que seremos pressionados por isso."

É uma mensagem que contradiz o que foi dito na conferência emergencial. "Após três atrasos, nós, como Conselho de Administração, estávamos muito focados em lançar o jogo. Subestimamos a escala e a complexidade dos problemas, ignoramos os sinais de necessidade de mais tempo para refinar o jogo nos consoles da geração passada. Foi uma abordagem errada e contra a nossa filosofia de negócios", disse Kicinski.

Cyberpunk 2077 - Reprodução - Reprodução
Todas as imagens e vídeos de Cyberpunk 2077 impressionavam antes do lançamento
Imagem: Reprodução

Os bugs de Cyberpunk 2077 chegaram ao ponto de gerar problemas de saúde. Efeitos visuais dispararam convulsões em uma jogadora com epilepsia. Um alerta foi colocado depois disso.

Ainda que o jogo esteja na versão mais recente rodando em consoles de nova geração, há diversos problemas de física, textos incompletos, taxa de frames instável, texturas demorando para carregar, um carro invisível no prólogo, entre outros.

Além disso, há elementos como a falta de uma inteligência artificial para os automóveis. O trânsito de Cyberpunk 2077 mostra os veículos se locomovendo em apenas uma direção. Não fica claro se é algo a ser consertado ou se é para ser assim mesmo.

São conturbações que colocam em dúvida a reputação da CD Projekt, algo que dificilmente será recuperado com um patch.

CD Projekt pede desculpas

A CD Projekt pediu perdão pelos problemas em um comunicado na segunda-feira (14). "Em primeiro lugar, gostaríamos de pedir desculpas a você por não ter mostrado o jogo em consoles base de última geração antes de sua estreia", afirmou a empresa. É mais uma confirmação de que o vídeo publicado no canal PlayStation é falso.

"Em segundo lugar, vamos consertar bugs e travamentos, e melhorar a experiência geral", segue o texto, que ainda promete correções substanciais em janeiro e fevereiro de 2021.

A empresa se comprometeu a apoiar o reembolso de jogadores insatisfeitos até o dia 21 de dezembro. Porém, isso deu lugar a uma nova onda de reclamações, e resultou na versão digital de Cyberpunk 2077 ser retirado da PlayStation Store por tempo indeterminado.

O START enviou à CD Projekt na segunda-feira (14) os pontos abordados nesta matéria, mas não obteve retorno. Para a apuração, a reportagem pediu uma cópia do jogo para console. A assessoria de imprensa atendeu a solicitação.

Todas as polêmicas em torno de Cyberpunk 2077 parecem estar longe de acabar.

Quer comprar o game? Você pode encontrá-lo aqui.

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