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"Não podemos ter sempre as mesmas pessoas fazendo jogos", diz Keisha Howard

A norte-americana Keisha Howard, fundadora da Sugar Gamers, vem ao Brasil participar da Feira Preta - Philip P. Thomas/Divulgação
A norte-americana Keisha Howard, fundadora da Sugar Gamers, vem ao Brasil participar da Feira Preta Imagem: Philip P. Thomas/Divulgação

Thaime Lopes

Colaboração para o START

20/11/2020 12h20

Resumo da notícia

  • Howard é fundadora da Sugar Gamers, comunidade que luta por inclusão e representatividade nos games e cultura pop
  • Em entrevista ao START, ela fala sobre a importância dos jogos mobile e da união dos jogadores
  • Painel "Pretos no universo dos games", na Feira Preta, acontece nesta sexta (20) às 18h

Keisha Howard, fundadora da companhia Sugar Gamers, que serve como plataforma de conteúdo de games para as minorias, vê o universo dos games como algo muito maior que um simples hobby.

Por meio de sua própria experiência como mulher preta, que não se vê representada na indústria dos jogos, Keisha partiu em 2009 na busca de outras mulheres com os mesmos interesses. O objetivo era criar uma comunidade gamer que pensasse em criar conteúdo para quem nunca achou que conseguiria trabalhar na área.

Hoje, 11 anos depois da criação da Sugar Gamers, Keisha se tornou uma referência entre os gamers por sua visão ampla e incisiva sobre inclusão na indústria. Convidada da Feira Preta, ela falará no painel "Pretos no Universo dos Games", nesta sexta (20) às 18h, ao lado de brasileiras como Raquel Motta, colunista do START —as inscrições são gratuitas.

O impulso dos anos 90

Quando perguntamos para Keisha o que fez com que ela se apaixonasse por jogos, ela conta como nos anos 90 existia aquela coisa de "brinquedos para meninos" e "brinquedos para meninas".

Por conta dessa discriminação de gênero, só seus irmãos ganhavam videogames, enquanto ela recebia presentes considerados "de meninas". Apesar disso, seu irmão mais velho via o interesse de Keisha nos jogos e a convidava para usar seus consoles.

Dessa forma, ela credita jogos de RPG e luta como fundamentais para sua educação. "Era uma experiência enriquecedora, porque por meio dos jogos que eu compartilhava com meu irmão, eu melhorava minha leitura, aprendia como competir e praticar", começa.

"Na época eu não percebia, mas isso foi essencial para que eu desenvolvesse pensamento crítico e camaradagem, querendo sempre incluir outras pessoas na mesma experiência que eu", explica Keisha, que iniciou a Sugar Gamers justamente com esse propósito.

Jogos como educação

Keisha Howards Sugar Gamers - Divulgação - Divulgação
Keisha Howards vê o valor de games de luta e RPG na sua formação quando criança
Imagem: Divulgação

Ao ver os jogos como algo muito além de entretenimento, ela acredita que eles também podem ser responsáveis por ensinar os adultos que não somos e nem devemos ser perfeitos o tempo todo.

"Quando crescemos, não nos permitimos mais errar e, quando erramos, sentimos muita vergonha. Mas nos jogos ninguém é automaticamente bom. Você se permite aprender, errar, melhorar, praticar. E eu aprendi tudo isso ainda criança e trouxe para a vida adulta."

Mas os jogos não ajudam as diferentes gerações apenas com habilidades sociais e de trabalho. Eles servem também, muitas vezes, como plataforma política. Seja com protagonistas mulheres ganhando cada vez mais espaço sem ser de uma forma sexualizada, ou então LGBTs retratados com mais naturalidade, os games são um reflexo dos tempos atuais.

Nos jogos ninguém é automaticamente bom. Você se permite aprender, errar, melhorar, praticar. E eu aprendi tudo isso ainda criança e trouxe para a vida adulta
Keisha Howard, sobre aprendizados com os games

Participantes da Marcha das Mulheres em Washington DC - Bill Tompkins/Getty Images - Bill Tompkins/Getty Images
Participantes da Marcha das Mulheres em Washington DC
Imagem: Bill Tompkins/Getty Images

"Movimentos como 'Black Lives Matter', 'Time's Up' e 'Me Too' fizeram com que a sociedade abrisse ainda mais os olhos para problemas de racismo, sexismo, entre outros. E isso está sendo transmitido dentro da comunidade gamer também", explica Keisha.

De acordo com ela, tem sido um processo lento, mas revolucionário. "10 anos atrás você mal via mulheres trabalhando na indústria, enquanto hoje ocupamos um espaço enorme. Isso é um reflexo da educação que nós, como sociedade, tivemos por meio desses movimentos."

A fundadora ainda compara a indústria dos games à Hollywood: duas comunidades em que é difícil entrar, destacar-se e obter sucesso. Por conta dessas dificuldades, executivos de alto escalões muitas vezes usam e abusam de seu poder para intimidar as minorias —mas isso não significa que essas atitudes passarão em branco.

Racismo, machismo, homofobia e qualquer tipo de preconceito não possuem mais espaço justamente porque o público se educou e passou a cobrar um posicionamento decente das empresas
Keisha Howard, sobre casos de assédio na indústria

Yves Guillemot - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Yves Guillemot é CEO da Ubisoft, empresa francesa envolvida em casos de assédio
Imagem: Reprodução/Twitter

Comentando os casos recentes de assédio da Ubisoft, que tem aparecido a cada alguns meses durante todo 2020, Keisha fala que a repercussão só é possível porque os próprios consumidores prestam muito mais atenção nisso hoje do que décadas atrás.

"Os jogadores não se contentam mais em simplesmente jogar. Eles querem saber quem é a companhia por trás daquilo que eles consomem. Isso significa que mulheres, por exemplo, não vão escolher jogos misóginos", começa a explicar.

"Racismo, machismo, homofobia e qualquer tipo de preconceito não possuem mais espaço justamente porque o público se educou e passou a cobrar um posicionamento decente das empresas da indústria."

"Por isso", Keisha continua, "não podemos ter sempre as mesmas pessoas com o mesmo histórico fazendo jogos. Precisamos de diversidade de gênero, sexualidade, religião. E as empresas estão entendendo que, sem isso, elas vão perder dinheiro - é um mundo capitalista, afinal de contas", brinca.

Não podemos ter sempre as mesmas pessoas com o mesmo histórico fazendo jogos. Precisamos de diversidade de gênero, sexualidade, religião. E as empresas estão entendendo que, sem isso, elas vão perder dinheiro
Keisha Howard, sobre o valor da diversidade

Equipe Sugar Gamers - Mo_Parker/Divulgação - Mo_Parker/Divulgação
Equipe da Sugar Gamers tem desde atores até especialistas em efeitos especiais e gerentes de comunidade
Imagem: Mo_Parker/Divulgação

Mobile versus PC e consoles

Apesar de ser consumidora de muitos jogos de PC e console, como Hollow Knight, Hitman, Rocket League e SUPERHOT, Keisha destaca a importância dos games mobile.

"Há um preconceito com esses jogos, como se eles fossem menos importantes, sendo que eles são tão robustos quanto qualquer outra plataforma", ela responde quando perguntada sobre quem não vê os jogos mobile como bons.

Continuando a resposta, Keisha explica: "uma parte enorme do lucro da indústria dos games está vindo justamente dos jogadores que usam seus celulares. Além disso, muitas vezes o mobile é a porta de entrada de alguém nesse universo. E isso é importante, porque nem todo mundo possui condições financeiras de ter o console de última geração", afirma.

Mesmo para quem não consegue comprar os novos Xbox Series X|S ou PlayStation 5, Keisha diz que o segredo dos games não é sempre estar a par das últimas tecnologias, mas sim investir em jogos que possuem boas narrativas e façam o jogador se sentir imerso naquele universo.

Muitas vezes o mobile é a porta de entrada de alguém nesse universo. E isso é importante, porque nem todo mundo possui condições financeiras de ter o console de última geração
Keisha Howard, sobre games mobile

Hollow Knight - Divulgação/Team Cherry - Divulgação/Team Cherry
Hollow Knight
Imagem: Divulgação/Team Cherry

"Em Hollow Knight, por exemplo, você é um inseto. E não importa se você é homem, mulher, hetero, gay, branco ou preto. Aquele personagem é o mesmo para todo mundo", exemplifica.

Outras recomendações incluem Darkest Dungeon (2016) e Dishonored (2012) que incentivam os jogadores a pensarem em diferentes soluções para um mesmo problema. "Gosto de games assim porque ninguém pensa igual, e eles apresentam problemas que podem ser resolvidos das mais diversas formas."

A expectativa com o Brasil

Keisha ficou animada quando falamos de sua experiência interagindo com brasileiros. Ela nos contou que, nos últimos tempos, tem se esforçado para conhecer pessoas de diferentes culturas para entender como isso impacta a experiência de jogo nos diferentes países.

"O Brasil possui uma história tão rica, e isso me faz ter curiosidade em saber como sua cultura, economia e política influenciam a forma como os jogos são consumidos. Estou muito animada para conversar com jogadores brasileiros", diz.

Para mais informações sobre como assistir o painel de Keisha na Feira Preta, acesse o site oficial do festival e confira a programação completa.

O Brasil possui uma história tão rica, e isso me faz ter curiosidade em saber como sua cultura, economia e política influenciam a forma como os jogos são consumidos
Keisha Howard

Pretos no universo dos games - Feira Preta

Quando: 20/11, às 18h, ao vivo via ZOOM
Inscrições: site da Feira Preta

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