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CS:GO: dead, da MiBR, é suspenso por trapaça; entenda e veja repercussão

Entenda as suspensões de técnicos por trapaça no Counter-Strike:Global Offensive, onde a MiBR é envolvida - Divulgação/MiBR
Entenda as suspensões de técnicos por trapaça no Counter-Strike:Global Offensive, onde a MiBR é envolvida Imagem: Divulgação/MiBR

Gabriel Oliveira

Colaboração para o START

04/09/2020 04h00

A revelação de uma trapaça no Counter-Strike: Global Offensive (CS:GO), o First-Person Shooter (FPS) mais popular do mundo, caiu como uma bomba no cenário competitivo.

Treinadores foram banidos temporariamente de competições internacionais por terem se aproveitado de um bug no jogo durante partidas online. Entre os punidos está Ricardo "dead" Sinigaglia, técnico da Made in Brazil (MiBR), a principal equipe brasileira na modalidade.

O terremoto nos eSports começou na segunda-feira (31) e, de lá pra cá, uma série de acontecimentos se sucederam, com acusações, suspensões, posts nas redes sociais e enorme repercussão na comunidade. O START compilou tudo nesta reportagem.

Falha no modo espectador

dead MiBR Encontro das Lendas 2019 - Felipe Guerra/MiBR - Felipe Guerra/MiBR
Imagem: Felipe Guerra/MiBR

A ESL, uma maiores empresas organizadoras de campeonatos do mundo, anunciou na segunda-feira ter descoberto que treinadores aproveitaram uma falha no modo espectador do CS:GO para trapacear.

Abusando desse bug, os técnicos acessavam visões do mapa que não poderiam ter e, com isso, conseguiam saber posicionamentos dos adversários. Assim, tinham a chance de auxiliar os jogadores, com quem se comunicam durante os jogos.

De acordo com a organizadora, três treinadores, entre eles o brasileiro dead, intencionalmente usaram o bug para obter uma vantagem competitiva em campeonatos online da ESL e da DreamHack nos últimos meses.

Os punidos e as respectivas sanções foram:

  • Brasileiro Ricardo "dead" Sinigaglia (MiBR):
    6 meses de suspensão
    Irregularidade em 1 round de 1 partida da ESL One: Road to Rio
  • Dinamarquês Nicolai "HUNDEN" Petersen (Heroic)
    12 meses de suspensão
    Irregularidades em 10 rounds de 1 partida DreamHack Masters Spring

  • Russo Aleksandr "MechanoGun" Bogatiryev (Hard Legion)
    24 meses de suspensão
    Irregularidades em 6 mapas de 3 partidas da ESL One: Road to Rio

Além das suspensões dos técnicos, as equipes deles foram desclassificadas dos torneios em questão e perderam as premiações.

O árbitro de CS:GO Michal Slowinski, que liderou a investigação, disse que foram assistidas 1,5 mil gravações de partidas dos principais eventos internacionais. Ele e Steve Dudenhoeffer se revezaram em turnos de 12 horas cada durante três semanas de trabalho.

Os torneios de CS:GO estão sendo disputados pela internet em razão da pandemia de covid-19.

Reações das equipes

dead MiBR - Divulgação/MiBR - Divulgação/MiBR
Imagem: Divulgação/MiBR

Após rápidas investigações internas, a Hard Legion demitiu MechanoGun e a Heroic suspendeu HUNDEN. Ambas as equipes admitiram a culpa dos técnicos e isentaram os jogadores.

Já a brasileira MiBR, em comunicado publicado 27 minutos depois do anúncio da ESL, anunciou a suspensão de dead enquanto realiza a investigação sobre o caso.

Dead é o gerente da equipe e acompanha os cyber-atletas brasileiros em diferentes clubes desde que eles se mudaram para os Estados Unidos, em 2015. Ele está atuando também como técnico desde março, quando Wilton "zews" Prado deixou o posto, citando "problemas enraizados" na MiBR.

Contestação

dead MiBR Intel Extreme Masters Chicago - Divulgação/MIBR - Divulgação/MIBR
Imagem: Divulgação/MIBR

Os anúncios caíram como uma bomba nas comunidades brasileira e internacional.

Muitos torcedores lembraram as acusações de cheat que pro-players da MiBR fizeram contra a norte-americana Chaos, após uma derrota em junho, e destacaram que, ironicamente, era a equipe do Brasil que teria trapaceado. Outras pessoas pediram maiores esclarecimentos e provas da irregularidade.

O próprio dead divulgou, no Twitter, o vídeo de uma partida da cs_summit 6 da América do Norte para negar que abusou do bug. Ele classificou a acusação como injusta. Porém, a punição aplicada pela ESL se referia a um confronto na ESL One: Road to Rio - América do Norte.

Contestado sobre a diferença, o treinador brasileiro se defendeu dizendo que a ESL tinha enviado à MiBR aquele vídeo como evidência da irregularidade, o que os representantes da organizadora negaram no Twitter. Eles reforçaram que a sanção era motivada por um abuso na competição da ESL, até porque não teriam jurisdição para punir o técnico pela cs_summit 6, que é organizada por outra empresa, a Beyond the Summit.

Dead continuou sustentando que o vídeo publicado no Twitter havia sido enviado pela ESL, aumentando ainda mais a polêmica. A empresa informou que mandou os clipes das irregularidades às equipes e não considerava torná-los públicos.

Mais uma bomba

MiBR palco Encontro das Lendas - Felipe Guerra - Felipe Guerra
Imagem: Felipe Guerra

Só que, na terça-feira (1º), o site Rush B Media publicou vídeos que mostram dead abusando do bug em jogos da ESL One: Road to Rio (contra a brasileira YeaH Gaming, da qual o técnico é sócio) e da cs_summit 6 (diante da norte-americana Triumph) - ambos realizados em 2020.

Se antes parte da comunidade desconfiava das irregularidades, a revelação deixou a situação do brasileiro mais complicada. A ESL confirmou a autenticidade dos clipes.

Um terceiro vídeo mostra os jogadores da MiBR pedindo uma pausa em outra partida porque dead estava tendo visão dos adversários. O cyber-atleta Epitácio "TACO" Pessoa escreveu no chat: "coach bug". Isso indicaria que o treinador sabia da falha e que, para evitá-la, precisava reconectar ao servidor da partida.

Desde a publicação da reportagem do Rush B Media, dead e MiBR não se pronunciaram novamente sobre o assunto.

Mais suspensões

MechanoGun - Divulgação/StarLadder - Divulgação/StarLadder
Imagem: Divulgação/StarLadder

Como consequência da investigação da ESL, mais empresas organizadoras de campeonatos puniram dead e os outros dois treinadores.

Eles foram suspensos também das competições que compõem a Esports Integrity Commision (ESIC) - comissão criada em 2016 para fiscalizar trapaças em torneios.

Conforme a ESIC, dead, Hunden e MechanoGun violaram o código de conduta da comissão nos artigos que tratam de "trapacear ou tentar trapacear para vencer uma partida".

A ESIC informou que a investigação continuaria por mais dois meses e que, por enquanto, não havia provas de que os pro-players tinham ciência dos abusos cometidos por seus treinadores.

A Beyond the Summit também suspendeu dead, em razão da irregularidade na partida contra a Triumph na cs_summit 6. Ele não poderá participar dos dois próximos eventos organizados pela empresa. Já a MiBR acabou desclassificada da competição e perdeu o dinheiro da premiação.

Caminho para o major

dead e FalleN MiBR ESL One Cologne 2018 - Divulgação/MiBR - Divulgação/MiBR
Imagem: Divulgação/MiBR

A ESL One: Road to Rio e a cs_summit 6 fazem parte do circuito de torneios norte-americanos que contam pontos para o acesso ao campeonato mundial de CS:GO de 2020, marcado para novembro, no Rio de Janeiro.

A Valve, desenvolvedora do CS:GO e apoiadora dos majors, como são chamados os mundiais da modalidade, ainda não se manifestou se, por conta das punições aos treinadores, as equipes perderão os pontos que conquistaram nas competições em questão.

Repercussão

zews MiBR - Divulgação/MiBR - Divulgação/MiBR
Imagem: Divulgação/MiBR

É claro que o caso tem provocado polêmica na comunidade. São várias as manifestações de personalidades dos eSports nas redes sociais.

A mais eloquente delas veio do streamer Alexandre "Gaules" Borba. O ex-jogador profissional e treinador, inclusive com passagem pela MiBR na época do CS 1.6, pediu que a equipe seja profissionalizada.

Vitoriosa no passado, a MiBR voltou em junho de 2018 sob a administração da Immortals Gaming Club (IGC), dos Estados Unidos. O time enfrenta uma seca de dois anos sem títulos, acumula eliminações precoces e derrotas para equipes inexpressivas e, entre altos e baixos, se envolveu em diversas polêmicas fora do CS:GO.

"O retorno do MiBR, hoje falando, até o momento, é o pior case que já existiu dentro do Counter-Strike nacional", disparou Gaules, em uma transmissão online, na quarta-feira (2). "A história recente do MiBR é muito fracassada, em que nada ou quase nada deu certo".

Gaules, que tem muita influência na comunidade de CS:GO, criticou duramente a administração do clube e defendeu mudanças.

"Na MiBR antiga tinha quem cobrar. Hoje não tem, e as pessoas já se mostraram extremamente fracas nesta gestão internacional", disse o streamer, sugerindo a contratação de um diretor brasileiro e a montagem de uma comissão técnica.

"Você precisa ter um excelente treinador, um bom manager, um bom analista, um cara de rede sociais e criação de conteúdo bom. Traga uma comissão técnica para que, a partir de um momento, o time tenha um comando", explicou Gaules.

Ele também apontou que, hoje, os jogadores da MiBR se veem como donos do time, sendo que o certo é que a organização esteja acima dos pro-players que a representam.

"Nenhum jogador pode ser maior do que um clube", falou Gaules. "Se alguns jogadores sequestraram a instituição, nós temos de pegar de volta, porque o comando tem que ser da instituição. Vai doer? Vai doer! Mas, a longo prazo, nós estaremos, finalmente, profissionalizando o time, que, se você olhar, está em uma cultura antiga. Parece uma empresa familiar".

zews MiBR Encontro das Lendas 2019 - Felipe Guerra/MiBR - Felipe Guerra/MiBR
Imagem: Felipe Guerra/MiBR

O ex-treinador da MiBR zews também se pronunciou:

O narrador Bernardo "BiDa" Moura lamentou os episódios que podem tirar a credibilidade das competições online de CS:GO:

Defesa

fer MiBR Encontro das Lendas - Felipe Guerra/MiBR - Felipe Guerra/MiBR
Imagem: Felipe Guerra/MiBR

Jogador da MiBR, Fernando "fer" Alvarenga se pronunciou sobre o caso em uma stream na noite de quarta-feira. Ele admitiu o bug, mas sustentou que dead não se utilizou dele, pois não deu informações privilegiadas para os jogadores.

"O dead não passou informação nenhuma em nenhum desses clipes", declarou fer, destacando que, apesar disso, o treinador deve ser punido por, nos rounds em questão, não ter saído imediatamente do servidor.

fer MiBR bootcamp  - Divulgação/MiBR - Divulgação/MiBR
Imagem: Divulgação/MiBR

"Não é de boa, porque a tela dele está lá. Quando acabou o round, o dead sai e volta [ao servidor]. O cara está pagando sem ter usufruído disso realmente. Ele viu, ficou quieto e aconteceu o round", disse fer, acrescentando que o técnico da MiBR não é do perfil de dar muitas instruções durante os rounds. "Ele fala muito pouco".

O pro-player ainda comentou que queria que a comunicação entre os jogadores durante as partidas polêmicas esteja gravada, no centro de treinamento da equipe, nos Estados Unidos, para comprovar sua versão. Atualmente, o time está em um período de treinamento em Belgrado, capital da Sérvia.

Outra suspeita

guerri FURIA Esports Champions Cup  - Divulgação/StarLadder - Divulgação/StarLadder
Imagem: Divulgação/StarLadder

Depois das punições a dead, o árbitro de CS:GO Michal Slowinski divulgou vídeo apontando que outro técnico brasileiro, Nicholas "guerri" Nogueira, da FURIA Esports, também se aproveitou do bug do modo espectador ao longo de uma partida inteira contra a compLexity na 7ª temporada da Esports Championship Series (ECS) da América do Norte, em março de 2019.

Em resposta, Guerri publicou um vídeo de 30 minutos em que explicou que, dois dias antes da partida contra a compLexity, o mesmo bug ocorreu em confronto contra a brasileira Luminosity Gaming e que, após o primeiro round, a câmera do modo espectador voltou ao normal. No duelo diante da compLexity, o técnico disse acreditar que aconteceria o mesmo. Mas o bug permaneceu durante toda a partida e o treinador alegou que não sabia o que fazer.

"Eu não agi de forma desonesta. Foi o bug que aconteceu e eu não sabia como agir naquele momento. Eu poderia ter desconectado. Foi ali o meu erro. O bug é uma coisa do jogo, aconteceu comigo e eu pensava que voltava. Como eu vi que [tinha acesso a informações dos adversários] que eu não poderia utilizar, dei Alt + Tab e não usei mais. Em nenhum momento eu usei informação que peguei com este bug", defendeu-se guerri, sustentando que não deixou a tela do jogo no computador e ficou em pé atrás dos pro-players, como costuma fazer.

Para provar sua versão, o treinador da FURIA divulgou a gravação do confronto na íntegra, com a comunicação da equipe.

Diante de tudo isso, espectadores e organizadores de campeonatos disputados pela internet nos últimos meses passaram a rever as partidas à procura de mais irregularidades. Um indicativo que a polêmica pode, ainda, estar longe de acabar.

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