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Animes e Guitar Hero: o brasileiro que criou um game improvável no PS2

Anime Hero - Reprodução
Anime Hero Imagem: Reprodução

André Alcântara

Colaboração para o START

06/07/2020 04h00

Eram cerca de 10 horas da manhã quando cheguei à feira livre de Canindé de São Francisco, no interior do Sergipe. Eu tinha 12 anos e três reais, que apertava com força em uma das mãos. Ia comprar um jogo. Era meu ritual de sábado.

Eis que me deparo com Anime Hero V. O jogo era o mesmo Guitar Hero, de PlayStation 2, mas a capa exibia o Seiya, dos Cavaleiros do Zodiaco, e as faixas não tinham clássicos do Rock, e sim os hinos eternos dos otakus. Anos depois, finalmente descobri o autor dessa pérola que só podia existir no Brasil.

Anime Hero Fernando - Fernando Brique/Arquivo Pessoal - Fernando Brique/Arquivo Pessoal
Imagem: Fernando Brique/Arquivo Pessoal

Animes, Orkut e Guitar Hero

O criador de Anime Hero é Fernando Briques, 34, mais conhecido como "Marinner", nome utilizado por ele para se creditar em suas produções.

Foi ele quem colocou músicas das aberturas de animes populares como Naruto, Cavaleiros do Zodíaco, Bleach entre outros nas trilhas de guitarra do game de PlayStation 2. E tudo começou por causa do Orkut, é claro.

Após conhecer uma versão alternativa e modificada de Guitar Hero 2, só com músicas de bandas nacionais, incluindo Charlie Brown Jr., a banda preferida dele, Briques foi fuçar mais sobre o assunto em comunidades na rede social do momento.

O ano era 2008, jogos como Guitar Hero e Rock Band estavam no auge, assim como o Orkut: "O Orkut era um grande fórum. Era pra mim o que deve ser um Reddit pra muita gente hoje. Então, a gente encontrava muita coisa", conta Brique.

So o que ele não conseguiu encontrar foi um Guitar Hero com músicas de anime. E isso o inquietava: "Eu tava numa vibe muito de ver anime, principalmente One Piece, que é uma das paixões que tenho".

Ele revirou a internet até que encontrou um projeto chamado Anime Hack, no próprio Orkut. Porém, a alegria durou pouco. Havia meses que o criador do mod não postava nenhuma atualização sobre o projeto. Com a paciência esgotada, Briques decidiu que não esperaria mais o tal Anime Hack ressurgir de seu aparente coma: "Eu mesmo vou ter de criar o meu'".

Fazendo torta com receita de bolo

Briques não sabia programa e colocar, na prática, aquilo que via nos vídeos de tutoriais parecia impossível: "Eu queimei muito DVD tentando coisas novas, porque eu não tinha como emular [o PlayStation 2 no PC]", explica.

Eu tava tentando pegar uma receita de bolo e fazer dela um prato novo
Fernando Briques, criador de Anime Hero

Briques criou os três primeiros Anime Hero a partir de Guitar Hero 2, que, na época, contava com mais ferramentas de modificação e com a qual a comunidade de modders estava mais habituada sem precisar de programação pesada, que era o caso no Guitar Hero III: Legends of Rock.

Anime Hero Tela - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Para além das dificuldades técnicas, havia outro fator complicador na equação: Briques precisava ter uma certa percepção musical para criar as notas de cada faixa, sequência que deve ser executada pelo jogador no game.

"Você precisa entender em que momento tá batendo a nota e saber se aquela nota é mais grave ou mais aguda, pra você saber se ela tem de ficar mais próxima do verde ou mais próximo do laranja [duas seções da trilha de sequência de notas das músicas em Guitar Hero]."

Briques criava as sequências notas em um programa enquanto ouvia as músicas no próprio PC. "Havia ali um delay, e qualquer milissegundo faz diferença pra galera. Isso aí causava um certo problema pro pessoal enquanto eles jogavam, mas era algo que eu não conseguia resolver. Isso aí infelizmente só através de programação e muito teste pra saber o que ia funcionar ou não."

O atraso entre a batida da música e o momento de execução das notas foi apontado por alguns jogadores, principalmente pelos fãs mais fervorosos de Guitar Hero, que tinham olhos e ouvidos mais críticos.

No entanto, foram minoria. A maior parte dos usuários abraçou com força o mod, fascinados com a ideia de um Guitar Hero com músicas de anime. Otakus unidos.

Irmandade otaku

Anime Hero Fernando 2 - Fernando Brique/Arquivo Pessoal - Fernando Brique/Arquivo Pessoal
Imagem: Fernando Brique/Arquivo Pessoal
Após ter finalizado o primeiro Anime Hero, em 2008, Briques publicou o arquivo do game na comunidade geral de mods de Guitar Hero no Orkut, além de criar a sua própria, dedicada à modificação.

O feedback positivo chegou mais rápido do que ele esperava e a comunidade crescia em ritmo acelerado. As pessoas começaram a pedir mais músicas, a querer mais e, em pouco tempo, a comunidade de Anime Hero tinha 12 mil pessoas.

"Gente, eu não conheço nem 120 pessoas na minha vida. Não tenho 120 amigos. Como que tem 12 mil pessoas numa comunidade de Orkut falando sobre um mod que eu fiz?"

A comunidade era utilizada por Briques principalmente para colher sugestões de músicas de animes e links com arquivos de faixas com boa qualidade. "Na época pra achar as músicas de anime não era fácil. Você tinha que entrar em sites e baixar a música, e geralmente você não achava ela completa".

Apesar de hoje em dia fazer upload de arquivos ser algo extremamente comum e existirem diversas formas de disponibilizar um arquivo qualquer na internet, em 2008, e em especial no Brasil, o processo era muito mais complexo, incluindo nisso a realização de downloads.

Um jogo de Guitar Hero tinha lá seus 2 GB. A gente tinha que dividir isso em arquivos de 100 MB

Briques conta que ele precisava não somente ter força de vontade para desenvolver o mod em si, já que fazia praticamente todo o trabalho sozinho, mas também para compartilhar o Anime Hero: "Nisso, eram horas e horas com o PC ligado, noites até, pra subir todos os arquivos e esperar o feedback da galera, ver quem baixava e se tinham conseguido", relata.

Além do arquivo de imagem (ISO) do Anime Hero, o qual os usuários utilizavam para gravar o game em um DVD virgem e jogar no PlayStation 2, Briques incluía também uma capa do mod, feita por ele com o apoio de usuários da comunidade para dar uma cara mais "profissional" ao game, além de um arquivo de texto em que avisava que se tratava de um jogo criado de fãs para fãs e que não deveria ser comercializado.

Anime Hero Músicas - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Inclusive, Briques fala que nunca chegou a receber algum tipo de processo ou advertência das empresas responsáveis por Guitar Hero. Ele mesmo nunca comercializou Anime Hero.

No entanto, as dificuldades de acesso à internet de muitos feizeram com que o jogo tivesse vazão por meios alternativos. Então, naturalmente, Anime Hero acabou chegando às banquinhas de games piratas.

As capas de Anime Hero

Anime Hero no camelô mais próximo

Em 2008 Fernando Briques caminhava pela rua Santa Efigênia, na região central de São Paulo, conhecido por abrigar principalmente vendedores de eletrônicos e videogames. "E eu vi em uma loja uma edição do primeiro Anime Hero."

Naquele momento, o Anime Hero 2 já havia sido lançado. Foi algo surpreendente para o modder: "Tinha a capinha impressa, tudo bonitinho, do jeito que eu coloquei."

Ok, o Anime Hero é uma realidade para o mundo

Na época, Briques disse que em partes gostou da presença do Anime Hero em uma banquinha como aquela, acesso ao jogo para mais pessoas. Mas por outro lado percebeu que outros lucravam em cima do trabalho tão grande que ele fazia de graça.

"Mas enfim, era uma realidade. Não tinha o que fazer. Não ia conseguir tirar das banquinhas", conclui.

Quando passou a utilizar o Guitar Hero III: Legends of Rock como base para o mod, chegou até a colocar mensagens na tela de loading do jogo.

Anime Hero Menu - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

No entanto, a estratégia não teve eficácia. Para muitos, era mais viável pagar alguns reais do que "comprar mídia, baixar todos aqueles 18, 19 arquivos, exportar, torcer pra nenhuma parte da erro, gravar, torcer pra nenhuma parte dar erro na gravação também e rodar no videogame".

É difícil estimar com precisão quantas cópias de Anime Hero foram vendidas em barraquinhas de games, mas Briques garante que não foram só algumas dezenas. O mod percorreu — e ainda percorre — o país, chegando até cidades como a minha, no interior do Sergipe.

Além disso, em uma busca rápida na internet é possível encontrar sites vendendo a versão física do Anime Hero.

O fim do Anime (Hero)

O número de downloads de Anime Hero foi diminuindo com o tempo, assim como o interesse por jogos de ritmo.

Para se ter uma noção, entre títulos da série principal e spin-offs, de 2005 a 2010 foram lançados 10 games de Guitar Hero (contando os de celular e portáteis, esse número sobe para 16).

Rock Band, outra franquia de games rítmicos, teve 10 lançamentos entre 2007 e 2010, incluindo produções da linha principal, spin-offs e títulos para portáteis e celulares. Tudo isso somado às modificações às quais alguns usuários tinham acesso.

Isso fez com que Fernando Briques parasse de desenvolver novas edições de Anime Hero. O último lançado foi Anime Hero V, em meados de 2009, a qual, segundo ele, foi a edição com menor aceitação do público, por reunir músicas dos anteriores e não trazer novidades nesse sentido.

"Na época eu já estava na faculdade e precisava pagar contas. Era um negócio que eu fazia por paixão, não dava dinheiro nenhum", explica ele. "Então não dá pra gente manter o desenvolvimento de algo sem ter nenhum tipo de rendimento. Tive que abandonar o projeto."

Depois de mais de uma década, um revival de Anime Hero é uma possibilidade? Briques afirma que daria muito mais trabalho de fazer um Anime Hero hoje pois "eu ia querer fazer algo muito melhor, muito mais bem desenvolvida".

Anime Hero ML - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Ele comentou que poderia fazê-lo em Clone Hero, um jogo que permite que usuários criem suas próprias sequências de notas de músicas e as adicionem no game, porém "eu só faria isso se a galera pedisse".

Lançando ou não uma nova edição de Anime Hero, Briques acredita que seu trabalho marcou a juventude de muitos e deixou um legado para a comunidade de mods de anime para Guitar Hero.

"Me enche o coração, porque trabalhar com jogos, falar de jogos, jogar, é uma coisa que sempre gostei e que sempre quis fazer. Até hoje sou apaixonado pelo que eu fiz com Anime Hero e pelo mundo dos games."

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